Jason Henry/The New York Times
Jason Henry/The New York Times

Concreto, um material usado há séculos, ganha novas receitas para ficar mais sustentável

O concreto é responsável por cerca de 8% das emissões globais de carbono e várias empresas estão trabalhando para criar uma versão mais verde

Jane Margolies, The New York Times - Life/Style

30 de novembro de 2020 | 05h00

Em qualquer dia, a Central Concrete, em San José, Califórnia, faz o que as empresas de concreto vêm fazendo há séculos: combina areia, cascalho, água e cimento para criar a pasta que é usada na construção. Mas a Central - uma das poucas empresas na vanguarda de um movimento para produzir um concreto mais verde - está experimentando cada vez mais com algumas misturas decididamente novas.

Em uma parte da fábrica, dióxido de carbono de uma empresa de gases químicos é injetado no concreto, prendendo esse gás de efeito estufa e mantendo-o fora da atmosfera, onde contribuiria para o aquecimento global. Em outro lugar, os engenheiros mexem na receita do concreto, experimentando substitutos para parte do cimento, que compõe cerca de 15% da mistura e funciona como a cola que mantém tudo junto.

O cimento, no entanto, também é responsável pela maioria das emissões de carbono do concreto - emissões tão altas que alguns têm abandonado o concreto e passado a usar materiais de construção alternativos, como madeira maciça e bambu. O concreto, ao que parece, tem um sério problema de poluição.

O material de construção mais utilizado no planeta nos deu edifícios esculturais, pontes e barragens robustas, estacionamentos e inúmeras outras estruturas que nos rodeiam. Mas o concreto também é responsável por cerca de 8% das emissões globais de carbono. Se o concreto fosse um país, ocuparia o terceiro lugar em emissões, atrás da China e dos Estados Unidos.

Só nos Estados Unidos, 282,8 milhões de metros cúbicos de concreto foram produzidos no ano passado, com quase 40% disso indo para imóveis comerciais, de acordo com a National Ready Mixed Concrete Association, um grupo comercial. Nas últimas décadas, arquitetos, desenvolvedores e formuladores de políticas que buscam reduzir a pegada de carbono dos edifícios têm se concentrado na redução do uso de energia, melhorando a eficiência da iluminação, do aquecimento e de outros sistemas.

Para reduzir ainda mais as emissões, eles estão olhando além dessas questões operacionais para o carbono emitido na produção e transporte dos materiais que compõem as estruturas, ou o chamado carbono incorporado. Todos os olhos estão voltados para o concreto porque os edifícios usam muito dele, desde as fundações até os andares mais altos. “As pessoas estão ficando mais espertas sobre de onde vêm os impactos do aquecimento global”, disse Amanda Kaminsky, diretora da Building Product Ecosystems, uma empresa de consultoria sediada em Nova York.

“O concreto é responsável por uma parcela desproporcional.” A Central, parte da U.S. Concrete, fabricante com sede no Texas, está avançando no enfrentamento do problema: o concreto de baixa emissão representa 70% do material que a empresa produz anualmente, contra 20% no início dos anos 2000. O esforço da fábrica para descarbonizar "realmente se acelerou nos últimos três anos", disse Herb Burton, vice-presidente e gerente-geral da região oeste da U.S. Concrete.

O laboratório de pesquisa nacional da U.S. Concrete na fábrica de San José está orientando o esforço da Central. Chefiado pela engenheira Alana Guzzetta, o laboratório examina tecnologias e produtos desenvolvidos por outras empresas, decidindo se vai testá-los e, em última instância, incorporá-los às suas operações. No entanto, mexer na receita do concreto não é novidade. Os romanos usavam uma fórmula envolvendo cal e rocha vulcânica.

No início do século 19, um pedreiro inglês inventou o cimento Portland, ainda o tipo mais usado, cuja produção envolve a combinação de calcário e argila e seu aquecimento a temperaturas escaldantes. Cada projeto de construção hoje tem sua própria mistura de concreto, projetada por engenheiros estruturais para levar em conta como e onde será usado. Várias novas maneiras de tornar o concreto mais verde empregam o dióxido de carbono residual.

A CarbonCure Technologies, uma empresa com sede em Halifax, Nova Scotia, inventou um processo que envolve a injeção de dióxido de carbono líquido no concreto durante a mistura. Isso não apenas mantém o gás de efeito estufa fora do ar, mas também fortalece o concreto e reduz a quantidade de cimento necessária.

Até agora, o concreto da CarbonCure tem uma redução líquida de carbono de apenas 5% a 7%, mas a tecnologia já foi instalada em 225 fábricas nos Estados Unidos. Recentemente, a Central usou a tecnologia CarbonCure para o concreto que forneceu ao LinkedIn para a sede de 22,7 mil metros quadrados que a empresa de networking está construindo em Mountain View, Califórnia.

A Blue Planet, com sede em Los Gatos, Califórnia, usa dióxido de carbono coletado da chaminé de exaustão de uma usina de energia para produzir um calcário sintético que funciona como um substituto para a areia e o cascalho no concreto. Embora a Blue Planet ainda esteja testando sua tecnologia, a Central já usou seu agregado no concreto utilizado no Aeroporto Internacional de São Francisco.

Outras empresas - incluindo a Solidia Technologies em Piscataway, Nova Jersey, e a BioMason em Durham, Carolina do Norte - desenvolveram processos que estão sendo usados para produtos de concreto fundido como pavimentação e telhas. A Central está controlando toda a ação.

Essa é a abordagem certa, disse Jeremy Gregory, diretor-executivo do Concrete Sustainability Hub, um grupo financiado pela indústria no Massachusetts Institute of Technology (MIT). “Não vejo uma única tecnologia revolucionária”, acrescentou. “Vai ser uma combinação de coisas”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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