EFE/presidencia Turca
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Surto de novas construções na Turquia paira acima de economia instável

Crescimento econômico através de política de empréstimos sem limites aumentou endividamento a patamares preocupantes

Peter S. Goodman, The New York Times

20 Julho 2018 | 10h00

YENIKOY, Turquia - Voltado para o Mar Negro, o novo aeroporto de Istambul foi pensado para impressionar. Quando for terminado, em dez anos, o complexo de 12 bilhões de dólares deve transportar aproximadamente 200 milhões de pessoas ao ano, superando com larga margem todos os demais aeroportos movimentados do mundo.

Mas o aeroporto também se converteu num símbolo de um aspecto menos palatável da encarnação moderna da Turquia: o completo descaso diante da aritmética e da independência de importantes instituições do governo. Juntos, eles expuseram o país a um crescente risco de mergulhar numa crise financeira.

Numa economia global cada vez mais marcada por preocupações, a Turquia pode representar a causa mais imediata de alerta. O presidente do país, Recep Tayyip Erdogan, usou de sua influência para proporcionar um crescimento econômico implacável por meio de uma política de empréstimos sem limites, levando o nível de endividamento a patamares preocupantes.

Num sinal da apreensão dos investidores, o valor da lira, moeda turca, teve queda de aproximadamente 20% este ano, aumentando os preços para lares e empresas.

O aeroporto - o primeiro estágio deve ser inaugurado em outubro - foi erguido com dinheiro público entregue a construtoras próximas a Erdogan. O governo ofereceu a elas garantias contra quaisquer prejuízo. Se, como preveem muitos economistas, o aeroporto for maior do que o necessário para atender a demanda dos passageiros, o público vai pagar a conta.

Para os aldeões que foram expulsos de suas casas para abrir caminho para o novo aeroporto, o projeto se tornou um monumento aos seus piores medos. “Erdogan está cuidando dos seus aliados", disse Bora Dayilar, agricultor cuja terra usada para pasto foi tomada pelo projeto do aeroporto. “A nós não resta nada.”

A Turquia ainda é uma das economias que cresce mais rapidamente no planeta, expandindo-se ao ritmo de 7,4% no ano passado. Mas esse crescimento foi alimentado em parte por empréstimos insustentáveis.

O governo está subsidiando vastos projetos de infraestrutura como o aeroporto e um canal de 45 quilômetros de comprimento ligando o Mar Negro ao Mar de Mármara ao custo de 13 bilhões de dólares. E muitas empresas fizeram empréstimos em moedas estrangeiras, o que significa que o fardo do endividamento aumenta conforme a lira é desvalorizada.

Já no final de abril, as empresas do setor privado turco deviam mais de 245 bilhões de dólares ao exterior, o equivalente a quase um terço da economia do país inteiro.

“É um número imenso", disse Selva Demiralp, economista que trabalhou anteriormente no Banco Central americano, Federal Reserve, em Washington, e agora leciona na Universidade Koc, em Istambul. “E o governo as está incentivando a pedir ainda mais empréstimos.”

A Turquia pode atrair mais dinheiro se continuar aumentando os juros, já na marca dos 17,75%. Mas isso limitaria o crescimento econômico e acabaria com o período de prosperidade vivido pelas indústrias da construção e imobiliária.

Ou a Turquia pode manter o crescimento e observar a inflação se acumulando conforme a lira se desvaloriza cada vez mais. Isso pode condenar empresas fundamentais à insolvência.

“A Turquia pode ser o próximo país a se desintegrar", disse Marie Owens Thomsen, economista-chefe global da Indosuez Wealth Management, em Genebra. “Estão presentes todos os ingredientes do início de um estado fracassado.”

Dentro do Grande Bazar de Istambul, um labirinto de lojas de joias, carpetes e antiguidades, os mercadores se queixam pois o aluguel é pago em dólares ou euros, enquanto vendem seus produtos por 

liras. Seu aluguel está aumentando enquanto as vendas caem.

“A lira turca é como gelo no verão", disse Zeki Uckardes, mercador do bazar. “Assim que a pegamos nas mãos, ela começa a derreter.”

Em Yenikoy, vilarejo próximo ao novo aeroporto, a sensação de uma crise vem se acumulando desde o anúncio do projeto por parte de Erdogan, que tem o sonho de transformar a cidade num centro de transporte aéreo capaz de rivalizar com Londres e Dubai.

Não se trata de loucura: Istambul é uma cidade de 15 milhões de habitantes que fica no encontro entre Ásia, Europa e Oriente Médio. Seu principal aeroporto, Ataturk, mal consegue acomodar as massas de passageiros de hoje.

As escavadeiras reviram agora o solo claro ao longo do Mar Negro, construindo o aeroporto. O avô de Dayilar cultivava essa terra. Seu pai plantou nela, e ele também.

Para construir o aeroporto, o governo requisitou as terras usadas como pasto, oferecendo a elas uma modesta compensação.

Numa tarde recente, Dayilar, 32 anos, sentava-se esperando por um caminhão que transportaria suas 

últimas 28 vacas. Ele as tinha vendido a um negociante.

A inflação acabou com seu sustento. Nos mercados do vilarejo, o preço da comida aumentou. O feno importado está 50% mais caro do que há poucos meses. O preço da cevada aumentou muito, bem como o custo do combustível para o trator.

“Deus nos ajude", disse Dayilar. “Estou desempregado. Não sei o que fazer.”

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