Adam Dean The New York Times
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Esses macacos já foram reverenciados. Agora eles estão dominando tudo

A pandemia deixou a crescente população de mais de 8 mil macacos sem sua fonte habitual de comida - alimentos dados por turistas amigáveis

Hannah Beech, The New York Times - Life/Style

07 de setembro de 2020 | 05h00

LOPBURI, TAILÂNDIA - Os clientes que esperavam na frente de um banco em Lopburi, Tailândia, tinham deixado as joias em casa e mantinham outros itens valiosos fora da vista. Mas, mesmo assim, o perigo os espreitava. Em plena luz do dia, eles viram um ladrão roubar um chá gelado e um vândalo pegar descaradamente um assento de motocicleta. Uma mulher abandonou seu lugar na fila quando foi ameaçada de ser mordida.

Com um suspiro, um policial brandiu um estilingue e os macacos se espalharam. Menos de um minuto depois, eles já estavam de volta. Lopburi, outrora capital de um reino siamês e santuário de arquitetura antiga, é uma cidade sitiada. Os macacos-caranguejeiros, uma espécie nativa do sudeste asiático com olhos penetrantes e índole curiosa, saíram dos templos onde antes eram reverenciados e ocuparam o coração da cidade velha.

Sua população crescente – pelo menos 8.400 na área, a maioria concentrada em alguns quarteirões da cidade – dizimou partes da economia local. Nos últimos anos, com bandos de macacos perambulando pelo bairro, dezenas de estabelecimentos – entre eles uma escola de música, uma barbearia, uma loja de celulares e um cinema – foram obrigados a fechar as portas.

A pandemia de coronavírus aumentou o caos. Os macacos brincalhões atraíam multidões de turistas e também de fiéis budistas, que acreditam que alimentar os animais é um ato louvável. Suas ofertas favoritas eram iogurte de coco, refrigerante de morango e salgadinhos coloridos. Agora os macacos não entendem para onde foi essa fonte de sustento. E eles estão com fome.

Com o passar dos anos, os macacos foram ocupando prédios abandonados, destruindo vitrines e sacudindo as barras instaladas para mantê-los do lado de fora. Quando os seguranças não estão de olho, eles arrancam antenas e limpadores de para-brisa dos carros estacionados. Brincos, óculos escuros e bolsas plásticas que parecem conter comida são irresistíveis para os macacos. E, nas áreas da cidade com maior densidade de animais, muitos residentes vivem com medo do próximo ataque furtivo.

Mas, numa cultura de maioria budista, na qual o abate de macacos perturbaria as sensibilidades espirituais, as autoridades e residentes locais têm poucas opções para se defender das gangues de macacos. Além disso, no passado, os macacos atraíam turistas para Lopburi. Sem eles, a economia pode sofrer ainda mais.

Numa loja de ferragens do outro lado da rua das ruínas de um templo hindu do século 13, bichos de pelúcia enormes em forma de crocodilos e tigres vigiam a rua, onde o tráfego de macacos supera o de pedestres. Os brinquedos foram feitos para assustar os macacos, o que funcionou por alguns meses. Mas os macacos logo perceberam que não eram de verdade, disse Yupa Srisanguan, a dona da loja.

“Nunca foi tão ruim assim”, disse Yupa, no momento exato em que um jovem macaco entrava em sua loja, com a intenção de mastigar os anéis da mangueira de borracha pendurada no teto. “Não somos contra os macacos, mas, quando as pessoas têm medo de serem mordidas dentro da nossa loja, fica difícil”.

Yupa, hoje com 70 anos, disse que, quando era criança, havia menos macacos e eles eram maiores e mais saudáveis, com pelos brilhantes e grossos. Eles viviam nos templos e nas ruínas da antiga civilização Khmer, que outrora dominou esta parte da Tailândia central.

Mas com um influxo de visitantes encantados por macacos, alguns deles estrangeiros, veio uma fonte de comida fácil e muitas vezes prejudicial à saúde. Além das bananas e frutas cítricas, os macacos passaram a se refestelar com porcaria. Seus pelos afinaram. Alguns ficaram carecas. Sem se preocupar com a próxima refeição, os macacos, que podem dar à luz duas vezes por ano, tiveram mais tempo para outras atividades. A população explodiu.

Em comparação com os macacos da floresta, seus homólogos urbanos têm menos músculos e são mais suscetíveis à hipertensão e a doenças do sangue, disse Narongporn Doodduem, diretor de um escritório regional do Departamento de Conservação da Vida Selvagem. Funcionários locais começaram a esterilizar os macacos em massa para controlar seu número. Mais de 300 animais foram operados no mês passado e mais 200 serão esterilizados em agosto.

Capturar os macacos para as operações é uma tarefa muito difícil, disse Narongporn. No primeiro dia da campanha de junho, os apanhadores de macacos usavam uniformes com estampa de camuflagem e atraíam os animais para as gaiolas com comida. Mas, no segundo dia, os macacos souberam evitá-los.

Os apanhadores de macacos tiveram de passar a usar shorts e camisas florais, para fingir que eram turistas. “Os macacos são espertos”, disse Narongporn. “Eles guardam memória”. Com o coronavírus dissuadindo muitos turistas e peregrinos budistas de visitar Lopburi, os moradores locais começaram a alimentar os macacos por conta própria.

“Não podemos deixá-los morrer de fome”, disse Itiphat Tansitikulphati, proprietário do Muang Thong Hotel. Todos os dias, uma velha macaca visita seu hotel e espera educadamente que sua refeição seja servida. Seu prato predileto é bolo de banana, mas frutas da estação também vão bem.

“Há muito tempo, boa parte de Lopburi era floresta, então estamos tirando a terra dos macacos”, disse Itiphat. Filho e neto de hoteleiros, ele cedeu o último andar aos macacos, que o destruíram com o ímpeto de hóspedes bêbados, estraçalhando pranchas de madeira e rasgando chapas de metal.

Uma cerca elétrica protege o andar térreo do hotel. Mas, mesmo antes da pandemia, os macacos saqueadores já estavam espantando os visitantes, muitos dos quais viajavam a trabalho, disse Itiphat. Seu hotel não está conseguindo sobreviver. “O equilíbrio entre humanos e macacos está ruim”, disse ele. “Isso prejudica os negócios”.  / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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