Sakchai Lalit/Associated Press
Sakchai Lalit/Associated Press

Intrigas, traições e caos no palácio real de Tailândia

Seis meses depois da coroação do rei Maha Vajiralongkorn, vários integrantes da casa real foram expulsos e denunciados

Hannah Beech, The New York Times

13 de novembro de 2019 | 06h00

BANGUECOQUE - As denúncias circularam pelos palácios dourados da Tailândia com a extravagância retórica de um drama shakespeariano. A cônjuge oficial do rei foi acusada de tentar ofuscar a rainha e de “sabotar a nação”. Isto motivou a perda dos seus títulos reais, menos de três meses depois de assumir sua função. Um Lorde Camareiro foi demitido por “atos profundamente imorais” que supostamente incluem forçar uma amante a submeter-se a um aborto.

E, mais recentemente, outros quatro membros da corte foram afastados por “conduta extremamente reprovável”. Desde a coroação, há cerca de um ano, o rei Maha Vjiralongkorn Bodindradebayavarangkun, de 67 anos, reuniu uma corte cujas intrigas frequentemente chegam às páginas da Gazeta Real da Tailândia. Os detalhes dos expurgos contrastam com o tom reservado da corte do rei Bhumibol Adulyadej, seu pai, em 70 anos de reinado. Ele nunca deixou a Tailândia em dezenas de anos, e frequentemente foi retratado ao lado dos seus súditos.

O rei Maha Vajiralongkorn passa a maior parte do tempo na Alemanha e não continuou a tradição de manter o contato com tailandeses. Ele adotou importantes medidas que, ao que tudo indica, fortaleceram a sua autoridade. No ano passado, ele assumiu a supervisão do Departamento de Bens da Coroa, cuja fortuna, ao que se estima, supera os US$ 30 bilhões, o torna um dos reais mais ricos do mundo.

Em fevereiro, ele frustrou a candidatura politica de sua irmã mais velha, definindo a tentativa desta de concorrer ao cargo de primeiro-ministro “extremamente inapropriada”. No mês passado, ele ordenou que duas unidades da infantaria em Bangkok, a capital, fossem transferidas do comando militar normal para as corporações reais.

“Assumir diretamente o controle deste departamento é algo que não víamos desde o final da monarquia absoluta em 1932”, observou Tamara Loos, a presidente do departamento de História da Universidade Cornell em Ithaca, estado de Nova York, e especialista em tradições monárquicas tailandesas.

No dia 21 de outubro, uma declaração publicada na Gazeta Real da Tailândia anunciou que Sineenat Wongvajirapakdi havia sido despojada do seu titulo de consorte real. Ela foi acusada de “ingratidão” e de criar um complô contra a rainha Suthida Vajiralongkorn Na Ayudhya, a quarta esposa do rei.

O título não era usado desde que a Tailândia aboliu a monarquia absoluta e a poligamia, há mais de 80 anos. Dois dias mais tarde, várias outras personalidades da corte, entre elas um representante de alto escalão, uma enfermeira e um veterinário foram demitidos por “conduta extremamente maldosa por usarem posições oficiais para obter benefícios pessoais”. 

Linguagem semelhante foi usada recentemente para descrever os supostos crimes de outras quatro personalidades. Dois membros da corte foram acusados de adultério, o que foi considerado “uma ofensa contra os princípios vigentes no staff da residência real”. “Não imaginaríamos que esta fosse a linguagem de uma gazeta oficial”, disse Tamara Loos. “Parece típica de um tabloide”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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