Laetitia Vancon para The New York Times
Laetitia Vancon para The New York Times

Tapeçaria de artista africano conquista museus da Europa

Peças desenvolvidas por El Anatsui estão expostas na galeria Haus der Kunst, na Alemanha, e devem seguir para museus na Espanha e na Suíça

Jason Farago, The New York Times

12 de abril de 2019 | 06h00

MUNIQUE - É difícil descrevê-las. Enormes tapeçarias ondulantes, flutuando e esvoaçando como bandeiras? Ou pesadas tesselações defensivas de metal, como a armadura dos soldados da Europa medieval? Um mosaico monumental, como paisagens de peças metálicas? As esculturas de El Anatsui montadas na parede aqui na Haus der Kunst gritam por comparações metafóricas - mas nenhuma metáfora jamais poderia talvez resumir estas obras, cada uma delas intricada a ponto de nos fazer ofegar buscando ar.

Anatsui, que nasceu em Gana, mas vive na Nigéria, já era um artista aclamado na África Ocidental quando, há 20 anos, chegou a uma técnica que o impulsionaria para criar algumas das mais extraordinárias esculturas deste novo século. Enquanto passeava, uma tarde, ele encontrou um saco plástico cheio de tampinhas de garrafas de alumínio, para ir ao lixo.

Deixou de lado o trabalho que estava fazendo em madeira, e começou a achatar, dobrar e unir as tampinhas em composições que montou em uma parede. Cada produção deste porte exige milhares de horas de trabalho. Suas dobras e pregas transmitem o movimento ondulatório da história, e suas composições chamam a atenção para o comércio, a escravidão, o consumismo e o ambiente.

Dezesseis delas estão expostas na exposição “El Anatsui: Triumphant Scale”. Quase certamente a maior mostra individual de um artista negro africano na Europa, “triunfante” é exatamente o termo que define esta mostra, que vai até julho (em seguida, a exposição viajará para museus em Doha, no Catar; Berna, na Suíça; e Bilbao, na Espanha).

Nela, as obras construídas com tampinhas de garrafas são exibidas ao lado das cerâmicas, das esculturas de madeira e dos trabalhos em papel de Anatsui dos anos 1970 a 1990, mais as novas e notáveis obras feitas por encomenda, um emaranhado de cortinas soltas em 66 partes e um friso de chapas para impressão alemãs e nigerianas, parafusado à fachada do museu. Os esforços de Anatsui para elaborar uma singular linguagem abstrata de influências europeias e africanas começaram no início dos anos 1970, com discos de madeira pintados cujas bordas foram gravadas com os seus próprios glifos idiossincráticos.

Quando Anatsui começou a trabalhar com as tampinhas de garrafa, deu início a uma considerável ascensão em termos de escala, e em sua ambição artística. Primeiramente as tampas de alumínio, bem como as finas faixas para evitar a adulteração em baixo delas, são dispostas em formas fixas. Então, são amarradas em folhas por meio de pequenas argolas de fio de cobre, e estas folhas são combinadas em enormes composições de 90 metros quadrados ou mais.

Em cada obra, os painéis podem ser pregueados como uma saia de cama, drapeados como uma toga ou amarrados como uma salsicha. Anatsui não é muito exigente quanto à sua exposição. Eu tinha visto “Earth’s Skin” (2009) em Nova York, onde estava pendurada quase lisa; aqui em Munique, seus milhares de elementos  estão aglomerados de modo mais denso, e com abas pendendo de ambos os lados.

Os meticulosos argumentos desta mostra a respeito de forma, cor, meio e escala criticam a estreiteza de visão - e, em alguns casos, o racismo - de muitos museus ocidentais. É incomum para a arte africana contemporânea receber este tipo de reconhecimento pleno. Ao insistir no fato de que Anatsui merece uma exposição completa, como Georg Baselitz ou Louise Bourgeois (duas exposições individuais recentes na Haus der Kunst), com toda a análise técnica, histórica e simbólica que os museus proporcionam a tais artistas ocidentais, este museu realiza o seu próprio ato de justiça.

Nesta penosa reação nativista que começa a criar raízes na Alemanha e em toda a Europa, está na hora de os museus reafirmarem os valores da percepção global e do intercâmbio cultural que Anatsui personifica. Tais valores ressoam como o toque de um clarim clamando na exposição do artista - grande como o tamanho do mundo, em toda a sua beleza resplandecente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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