Amanda Mustard/The New York Times
Amanda Mustard/The New York Times

As frutas tailandesas dão trabalho para comer, mas oferecem uma recompensa sublime

Há mercados onde é possível encontrar vendedores dedicados exclusivamente a descascar jacas e outras frutas complicadas

Hannah Beech, The New York Times - Life/Style

23 de julho de 2020 | 11h49

Por toda Bangcoc, o que se vê é suco de fruta pingando no queixo, escorrendo no braço e manchando as calçadas.

Isso porque é o pico da estação na Tailândia, quando a alta das temperaturas ajuda a concentrar os açúcares nas delícias tropicais nativas do Sudeste Asiático.

Não há nada parecido com elas em nenhum outro lugar: uma tem uma casca cheia de pontas, mais parecida com uma armadura, e encerra um fedor putrefato; a outra solta uma seiva grudenta quando descascada. Tem também a que tinge de roxo os dedos de quem quiser a polpa suculenta.

E tem o rambutão, cujo nome significa "coisa peluda" em malaio. Com a casca em um tom vermelho escuro e coberta de uma espécie de haste peluda, tem o tamanho de um ovo e lembra muito as imagens que vemos por aí do coronavírus. A diferença é que é bem gostosa.

Com a proibição de viagens imposta por causa da pandemia do coronavírus, o turismo, principal fonte econômica tailandesa, vem sofrendo bastante. Com isso, o país de 70 milhões de habitantes passou a depender mais das exportações agrícolas - tanto que um lobby nacional de produtores de frutas prevê que os carregamentos para o exterior vão aumentar pelo menos 10% este ano, apesar da pandemia.

O primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha se refere à Tailândia como "a grande potência das frutas". No ano passado, o país ficou em sexto lugar como o maior exportador do mundo.

Mas a maior parte desse volume vai para os vizinhos, sendo a China a cliente principal. A perspectiva de expansão para os grandes mercados ocidentais pode ser até atraente, mas enfrenta obstáculos desencorajadores.

Menos de 3% das frutas tailandesas foram exportadas para os EUA, por exemplo. Um problema é a distância, como também a possível presença de moscas-das-frutas - mas a principal razão para a presença modesta das delícias naturais típicas do Sudeste Asiático talvez seja o que a britânica Fuchsia Dunlop, autora de livros de receitas chinesas, chama de alto "fator de dedicação".

Muitas espécies regionais dão um trabalho danado para serem consumidas: pode ser o descascamento trabalhoso, a mastigação cuidadosa e/ou as cuspidelas frequentes das sementes às quais a polpa teimosamente se agarra.

Beliscar no escritório um langsat (ou duku), o primo mais discreto da lichia, com uma casca que solta um tipo de supercola, é pedir para ficar de dedos grudados no teclado. E não há sabão que dê jeito.

A polpa é cheirosa, mas cada mordida é carregada de tensão, uma vez que há grandes chances de enterrar os dentes nas sementes, que são superamargas. O langsat vale a pena, mas dá canseira.

Ao contrário da banana, bem fácil de descascar, para saborear uma jaca é preciso abrir um invólucro espinhento e depois remover cuidadosamente dos caroços a polpa borrachuda, que parece chiclete Juicy Fruit com gosto de passado.

O processo pode levar uma tarde inteira, e há até vendedores dedicados exclusivamente a descascar jaca - que pode chegar a pesar mais de 50 quilos - e outras frutas complicadas.

No Talad Thai, mercado varejista da capital tailandesa e o maior do Sudeste Asiático, há uma ala inteira dedicada às variedades cítricas e uma seção, que mais parece um ginásio, reservada só para as mangas, das quais há mais de 200 variedades na Tailândia.

Ali, o trabalho de transporte e descascamento é feito pelos imigrantes dos países vizinhos, como Camboja e Mianmar. "Eu estava em uma penúria tão grande que tive de vir procurar trabalho na Tailândia", conta Sing Dy, descarregando um caminhão, a máscara de proteção sobre o rosto encharcado de suor.

Ela não vê os filhos, que ficaram no Camboja, há seis meses por causa da proibição de viagem da pandemia, mas manda a maior parte do salário - equivalente a US$ 20 - para eles.

Todo ano, os jornais regionais registram várias mortes causadas por jacas, geralmente porque alguém ficou embaixo da árvore lotada de frutas maduras. Em maio, no sul da Índia, um homem ficou ferido ao ser atingido por uma, teve de passar por uma cirurgia na coluna por conta do impacto e acabou descobrindo no hospital que estava com covid-19. (Recuperou-se de ambas.)

Em matéria de ostentação, o rambutão compete com a pitaia, uma minibola de futebol pink coberta de gavinhas verde limão, nativa de um cacto sul-americano. Para alguns, porém, a experiência de comer esta última é decepcionante, bem diferente da "embalagem" deslumbrante: a polpa é sem graça e as sementes, minúsculas, engancham entre os dentes, só saindo com fio dental.

Os tailandeses geralmente usam as frutas mais suaves como veículo para os sabores fermentados e picantes da culinária nacional; assim, a goiaba, o jambo e o pomelo (ou laranja-natal), maior fruta cítrica do mundo, são servidos com um molho que leva pimenta, sal e açúcar, para realçar a experiência. As ácidas, como a manga verde, são equilibradas por um condimento adocicado que inclui molho de peixe, camarão seco e cebolinha.

Mas a que tem má fama, por causa do cheiro medonho, é o durião, proibida de entrar em alguns prédios e táxis do país, os avisos lado a lado dos cartazes de "proibido fumar". Seu sabor divide opiniões no melhor estilo amor ou ódio, e são poucos os que se dizem indiferentes ao aspecto fascinante - ou repugnante - da fruta.

Por fora, mais parece um instrumento de tortura medieval: aninhado dentro de uma cápsula pontiaguda, tem consistência cremosa em formato de feijão. Já o sabor fica entre o gorgonzola não maturado e o pudim de leite, com um cheirinho de gambá.

Os orangotangos amam. Na Indonésia, onde a expansão das plantações de palma de óleo destruiu o habitat dos símios, de vez em quando eles invadem os pomares para se alimentar. E os agricultores reagem atirando nos animais.

Mesmo que seu cheiro possa ser deixado de lado - o que, sinceramente, é impossível -, o durião talvez tenha o "fator de dedicação" mais alto de todas as frutas nativas do Sudeste Asiático. Quase toda a exportação vai para a China, onde o consumidor tende a ser mais disposto a ter trabalho para desfrutar da refeição.

Nem seus maiores defensores têm esperança de vê-lo conquistar o mercado norte-americano da mesma forma que o fez o kiwi na década de 70, quando os marqueteiros o rebatizaram de groselha chinesa para não ser confundido com a ave de mesmo nome, símbolo nacional neozelandês. Mas ajuda muito o fato de, com casca peludinha, ser fofo e fácil de comer.

Embora algumas frutas nativas do Sudeste Asiático sejam encontradas em alguns mercados nos EUA, os aficionados garantem que seu sabor fica longe da potência dos cultivados na região original.

Ubolwan Wongchotsathit comanda a empresa exportadora de frutas criada pelos pais, e costumava mandar seus duriões para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e Melbourne, na Austrália, mas a pandemia a forçou a usar rotas terrestres e marítimas.

"Os norte-americanos dizem detestar o cheiro. Não sei por quê. É puro amor", garante.

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