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Talvez a verdade esteja lá fora

Ciência ainda enfrenta onda de ceticismo

Robb Todd, The New York Times

15 Julho 2018 | 10h00

Muitos acreditam ser espertos demais para serem enganados por farsas, mas identificar a diferença 

entre falsidade e fato está se tornando cada vez mais difícil.

“Particularmente quando a pessoa se considera inteligente", escreveu John Ganz no Times, “ela tem mais dificuldade em reconhecer a própria ignorância".

As pessoas estão mais vulneráveis porque o mundo moderno é complexo, e as mudanças sociais e tecnológicas acontecem rapidamente, disse ele. Os charlatães reduzem “o emaranhado caótico da era a uma série de formulações simplistas. A vida moderna nos bombardeia com a exaustão e o tédio tanto quanto a ansiedade; às vezes, tudo que queremos é entretenimento sob a forma de alguma ideia mirabolante”.

Tomemos como exemplo o planeta em que vivemos. Embora os gregos antigos tenham determinado que a Terra é redonda há cerca de 2.500 anos, algumas pessoas ainda afirmam que ela pode ser plana.

“Alguém pode afirmar com total convicção que a Terra é definitivamente plana?” disse o astro do basquete americano Kyrie Irving nas páginas do Times. “Como saber com certeza? Eu não tenho essa certeza.”

Uma afirmação desse tipo vinda de alguém tão influente pode ser perigosa. Suas dúvidas públicas levaram alguns estudantes do ensino fundamental a questionar o professor de ciências, que não conseguiu reconquistá-los para o lado redondo da ciência.

“Eu queria abrir o debate, tipo, ‘Ei, pesquise os fatos antes de decidir em que acreditar’”, disse Irving.

Mas a ciência não é simplesmente uma questão de fé. De acordo com ele, o fato de muitos sábios terem pensado um dia que a Terra era plana significa que esse debate ainda pode ser aberto.

“Nosso sistema de ensino tem problemas", disse Irving, que frequentou  uma das melhores universidades americanas, Duke, durante um ano antes de começar a carreira profissional. “A história já mudou tantas vezes.”

Trata-se de um bom exemplo de um surto de desconfiança do tipo que a autora Judith Shulevitz disse identificar atualmente nos Estados Unidos na sua resenha do livro “Natural Causes”, de Barbara Ehrenreich. A obra demonstra um profundo ceticismo diante da indústria do bem estar, da meditação, dos “hackers biológicos” do Vale do Silício que buscam aumentar a longevidade, do crescimento da indústria das academias de ginástica, e da saúde holística.

Barbara, que é doutora em biologia celular, diz que a medicina moderna está demasiadamente preocupada com o lucro e sua própria importância, mas alerta também que seu livro não deve ser encarado como um “ataque contra a ideia de uma medicina científica".

Embora Barbara, 76 anos, seja uma sobrevivente do câncer de mama que decidiu ignorar os conselhos médicos, Judith acredita que essas posições são demasiadamente arriscadas para os leitores que decidam aceitá-las. Ainda que a “medicina, como qualquer outra profissão, tenha seus charlatães e falsários, e esteja certamente sujeita à pressão da busca pelo lucro", ela escreveu que Barbara “deveria ser mais cuidadosa antes de disfarçar seu desprezo pelos médicos como uma desculpa bem embasada para evitá-los".

As reduções simplistas e teorias da conspiração funcionam como a medicina milagrosa, escreveu Ganz: 

“Parecem oferecer uma cura, mas, como servem apenas para inflamar ainda mais os temores subjacentes, elas impulsionam a própria demanda".

Ele acrescentou que o problema é agravado pelo fato de as pessoas terem aparentemente se esquecido da existência desses charlatães.

“Todos gostam de pensar em si como astutos", disse Ganz, “e o próprio termo remete a algo saído do passado: damos risada ao saber como as pessoas acreditavam em remédios falsos, mas nunca imaginamos que estamos sujeitos a cair nesses mesmos truques".

Isso não parece ser plano, mas as pessoas estão se tornando mais vulneráveis a posições que contrariam os fatos da ciência.

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