Daniele Volpe / The New York Times
Daniele Volpe / The New York Times

Tatuagens como expressão de amor, não de ódio

Em Honduras, país conservador no que tange à religião, tatuagens estão associadas a grupos criminosos

Alexandra E.Petri, The New York Times

05 de outubro de 2019 | 06h00

TEGUCIGALPA, HONDURAS – Ruth Pineda ficou de costas para o espelho para mostrar uma nova tatuagem: um coração. Nele, três golfinhos pulam sobre as ondas no pôr do sol. “O golfinho grande sou eu – a mãe – e os dois pequenos são meus filhos”, explicou. É a primeira vez que ela faz uma tatuagem, uma declaração que a professora de 43 anos queria fazer  há quase 20 anos, mas nunca achou que poderia.

Há muitos anos, as tatuagens caíram da moda em Honduras, um país conservador em matéria de religião. Eram tabu, por representarem uma característica que identificava gangues assassinas, como a Mara Salvatrucha, mais conhecida como MS-13, e a gangue Barrio 18. Estas foram duas das principais causas da violência que se espalhou pelo país e provocou a fuga de tantos migrantes para o norte.

Vários sinais e símbolos tatuados indicavam a categoria de um integrante na sua organização ou os crimes que ele havia cometido. No início dos anos 2000, com o aumento da anarquia no país, o governo aprovou uma legislação que reprimia severamente a atividade criminosa, proibindo a “associação ilícita” às gangues. As tatuagens tornaram-se um dos principais alvos da polícia, interpretadas como uma prova de que um indivíduo pertencia à MS-13 ou à Barrio 18, ou algo do gênero.

Os criminosos pararam de se tatuar. Se faziam alguma tatuagem, era em lugares não visíveis do corpo. Mas, nos últimos anos, as tatuagens tornaram-se mais comuns, por sua exposição generalizada na cultura pop global. “As pessoas começaram a considerar as tatuagens uma tendência da moda que poderiam adotar”, justificou Mei Lan Quan, uma das primeiras mulheres a se dedicarem a esta arte na capital Tegucigalpa.

Quando Quan, conhecida por seu nome artístico, Elephanta Tattoo, abriu a sua primeira loja em 2011, só tinha cinco ou seis clientes por semana. Agora, em um sábado particularmente agitado pode atender até seis ou sete pessoas.

Em geral, as pessoas que começam a se tatuar procuram imagens ou letras de tamanho reduzido, explicou Juan Carlos Pulido, artista de 38 anos da Nicarágua. Mas, recentemente, ele notou que os clientes querem tatuagens maiores e mais ousadas. Quando ele chegou, Pulido disse que quase nunca expunha o braço tatuado, mas agora usa mangas curtas. “As pessoas começam a ver a diferença entre as tatuagens artísticas e as que têm a ver com as gangues”, disse.

Tatuagem e expressão

Para alguns, as tatuagens são uma maneira de expressar sua relação com a família, separada pela migração. Jesus Martínez, cozinheiro de 27 anos de uma pequena pizzaria na capital, tem uma imagem do rosto da mãe, na época em que era modelo, tatuada no seu antebraço direito, que vai do pulso ao cotovelo. “É uma maneira de mostrar minha mãe às pessoas”, sorriu Martínez. Ela foi embora para os Estados Unidos quando o menino tinha 2 anos, e ele só voltou a vê-la aos 12. As pessoas olham para ele, admitiu Martínez, porque o estigma das tatuagens não acabou totalmente. Mas nem por isto ele deixa de usar camisas de manga curta.

Alguns cristãos, principalmente os da geração mais antiga, consideram a tatuagem um pecado. “Aos olhos de Deus, não fica bem ter uma tatuagem”, disse a evangélica Glenda Suazo, de 49 anos, que trabalha no Ministério da Saúde.

No entanto, nem mesmo ela ficou imune à moda. E mostrou no celular as fotos da sua cachorrinha Puky, que morreu no final de agosto com 15 anos. “Peguei Puky quando ela tinha 45 dias”, lembrou. “Pensei que gostaria de ter uma tatuagem da sua patinha”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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