Andrea Mantovani para The New York Times
Andrea Mantovani para The New York Times

De ciclovia em ciclovia, Paris se transforma

Mais congestionamento no meio de canteiros de construção, mas menos automóveis

Adam Nossiter, The New York Times

21 de outubro de 2019 | 09h35

PARIS - Em toda Paris, as ruas estão sendo reviradas, divididas ao meio, as antigas pedras do calçamento arrancadas para a construção de quilômetros de ciclovias. Uma importante rodovia foi fechada para os automóveis e destinada exclusivamente aos pedestres.

As temperaturas recordes do mês de julho transformaram a cidade em uma estranha visão caótica, prenúncio do que poderá ocorrer futuramente. O calor brutal acabou com qualquer dúvida na mente da prefeita, Anne Hidalgo: a mudança climática chegou. A prefeita, nascida na Espanha, passou os últimos cinco anos procurando transformar a cidade milenar em uma versão mais verde de si mesma. No final do verão, havia em andamento mais de 8 mil projetos, com praças históricas transformadas para se tornarem mais transitáveis aos pedestres.

Tanto os visitantes quanto os moradores agora podem passear pelas margens do rio de bicicleta, protegidos dos carros por barreiras de granito, e também por toda a cidade, ganhando dos engarrafamentos de trânsito.

A ideia da prefeita é simples: para garantir um futuro com o atual clima incerto, Paris deve proteger-se e voltar ao passado - um passado com menos automóveis.

“O que empreendemos é um programa de adaptação completo, a reintrodução da natureza na cidade”, ela disse.

Anne Hidalgo, uma socialista que se candidatará à reeleição no próximo ano, ganhou partidários da sua visão avançada, e também milhares de inimigos em razão da destruição provocada por seus projetos.

“É uma histérica”, disse Hamza Hansal, proprietário de uma frota de 10 táxis. “Agora, só há ciclovias e obras. O caos total.”

Outros críticos, particularmente de direita, a acusaram de fazer experimentos com o ambiente em detrimento dos moradores.

A cidade registrou uma queda abrupta dos carros particulares, de 60% dos domicílios em 2001, a 35% hoje.

“Há menos carros, mas há mais congestionamentos, e isto pode afetar os níveis de poluição”, observou Paul Lecroart, do departamento de planejamento da região de Paris.

No meio tempo, Paris subiu na lista de  cidades que preferem a bicicleta, do 17º lugar em 2015, para o oitavo.

“Ela é muito rigorosa com os automóveis”, afirmou Darnaud Guilhem, um jardineiro profissional, referindo-se a prefeita. “Mas acho que está certa. Está provocando ranger de dentes. Mas Paris, com todo este trânsito, acabou se tornando uma cidade onde é impossível viver”.

“Está na direção certa”, acrescentou.

Uma das medidas mais contestadas da prefeita foi o fechamento de algumas partes da rodovia construída há 42 anos ao longo da Margem Direita do Sena, e a sua transformação em um parque. A longa margem hoje está repleta de uma juventude alegres nas noites quentes, e, em termos de raça e casses sociais, virá a ser uma das partes mais integradas da cidade.

“Com isto, conseguiu ter todos contra ela”, na opinião de Corinne Lepage, ex-ministra do Meio Ambiente da França. “Esta foi uma verdadeira reconquista do espaço urbano”.

Agora, Anne planeja “florestas urbanas”, árvores beirando o rio e em frente a alguns pontos mais icônicos da cidade, como a Opera Garnier, o Hôtel de Ville e a estação ferroviária Gare de Lyon. Um alto funcionário divulgou uma nota detalhando um possível corredor verde que atravessará a cidade, se ela for eleita para um segundo mandato.

Leo Fauconnet, um especialista em urbanismo do departamento de planejamento da região de Paris, deu todo o crédito a Anne Hidalgo. “Agora nós temos uma política de ação, em comparação com outras cidades do mundo”, afirmou.

Mas os ambientalistas ferrenhos, cujo prestígio político aumentou com a criação do Partido Verde, não estão convencidos.

“A política ambiental visa limitar os danos”, disse Jacques Boutault, o prefeito verde do Segundo Distrito Administrativo (Arrondissement) de Paris, central. “Não se pode simplesmente jogar concreto, e depois plantar árvores sobre o pavimento”.

Críticos mais contundentes falaram em simpatia  da Prefeitura pelas construtoras. O gabinete da prefeita “usa uma linguagem dupla”, afirmou Antoine Picon, especialista em história da arquitetura da Universidade Harvard. “Verde, sim, mas vamos continuar encorajando a densificação de Paris, que já é uma das cidades mais compactas do mundo. Toda a cidade está sendo transformada em um centro comercial”.

De fato, o caráter da cidade está mudando em certos aspectos que Hidalgo se mostrou menos ativa em enfrentar.

As famílias da classe trabalhadora estão deixando as áreas centrais como o Segundo Arrondissement, que perdeu cerca de 10% de sua população desde 2015. A Airbnb criou bairros de proprietários ausentes. O preço médio do metro quadrado de um apartamento chega a $ 10.000, o que torna a cidade uma das mais caras do mundo.

A prefeita diz que está consciente destes perigos também, e que trabalha para mitigá-los.

“Paris não pode ser apenas uma cidade para os vencedores”, afirmou. “O papel dos políticos é regulamentar. E impedir que esta cidade seja apenas dos vencedores”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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