Linh Pham para The New York Times
Linh Pham para The New York Times

Tarifas impostas à China favorecem o Vietnã

Assustados pelo agravamento das relações dos EUA com o gigante asiático, os fabricantes de aparelhos eletrônicos procuram outros países com mão de obra barata para a fabricação de seus produtos

Raymond Zhong, The New York Times

09 de agosto de 2019 | 06h00

BAC NINH, VIETNà- Nenhum país foi mais beneficiado pela guerra comercial que o presidente Donald J. Trump move contra a China do que o Vietnã. Suas fábricas estão funcionando a todo vapor para atender às encomendas, uma vez que as tarifas americanas fizeram com que as multinacionais reconsiderassem a decisão de produzir na China. Agora, outras empresas estudam a possibilidade de aumentar o volume de suas operações no Vietnã, elevando as ambições de uma nação já prestes a se tornar uma grande fabricante de eletrônicos de ponta.

Mas, antes de mais nada, o Vietnã precisa melhorar a fabricação de pequenas embalagens plásticas de fones de ouvido. A companhia de Vu Huu Thang, na cidade de Bac Ninh, no norte do país, a Bac Viet Technology, produz peças de impressoras Canon, instrumentos musicais Korg, celulares Samsung e acessórios, inclusive fones de ouvidos.

Segundo ele, seria difícil competir com as fornecedoras chinesas porque a sua empresa teria de adquirir mensalmente de 70 a 100 toneladas de material plástico importado, na maior parte fabricado na China. “Quando compramos os materiais, eles já são de 5 a 10% mais caros do que na China,” disse Thang. Por outro lado, o mercado vietnamita é muito limitado, prosseguiu, para que produtores de plástico achem lucrativo estabelecer aqui as suas operações.

Mas, assustados pelo agravamento das relações dos EUA com a China, os fabricantes de aparelhos eletrônicos estão procurando outros países com mão de obra barata para a fabricação ou o acabamento dos seus produtos. A Apple se fixou no Vietnã e na Índia para diversificar a sua cadeia de fornecimentos. E, segundo a empresa de pesquisa Panjiva, a Nintendo acelerou a mudança da produção do seu console Switch da China para o Vietnã. A gigante taiwanesa da eletrônica Foxcom, a grande montadora de iPhones, informou em janeiro que adquiriu direitos de uso da terra no Vietnã.

Mesmo assim, esta nação de quase 100 milhões de habitantes não deverá substituir a China da noite para o dia como centro industrial. Frequentemente a terra aqui é cara, e as fábricas prontas para operar e os armazéns  são escassos. A contratação de trabalhadores e gerentes treinados é outra dificuldade.

Entretanto, o Vietnã já é um colosso na produção de calçados, vestuário e outros bens de mão de obra intensiva. Com o aumento do número de fábricas, o governo prometeu melhorar a infraestrutura. Também assinou recentemente acordos no mundo todo para a redução de tarifas, por exemplo, com a União Europeia.

O governo Trump colocou Hanoi em uma lista de observação por manipular a sua moeda a fim de ajudar as exportadoras. Trump sugeriu em junho que o país poderá ser o novo alvo para a imposição de tarifas punitivas. Em resposta, o Vietnã disse que quer vínculos comerciais mutuamente benéficos com os Estados Unidos, e destacou os seus esforços para punir as exportadoras que puserem novos rótulos ilegais em seus produtos com os dizeres “Made in Veitnam” para evitar os impostos americanos.

É improvável que Trump mude as amplas mudanças que estão tornando o Vietnã um importante centro da eletrônica. Há mais de dez anos, a Samsung, o mastodonte sul-coreano, montou uma fábrica em Bac Ninh no intuito de reduzir a sua dependência da China. Atualmente, ela monta no Vietnã cerca de 50% dos seus smartphones  que vende no mundo inteiro. As suas subsidiárias no país, que dão emprego a 100 mil pessoas, corresponderam a cerca de 30%  dos $ 220 bilhões em vendas, no ano passado.

Quando a Samsung se estabeleceu no país, adquiriu algumas instalações usadas em suas linhas de montagem de uma empresa local, a Vietnam Precision Mechanical Service & Trading, VPMS. Mas então novas parceiras sul-coreanas da Samsung começaram a vir para o país, e depois de um ano, a Samsung e a VPMS interromperam a sua parceria, informou Nguyen Xuan Hoang, um dos fundadores da companhia vietnamita.

Preço e qualidade não eram problema, afirmou Hoang. O problema era a escala: a Samsung precisava de um número muito maior de instalações do que a VPMS podia oferecer.

A companhia de Vu Tien Cuong, Fitek, produz equipamentos industriais para a Samsung, Canon e outras grandes empresas ao redor da Bac Ninh. Ele reconheceu que a maioria das fornecedoras vietnamitas tinha problemas de qualidade e produtividade que impediam que ela conseguisse acordos com companhias multinacionais.

Mas ele acredita que o problema fundamental era a falta de experiência. “A base de fornecedoras do Vietnã está dia a dia se aperfeiçoando”, e “crescendo”, afirmou Cuong.

Nguyen Thi Hue, 28, sabe o que significa crescer no trabalho. Depois de abrir a própria empresa, em 2015, ela trabalhou 16 horas por dia fazendo malabarismos com um emprego para outra empresa enquanto a sua nova firma decolava.

A sua startup, Anofa, se especializou em tratamentos de superfície em peças metálicas. Trabalhou com fornecedoras para marcas  estrangeiras, como  a fabricante sul-coreana de eletrônica LG e a indústria italiana de motocicletas Ducati.

“Nós realmente esperamos” que a Apple expanda a sua cadeia de fornecimentos no Vietnã, disse Nguyen Van Huan, o marido de Hue, que é também o seu advogado.

A Anofa investiu em novas máquinas para tentar conseguir mais negócios com clientes estrangeiros. “Eles  têm padrões e exigências mais elevados”, afirmou Huan. “E nós podemos atendê-los”, prosseguiu sua esposa sorrindo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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