Mustafa Hussain / The New York Times
Mustafa Hussain / The New York Times

Crianças são as mais afetadas com surto de HIV no Paquistão

Seringas reutilizadas e outras práticas alimentam a epidemia; 900 infectados têm menos de 12 anos

Zia Ur-rehman e Maria Abi-habib, The New York Times

31 de outubro de 2019 | 06h00

RATODERO, PAQUISTÃO— Quase 900 crianças da cidade paquistanesa de Ratodero ficaram de cama no início deste ano, apresentando febre alta e resistente ao tratamento. Em abril, a causa foi determinada: a cidade era o epicentro de um surto de HIV que afetava majoritariamente as crianças. Inicialmente, autoridades de saúde puseram a culpa do surto em um único pediatra, Muzaffar Ghanghro, afirmando que ele teria reutilizado seringas.

Desde então, o vírus foi detectado em cerca de 1.100 cidadãos, o equivalente a um em cada 200 moradores. Quase 900 infectados têm menos de 12 anos. Autoridades de saúde acreditam que os números reais são provavelmente muito mais elevados. “A situação era desoladora”, lamenta o jornalista de TV Gulbahar Shaikh, de 44 anos, de Ratodero, uma cidade de 200 mil habitantes cujos moradores estão entre os mais pobres do Paquistão. Sua filha de 2 anos contraiu o vírus, que causa a aids.

Ghanghro foi preso e acusado de negligência, homicídio culposo e lesão corporal culposa. Mas ele não foi condenado ainda e, em entrevista ao New York Times, insistiu que é inocente.

Autoridades de saúde afirmam agora que é improvável que Ghanghro tenha sido o único causador do surto. Trabalhadores temporários da área da saúde na região testemunharam muitos casos em que os médicos reutilizaram seringas e agulhas intravenosas. Barbeiros usam as mesmas navalhas nos rostos de inúmeros clientes e dentistas arrancam dentes dos pacientes com instrumentos não esterilizados. 

Aumento de casos de HIV

O surto em Ratodero reflete um aumento nacional nos casos de HIV, apesar de um declínio na taxa global de novas contaminações. De acordo com estimativas, entre 2010 e 2018, o número de soropositivos no Paquistão quase dobrou, chegando a 160 mil pessoas.

Meses após o início do surto, os moradores ainda fazem fila para realizar os testes. Em maio, as autoridades começaram a fechar clínicas com médicos não qualificados e bancos de sangue ilegais — descobriu-se que muitas dessas instalações reutilizavam seringas. Mas algumas dessas clínicas reabriram. “Se esses médicos charlatães, barbeiros e dentistas não forem inspecionados, o número de incidentes de contaminação por HIV continuará subindo”, teme o médico local Imran Akbar Arbani. Pelo menos 35 crianças morreram na região desde 25 de abril, afirmou ele.

O efeito no tecido social de Ratodero tem sido cruel. Em maio, um homem estrangulou a mulher, soropositiva, até matá-la. E, em junho, moradores de outra cidade encontraram uma vizinha amarrada a uma árvore, por sua própria família, depois que o teste realizado por ela ter dado positivo para o vírus. A família afirmou que queria evitar que ela espalhasse o vírus.

Shaikh, o jornalista, afirmou que vendeu as joias de mulher e pegou dinheiro emprestado para pagar pelo tratamento que sua filha precisa. “No início, havia atenção e uma indignação, os pacientes estavam em evidencia”, diz. “Agora, estão quase esquecidos". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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