Phyllis B. Dooney / The New York Times
Phyllis B. Dooney / The New York Times

Taxa de natalidade hispânica despenca nos EUA

Nascimentos entre mulheres hispânicas caiu 31% em dez anos. Demógrafos associam declínio ao adiamento da gravidez em favor da carreira

Sabrina Tavernise, The New York Times

21 de março de 2019 | 06h00

WENDELL, CAROLINA DO NORTE - Yoselin Wences cresceu ouvindo os constantes alertas dos pais, imigrantes mexicanos que se tornaram um paisagista e uma cozinheira. “A mensagem era: ‘Não seja como a gente’ ”, ela disse. “ ‘Não case cedo. Não tenha filhos cedo. Não seja uma dessas mães adolescentes. Nós fizemos estes sacrifícios para que você tivesse uma formação e seguisse uma carreira’ ”.

Ela seguiu os conselhos e, agora, aos 22 anos, Yoselin está no terceiro ano da North Carolina State University. Em breve, ela será o primeiro membro da família a se formar em uma universidade. Quando alguém a perguntava se não iria ter filhos, respondia que, por ela, isto só aconteceria anos mais tarde. “Provavelmente com 34, 35 anos”, projetou. “Essa faixa etária me parece ideal”.

Como as taxas de fertilidade em todo o país continuam declinando - 2017 apresentou a menor taxa desde que o governo americano começou a manter este registro -, uma das maiores quedas ocorreu entre cidadãos de origem hispânica. A taxa de nascimentos entre as mulheres hispânicas caiu 31% de 2007 a 2017, um declínio acentuado que, segundo os demógrafos, é causado em parte pelas diferenças geracionais entre imigrantes hispânicos e suas filhas e netas nascidas nos Estados Unidos.

Ocorre que elas querem se assemelhar mais às americanas. Atualmente, cerca de dois terços dos hispânicos nos Estados Unidos nasceram neste país. As jovens americanas de origem hispânica têm menos probabilidade de serem pobres e maior probabilidade de terem uma formação superior do que suas mães e avós imigrantes, segundo o Centro Pew de Pesquisa. Muitas adiam a gravidez a fim de terminar os seus estudos e começar uma carreira.

“As hispânicas estão buscando os mesmos padrões das americanas da sua idade”, disse Lina Guzman, uma demógrafa do Child Trends, grupo de pesquisa sem fins lucrativos. O maior declínio nas taxas de fertilidade hispânica é o das mulheres de origem mexicana, disse a dra. Guzman.

Filhos exigem gastos

O decréscimo hispânico contribui para provocar uma importante mudança nos padrões de fertilidade do país. O Child Trends constatou que 2016 foi o primeiro ano em que as jovens americanas com idades entre 25 e 29 anos não registraram as mais altas taxas de nascimento. A taxa foi mais elevada entre as mulheres com pouco mais de 30.

Em uma pesquisa de 2018, as principais razões apresentadas pelas jovens  por adiarem a maternidade diziam respeito ao dinheiro - filhos exigem gastos muito altos.

As taxas de natalidade  tendem a seguir os ciclos econômicos. O fato de a taxa americana não ter acompanhado a economia nos últimos anos  intriga os demógrafos.

A fertilidade entre a população de origem hispânica - definida pelos demógrafos como a que informa sua origem na certidão de nascimento - caiu de 97,4 para 67,6 nascimentos por mil mulheres. Em contraposição, a taxa para as americanas brancas não hispânicas caiu 6% para 57,2, e cerca de 12% para as negras, para 63,1, segundo o Child Trends.

As implicações do declínio hispânico são consideráveis. Com a redução da população branca, os hispânicos registram a maioria dos ganhos populacionais nos Estados Unidos. Embora sua taxa de fertilidade seja ainda a mais alta em relação a qualquer outro grupo racial e étnico, os declínios acentuados dos últimos anos estão produzindo efeitos.

Por enquanto, Yocelin disse que pretende dedicar-se exclusivamente à conclusão de seu bacharelado em psicologia. Se engravidar agora, afirmou, provavelmente terá de abandonar a faculdade. “Eu me sentiria envergonhada, porque os sacrifícios que meu pai fez até agora teriam sido em vão”, disse Yocelin.

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