Ana Brígida para The New York Times
Ana Brígida para The New York Times

Surfistas de grandes ondas impulsionam economia de pequena cidade portuguesa

Pescadores dividem o espaço com jet-skis e pranchas de surfe

Patrick Kingsley, The New York Times

24 de novembro de 2018 | 06h00

NAZARÉ, PORTUGAL - No mercado do antigo vilarejo de pescadores de Nazaré, aposentados portugueses faziam compras. Velhos pescadores conversavam tomando café. Um surfista americano que quebrou vários recordes tomava uma vitamina de frutas.

Era Garrett McNamara, 51, do Havaí, que até pouco tempo atrás detinha o recorde mundial da onda mais alta já surfada. E que, na maior parte da sua vida, nunca tinha visitado a Europa e teve de procurar Portugal no mapa.

Durante séculos, Nazaré foi uma cidadezinha como tantas outras à beira do mar, onde os pescadores ensinavam os filhos a evitar as grandes ondas. Mas nos últimos oito anos, estas mesmas ondas vêm atraindo surfistas especializados como McNamara, seus fãs e as empresas globais que patrocinam os atletas.

Do tamanho de um prédio de dez andares, elas são provocadas por um desfiladeiro submarino - com cerca de cinco quilômetros de profundidade, e 200 quilômetros de comprimento - que acaba abruptamente logo antes de tocar a praia.

Quando McNamara viu pela primeira vez estes enormes paredões de água, em 2010, “foi como encontrar o Santo Graal”, ele disse. “Eu havia encontrado a onda que procurava há tanto tempo”.

No forte do século do século 17 da cidadezinha, os turistas agora olham com cobiça as pranchas nas salas onde a polícia marítima costumava confiscar redes de pesca. Na baía, pilotos profissionais testam os jet skis a poucos metros de onde os aldeões secam o peixe na praia. No porto, surfistas alugam galpões perto do lugar onde os pescadores descarregam o produto da pesca do dia.

A dinâmica constitui uma enorme mudança tanto para o mundo do surfe das grandes ondas quanto para os 10 mil habitantes de Nazaré, que costumavam ter o lugar só para eles no inverno.

Muitos deles conhecem alguém que morreu no mar, e nunca imaginaram que fosse possível nadar nas suas enormes ondas nem muito menos surfá-las.

“Achei que ele fosse louco”, disse Celeste Botelho, proprietário de um restaurante que forneceu refeições a um preço camarada a McNamara e à sua equipe. “Pensamos que essa praia fosse uma praia deserta”.

McNamara passou o inverno de 2010 estudando o ritmo do fenômeno e os contornos do leito marinho, às vezes com a ajuda da marinha portuguesa.

Em novembro de 2011, McNamara surfou uma onda de 23,8 metros - tornando-se o detentor de um recorde mundial, e Nazaré virou um nome reconhecido em todo o mundo do Surf.

Os turistas começaram a aparecer em números consideráveis no final de 2012, ansiosos por ver as ondas mais altas do mundo.

Quando Paulo Peixe fundou a Escola de Surf de Nazaré, pouco antes de McNamara quebrar o recorde mundial, os surfistas eram considerados “sujeitos que não gostam de trabalhar”, disse Peixe. “Agora é diferente. As pessoas perceberam que o surfe é bom”.

A cidade agora se acostumou tanto à presença de surfistas, e à atividade econômica que o esporte acaba gerando, que até os pescadores locais, que às vezes competem com eles pelo espaço na água, em geral são bem-vindos.

“Os surfistas têm uma relação diferente com o mar”, disse João Carlines, um pescador aposentado. 

“Mas estou satisfeito porque o povoado ficou conhecido pelo surfe e isto significa que pessoas virão aqui no inverno”.

Mas há alguns motivos de tensão. O número de pessoas de fora comprando imóveis em Nazaré ainda é relativamente reduzido, mas os preços e os aluguéis estão subindo, como no resto do país.

Isto é positivo para uma geração de habitantes donos de imóveis, mas alguns temem que a próxima terá de sair do centro da cidade e procurar lugares economicamente acessíveis para morar.

“O pior”, disse Peixe, “é que provavelmente vamos perder a ideia de que éramos um vilarejo tradicional”.

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