Sebastian Baron/Screen Gems via The New York Times
Sebastian Baron/Screen Gems via The New York Times

Suspense tecnológico propõe debate sobre uso das ferramentas digitais

'Buscando...', filme que se passa inteiramente em telas de dispositivos, mostra o drama de um pai que tenta solucionar o mistério do desaparecimento da filha

Mekado Murphy, The New York Times

30 Agosto 2018 | 10h00

O Skype estava com problemas. Eu tentava falar com os realizadores de "Buscando..." ("Searching"), um filme de suspense que se desenrola nas telas de dois computadores e em dispositivos digitais, mas os meus não estavam cooperando, então, depois de tentar em vão, decidi transferir a conversação para o Google Hangouts.

Procurar a melhor maneira de estabelecer uma comunicação por meio de uma tecnologia que muda continuamente é a história da minha vida. E usar a tecnologia para solucionar problemas é praticamente minha tarefa diária. “Buscando...” leva estas ideias para o momento mais urgente: como navegaríamos em um mar de tecnologia se a vida de alguém dependesse disso?

Este é o problema que David Kim, interpretado por John Cho, enfrenta no filme. A filha de David, Margot, desapareceu, e ele usa ferramentas digitais  e a internet para encontrá-la. A busca é com auxílio do Google, Facebook, Instagram, FaceTime, iMessage e assim por diante. Mas quando David faz buscas no computador de Margot, na esperança de achar alguma indicação, descobre um abismo entre a maneira como ele usa o mundo digital e o que ele representa para sua filha.

“Por fim, o que procuramos na tela de um computador são dicas, informações”, disse Aneesh Chaganty, diretor de “Buscando...”, seu primeiro longa. “Concluímos que se este veículo que está cheio de informações, tornaríamos a informação o obstáculo e o objetivo da história”.

O filme utiliza de maneiras surpreendentes as imagens da nossa vida que a tela nos mostra. Uma das primeiras tomadas é a de uma paisagem de colinas onduladas e de um céu azul. Não se trata de um lugar real. É uma tela de desktop do login do sistema operacional Windows, e é a que usamos para significar uma era anterior nos computadores e dar início à montagem da vida de uma família num ambiente tecnológico.

Outra cena transforma o familiar em algo estranho e assustador. A sequência começa com uma tela preta com uma música ameaçadora, em seguida aparece o turbilhão de cores do protetor de tela comum de um Mac. Este momento, e muitos outros que injetam doses de energia, é fruto da análise de Chaganty, 27, e de seu coautor Sev Ohanian, de todas as teclas e recursos do sistema operacional do Mac. Eles tentavam compreender estas funções em um contexto emocional e perguntavam o que significa o "espaço" de um texto, ou "compartilhar" alguma coisa.

“O que significa este ‘desligar’ quando você está no meio da busca de sua filha?”, disse Ohanian. “Então nos damos conta de que encontramos todas estas coisas diariamente, e isso é emoção. Esses recursos que usamos regularmente são lugares em que nos expressamos”.

Entretanto, todas essas formas de expressão às vezes nos afastam dos que estão mais próximos de nós. Isso fica claro quando David percebe que não sabe onde sua filha passava o tempo. Margot criou uma vida que está escancarada para o mundo, mas completamente oculta de seu próprio pai.

Este contraste é a essência em que os realizadores estavam tentando chegar: um pai em busca da filha desaparecida e que se pergunta se não a perdeu anos antes.

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