Kasia Strek para The New York Times
Kasia Strek para The New York Times

Aproximação com Taiwan azeda relação da República Tcheca com a China

Novo prefeito da capital tcheca se recusou a seguir a linha em Taiwan, e Pequim cortou sua relação com sua cidade-irmã

Marc Santora, The New York Times

28 de novembro de 2019 | 06h00

PRAGA - Em um opulento edifício do centro velho de Praga, o prefeito estava recebendo diplomatas que chegavam à sua residência oficial para uma celebração de ano novo. Mas, quando o embaixador chinês se aproximou do prefeito Zdenek Hrib, o diplomata não estava em clima de festa. “Ele exigiu que eu expulsasse o representante de Taiwan", contou Hrib a respeito do confronto em janeiro. “Respondi: ‘Não expulsamos nossos convidados.’”

Com outros embaixadores insistindo para que o representante chinês deixasse o assunto de lado, ele se irritou cada vez mais, até finalmente abandonar o evento. Para Hrib, eleito dois meses antes, foi o primeiro embate de uma disputa diplomática que culminaria com Pequim e Praga rompendo os laços enquanto “cidades irmãs”, ameaçando agora causar um estrago duradouro nas relações entre República Tcheca e China.

Na raiz do problema está a recusa do prefeito em defender a política de “uma só China” de Pequim, segundo a qual Taiwan é parte da China. Mas, de maneira mais geral, o desacordo ilustrou o uso que a China faz de seu poderio econômico para obter na marra os resultados diplomáticos desejados. A República Tcheca é um dos países menos cortejados por Pequim agressivamente.

O ponto alto ocorreu em 2016, quando o maior líder da China, Xi Jinping, foi recebido em uma visita de estado pelo presidente populista Milos Zeman, que tinha declarado que seu país seria o “portal europeu” da China. Antes da visita, Praga tinha assinado um acordo tornando-se cidade irmã de Pequim que incluía o compromisso de defender a política de “uma só China” - uma cláusula incomum em acordos desse tipo.

Para a República Tcheca, a aproximação com a China trouxe promessas de mais comércio e investimento. Para Praga, o acordo trazia a promessa de um aumento no turismo e nos intercâmbios culturais, e até de um panda para o zoológico. Passados três anos, apenas uma pequena parcela do investimento se materializou, o comércio com a China trouxe mais temores de espionagem do que prosperidade, e o panda nunca veio. 

Hrib, um médico de 38 anos, candidatou-se pelo Partido Pirata, anti-establishment, que se tornou a terceira maior força no parlamento, conquistando o poder em parte ao questionar a política externa de Zeman, voltada para o Oriente, e a abordagem transacional do primeiro-ministro Andrej Babis.

Hrib tinha prometido examinar o texto do acordo da cidade com Pequim. “Alguns dizem que não deveríamos nos envolver em questões internacionais", disse ele. “Mas o que fizemos foi nos livrar dessa declaração de apoio à ‘uma só China’, que arrastou Praga para as relações internacionais.” Em março, Hrib viajou a Taiwan, onde passou algum tempo na época em que era estudante. Em meados do ano, quando ficou claro que o prefeito apresentaria o texto do acordo para ser votado na câmara dos vereadores, a questão explodiu.

Autoridades chinesas fizeram ameaças: se a Orquestra Filarmônica de Praga quisesse se apresentar (o grupo passou dois anos se preparando para uma turnê pela China), teria de rejeitar as ações do prefeito. “O cancelamento da turnê significou para a orquestra a perda de muitos milhões de coroas tchecas", disse em comunicado o diretor da orquestra, Radim Otepka. “Mas consideramos muito pior o fato de a cultura ter sido sujeitada à pressão política.”

Hrib disse que a pressão exercida às claras pela China lembrou muitos tchecos da forma de agir de seus antigos governantes comunistas. As tensões também afetaram âmbitos mais consequentes. Em dezembro, a agência tcheca de segurança cibernética alertou que a gigante chinesa da tecnologia, Huawei, representava uma potencial ameaça de segurança. Houve também a preocupação com a possibilidade de a China tentar influenciar instituições acadêmicas.

O presidente tcheco, Zeman, tentou conter o estrago. Escreveu uma carta a Xi enfatizando que “a República Tcheca, o governo do país, respeita totalmente a política da China única", de acordo com resumo fornecido pelo seu gabinete. Autoridades chinesas ameaçaram limitar o número de turistas - perspectiva que não parece preocupar muitos no lotado centro histórico de Praga.

No zoológico, onde as autoridades apresentaram planos para a construção de um pavilhão para os pandas avaliado em US$ 9 milhões, a saída foi se concentrar em outro animal. “Quando eu era criança, tinha um livro de lindas fotos em branco e preto", disse o prefeito Hrib. Era a ilustração de uma caminhada pelo zoológico de Praga. “E o animal mais interessante era o pangolim", disse ele.

Taiwan desempenhou um papel-chave no resgate dessas criaturas, que parecem tamanduás escamosos e estavam ameaçadas de extinção. O país abriga hoje aquela que é provavelmente a maior população de pangolins em cativeiro no mundo. Hrib falou com o prefeito de Taipei e espera que, se a diplomacia do panda falhou, o pangolim não decepcionará. Magdalena Sodomkova contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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