Rose Marie Cromwell/The New York Times
Rose Marie Cromwell/The New York Times

Suzi Analogue quer que as mulheres negras na música experimental não façam concessões

Ela não conseguiu encontrar uma gravadora que entendesse seu trabalho, então ela criou a sua. Agora ela está dobrando sua missão de fornecer uma casa para outras pessoas que desejam criar com total liberdade

Marcus J. Moore, The New York Times - Life/Style

30 de janeiro de 2021 | 05h00

Os protestos Black Lives Matter de 2020 colocaram uma nova pressão sobre a indústria da música para que seja avaliada sua longa e problemática relação com a questão racial. É um setor que confiou no talento negro no palco sem investir em executivos negros nos bastidores, espaço em que os artistas negros foram empurrados para gêneros e formas de criação específicos, lugar em que mulheres e pessoas LGBT negras foram ainda mais marginalizadas.

Nada disso era novidade para Suzi Analogue. A produtora e dona de um selo de gravação de Miami, de 33 anos, cujo nome de batismo é Maya Shipman, passou a maior parte da carreira traçando o próprio caminho – e oferecendo alternativas para outros que queriam evitar ser colocados em uma caixa.

Conversando de seu estúdio multimídia, cheio de monitores de tela larga, gravadores de fita de rolo e teclados, localizado no espaço de artes Faena Forum, onde é artista residente, não demorou muito para Analogue articular o núcleo de sua missão: "O acesso ao capital é uma obrigação para a música negra no futuro, especialmente para os organizadores criativos e culturais que por acaso são mulheres, que por acaso são 'queer'", disse a artista na primeira das duas longas horas de entrevista por vídeo. (Acontece que ela é os dois.)

Nesse vasto espaço iluminado pelo Sol, Analogue cria uma música eletrônica dançante, centrada em uma batida rápida e em samples obscuros – som idiossincrático que é igualmente atual e voltado para o futuro.

"Ouvir a música dela me faz sentir como se eu estivesse em Tóquio pela primeira vez. Ela tem o mesmo glamour, um glamour cru. É como se Sun Ra fosse uma mulher que toma muito ácido e vai a raves", definiu o produtor Ringgo Ancheta, figura notável na cena beat underground, conhecido como Mndsgn.

Por fazer música distinta em um espaço historicamente reservado a homens brancos, Analogue ainda voa abaixo do radar da grande mídia, apesar do vasto currículo – uma lista de músicas aclamadas pela crítica e álbuns colaborativos há mais de uma década. Por meio da Never Normal Records, o selo que criou em 2013, ela não apenas lança o próprio trabalho, difícil de descrever, mas também fornece uma plataforma para que outros artistas com ideias semelhantes façam o mesmo.

"Na grande mídia, não há muito espaço para encontrar uma direção criativa própria. As pessoas vão dizer: 'Ei, não sabemos como comercializar isso.' Esse é um termo genérico para a discriminação e o racismo no mundo da música", argumentou Analogue.

O interesse dela pela música começou cedo e se originou em várias regiões da Costa Leste. Sua família se mudou de Baltimore, em Maryland, para Quincy, em Massachusetts, quando ela era pequena, e, depois que seus pais se separaram, ela e a mãe se mudaram para Prince George, na Virgínia, 30 minutos ao sul de Richmond. Seu pai é do Bronx, em Nova York; nos meses de verão, ela o visitava e era exposta à cultura hip-hop em primeira mão". Então, quando criança, era normal ouvir música de todos os lugares", disse.

No ensino fundamental, ela fez amizade com filhos de militares que tinham se mudado para Prince George, provenientes de países como o Japão ou a Alemanha, e eles a apresentaram à música local. Na segunda série, ela e outras garotas se uniram por causa do amor que nutriam pelo trio de R&B TLC. "Formamos um pequeno grupo musical para cantar na reunião da turma no fim do ano. Acho que cantamos Boyz II Men. Mas fui eu quem montou o grupo", explicou a artista.

Ainda criança, já sabia que não queria ser apenas uma cantora ou apenas uma produtora: "Acho que sempre senti que poderia fazer mais, tipo: 'Não quero só cantar a música de alguém, vou cantar minha música'". Durante o dia, cantava R&B e, à noite, ópera; também ouvia rap local na rádio FM.

Analogue estava na pré-adolescência quando dois outros moradores da Virgínia, Missy Elliott e Timbaland, começaram fazer barulho. Entre as outras influências iniciais também da Virgínia estão Teddy Riley (que se mudou do Harlem, em Nova York, para Virginia Beach) e Pharrell Williams; todos faziam um R&B progressivo e prosperaram comercialmente, embora morassem fora das grandes cidades conhecidas como um funil para a indústria.

