Rachel Sunshine via The New York Times
Rachel Sunshine via The New York Times

Você faria uma 'tatuagem da pandemia'?

Enquanto muitas pessoas estão ansiosas para deixar para trás os estragos da covid-19, outras preferem fazer uma tatuagem para lembrar eternamente da pandemia

Alyson Krueger, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2021 | 05h00

Diariamente, durante o lockdown, Samantha Barry, editora da revista Glamour, passava pela West Side Highway em Nova York. “Eu ia de Chelsea até a Estátua da Liberdade. Era o meu momento diário de sanidade”.

Este foi o tempo mais longo que ela passou em Nova York sem visitar sua família na Irlanda. Durante a pandemia, ela começou a apreciar muito mais o lugar que é hoje o seu lar.

Samantha, 39 anos, sempre admirou tatuagens. “Feitas corretamente, parecem um pouco uma joia”, disse. Mas nunca passou pela sua cabeça fazer uma. “Tem de significar algo para ter algo permanentemente gravado no seu corpo”.

Mas agora ela sabia exatamente o que queria: uma minúscula e elegante linha do horizonte da cidade de Nova York. O tatuador Jonathan Valena, que é conhecido como JonBoy e que trabalha na frente do hotel Moxy Times Square, fez essa tatuagem no seu punho no final de 2020.

“Falaremos sobre 2020 quando estivermos velhos e com os cabelos grisalhos, e agora tenho algo no meu corpo que simboliza onde eu estava naquele momento. Esta é a minha maneira de reconhecer isso”, disse ela.

Embora esse período de pandemia seja um tempo que muitos desejam esquecer, outros estão pensando o oposto, fazendo tatuagens para comemorar suas experiências. Alguns marcam o local onde passaram o ano ou uma lição que aprenderam com a turbulência. Alguns sobreviventes da covid-19 estão fazendo tatuagens para lembrá-los de que estão vivos e com força. Outros querem sempre ter uma lembrança das pessoas que perderam.

Valena disse que 90% dos seus clientes chegam até ele para fazer sua primeira tatuagem e depois da pandemia houve um aumento enorme de pedidos de designs evocando a covid-19. Quando esses clientes chegam ao seu estúdio estão ansiosos para falar a respeito. Só o processo de fazer uma tatuagem pode ser uma terapia.

“Eles me contam sua história e estou ali para ouvir. Dedico esse tempo a eles quando conseguem colocar seus sentimentos para fora e é algo muito especial”. E eles sentem uma urgência de fazer uma tatuagem, não querem deixar para depois. “As pessoas estão tatuando palavras que ficaram marcadas para elas, que tiveram um significado para elas como “abandono” ou “força”. Um dos meus clientes, cujo pai morreu de covid, acabou tatuando uma rosa para ele”.

Para os sobreviventes da covid, uma tatuagem pode ter um significado especial.

Rachael Sunshine, que vive em Coxsackie, Nova York, tem uma doença degenerativa dos nervos, o que a colocou em um grande risco de desenvolver uma forma grave de covid-19. “Quando a pandemia nos atingiu, eu era um daqueles que provavelmente morreriam se contraísse o vírus”, disse.

Contra as probabilidades, ela sobreviveu à covid, não uma, mas duas vezes, disse ela. O vírus danificou seu coração e ela sobreviveu a uma cirurgia cardíaca também. “Fui hospitalizada sete vezes”, disse Sunshine.

Em 26 de maio de 2021, dia do seu aniversário de 44 anos, ela foi a Cape Cod, Massachusetts, para comemorar sua sobrevivência e fez uma tatuagem de um coração envolvido por proteínas spike do coronavírus, que é o logo do grupo Survivor Corps que conecta os sobreviventes da covid-19.  

"As lágrimas estavam apenas descendo pelos meus olhos", disse ela. "Eu disse ao tatuador: 'Este tem sido um ano tão longo'. Conversamos por duas horas sobre todas as coisas que eu passei". “Meu tatuador hoje faz parte da minha jornada e da minha história", disse ela. "Compartilhamos esse vínculo".

"As pessoas perguntam ‘por que você quer ter essa lembrança constante do que sofreu?'", ela continuou. "Eu respondo que já tenho lembranças constantes. Tenho cicatrizes da operação cardíaca. Tenho que tomar remédios. Ainda não consigo caminhar na rua normalmente. Minha batalha continua, como também minha insígnia de combatente. Quando, daqui a dez anos, as pessoas falarem sobre a covid, direi: 'eu a derrotei’”.

Depois de um ano tão difícil, algumas pessoas estão preferindo tatuagens mais descontraídas.

Katie Tompkins, 28 anos, trabalha num laboratório em Warren, Michigan. Ela viu em primeira mão quão séria a pandemia era. “Trabalhei num laboratório que cuidava de todos os testes, e ver as coisas malucas que este vírus estava fazendo para as pessoas foi algo violento”.

Ela jamais esquecerá o que passou. Mas em vez de focar no negativo, decidiu colocar algum humor na situação e fazer uma tatuagem de papel higiênico na parte anterior do seu ombro esquerdo. “Tenho lembranças de entrar no supermercado e ver as prateleiras vazias porque todo mundo estava estocando papel higiênico em casa", disse ela. "Uma coisa insana”.

Esta foi sua primeira tatuagem e fez amizade com pessoas que não conhecia por causa disso. Eles paravam para contar a ela suas próprias histórias com o papel higiênico. Mas o importante é que a imagem a faz sorrir, o que ela mais quer agora que está vacinada.

“Queria ter alguma coisa para olhar e pensar, ‘oh meu Deus, lembra quando toda essa coisa maluca aconteceu?", disse ela. "É minha maneira de trazer luz para uma situação nada boa.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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