Isaac Lawrence para The New York Times
Isaac Lawrence para The New York Times

Taiwan, o país do beisebol

O esporte é um importante instrumento do poder brando dessa pequena democracia asiática

Steven Lee Myers, The New York Times

12 Agosto 2018 | 10h15

TAOYUAN, TAIWAN - Conforme o rebatedor se aproxima de sua posição, o clamor do público aumenta, com um canto rítmico. As líderes de torcida dançam, acompanhadas pela música que explode dos alto-falantes, seja gravada ou ao vivo, com percussão e metais. Os fãs brandem toda uma variedade de traquitanas barulhentas - matracas, pares de bastões de plástico, vuvuzelas - praticamente sem parar durante as nove entradas.

Elas não estão tentando distrair o arremessador adversário, mas incentivar o rebatedor de seu time. "Yi qi an da! Yi qi an da!" é um dos gritos principais da torcida, significando algo como, "Vamos rebater essa juntos".

Certa noite, Chin Jou-lin, uma animada torcedora de 28 anos, estava no estádio internacional de beisebol de Taoyuan, cidade no noroeste de Taiwan. Ela disse ter ouvido falar que, nos Estados Unidos, é possível ouvir o barulho do bastão quando atinge a bola. Ela riu, incrédula.

"Não consigo nem imaginar", disse.

Dizer que o beisebol é uma obsessão nacional em Taiwan pode ser um exagero, já que o esporte teve momentos de maior e menor popularidade ao longo dos anos. Mas o esporte parece estar profundamente vinculado à identidade nacional de um baluarte da democracia.

A cédula de 500 Novos Dólares Taiwaneses, moeda do país, homenageia o sucesso fenomenal de suas equipes juvenis, que dominaram o campeonato mundial de beisebol juvenil de 1969 a 1996.

Num momento em que a China busca isolar Taiwan diplomaticamente, o beisebol continua sendo um dos potentes instrumentos de poder brando da ilha e um caminho para o reconhecimento internacional. Quando o esporte estreou na Olimpíada em Barcelona, em 1992, Taiwan conquistou a medalha de prata, perdendo a final para outra pequena ilha que adora o beisebol: Cuba.

O beisebol chegou ao país trazido pelo Japão, que já gostava do esporte há 25 anos antes de invadir a região em 1895 e tomar Taiwan da China. Depois que as forças de Chiang Kai-shek se retiraram para Taiwan, estabelecendo a República da China em 1949, houve um esforço para apagar os vestígios do domínio japonês, exceto pelo beisebol.

A liga profissional de beisebol da China - cujo próprio nome é reflexo da complicada história de Taiwan com a China - foi formada apenas em 1990, após o fim de uma longa era de governo militar que se encerrou em 1987.

Equipes já foram formadas e desfeitas. Escândalos de apostas mancharam a reputação do esporte. Em 1996, bandidos sequestraram jogadores que aparentemente não produziram o resultado combinado.

Em 2009, o governo de Taiwan e os executivos da liga prometeram acabar com a corrupção no esporte, aumentando os salários e combatendo mais agressivamente as apostas. Ainda que a liga não seja tão renomada quanto o campeonato japonês, Taiwan já mandou uma dúzia de jogadores para a liga profissional americana e segue atraindo jogadores estrangeiros.

Chin é uma dedicada torcedora dos Lamigo Monkeys, mas também é fã do clima das arquibancadas. Indagada a respeito daquilo que a atraía no esporte, ela usou uma expressão chinesa de duas palavras cujo significado pode ser difícil de entender fora de um estádio de beisebol numa noite quente de verão em Taiwan: "Quente e barulhento". / Olivia Mitchell Ryan contribuiu com a reportagem.

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