Depois do ensino médio, Analogue foi para a Universidade Temple, na Filadélfia; atraída pela comunidade de lá, que cresceu a partir do site e fórum de mensagens Okayplayer, ela queria se conectar com mais criadores do Sul que pensassem como ela. Assim, começou a criar batidas depois que alguns amigos lhe deram um software de produção musical e, mais tarde, adotou o nome artístico que é uma homenagem ao alter ego de RZA, Bobby Digital.

"Eles sabiam que eu estava fazendo música principalmente para a escola e para a igreja. Eu só fazia o que era possível fazer com downloads. Eu me lembro de baixar discursos, como os de Malcolm X do Napster, e de tentar colocar um sample de jazz sobre eles", relembrou Analogue.

Essa foi sua primeira incursão no estilo de produção em patchwork pelo qual é conhecida hoje. Analogue criou uma conta no MySpace e começou a compartilhar sua música on-line, o que chamou a atenção de Glenn Boothe (conhecido como Knxwledge), até então um novato da Filadélfia que se tornou um dos mais populares criadores de beats da música underground.

Os dois se tornaram amigos rapidamente. "Estávamos apenas tentando encontrar um estilo próprio. Comprei meu apartamento em segredo, porque, sendo filha única, não poderia morar no dormitório da faculdade. Foi bom, porque lá as pessoas podiam entrar e fazer testes como em laboratório", disse.

Ancheta, que estava morando no sul de Nova Jersey, viajou à Filadélfia para fazer música com Knxwledge e Analogue em um coletivo chamado Klipmode, depois de conversar com ela online. "A música de Suzi tinha essas progressões de acordes malucas. Tudo tinha essa mistura estranha com texturas orgânicas; havia algo um pouco solto e estranho naquilo tudo", afirmou Ancheta.

O som de Analogue sempre teve um sabor global e atraiu ouvintes do exterior – sua marca registrada de batidas fora do tempo e baterias sobrepostas é excelente para as pistas de dança da África Ocidental ou Oriental – e, ainda com 20 e poucos anos, ela lançou trabalhos em selos internacionais.

Mas nunca se conectou com a indústria de seu país: "Nunca tentei assinar um grande contrato nos Estados Unidos, quando comecei a lançar faixas, por muitos motivos, mas o principal era que a música que eu fazia estava sendo mais valorizada fora do meu país de origem. Algumas pessoas me sondaram, mas eu simplesmente não conseguia levar a sério e esperar até que elas 'decidissem'."

Ela fundou a Never Normal Records por necessidade: "Eu diria que muitos dos meus colegas músicos homens receberam ajuda para lançar as músicas antes de mim. Quando eu via isso acontecer, simplesmente continuava meu trabalho". Como resultado, seu selo é um porto seguro para que os músicos resistam às noções da indústria de como o trabalho deles deve ser. Artistas como o multidisciplinar Khx05 e o produtor de música eletrônica dançante No Eyes têm rédea solta para ser quem são.

"Pode ser jungle, gabber, ghetto house, trap, tudo. Tudo isso é música negra, herança negra, cultura negra e tradição negra", argumentou Analogue. Apesar das raízes negras em muitas variedades de dance music, Analogue disse que enfrentou discriminação no gênero: "A música eletrônica está bastante tingida de branco. Todos os que não são brancos são tratados como uma anomalia".

As tendências se estendem para além da cor da pele. "Como mulheres, todas passamos por isso. No começo, quando eu estava nesses selos, todos os homens ficavam um pouco desconfortáveis", contou a produtora experimental Jennifer Hernandez, que grava com o nome JWords e lançou o EP "Sín Sénal" no ano passado pelo selo de Analogue.

Embora sua gravadora tenha ajudado seu perfil a crescer, Analogue sabe que seu trabalho está longe de acabar. Este ano, ela está iniciando um projeto que une produtores da diáspora africana com criadores de beats da África para fazer novas faixas. Também está planejando lançar novas músicas e arte visual de outros criadores negros não convencionais, enquanto dá oficinas de educação musical em Gana, como diplomata cultural do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

"A música sempre foi sobre as pessoas. Sempre foi um instrumento de conexão. Como mulher negra, sei exatamente como é sentir que não há lugar para mim. Quero mostrar a outros artistas que sempre haverá um lugar para eles", disse Analogue.

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