Beth Hall The New York Times
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Respeitando o distanciamento, teatros se adaptam para apresentar espetáculos ao vivo

'Há uma enorme diferença entre o palco e a tela do computador', disse Susan Claassen, diretora artística

Michael Paulson, The New York Times - Life/Style

26 de julho de 2020 | 05h00

Dentro de um antigo quartel do corpo de bombeiros em Richmond, Virgínia, um ator solitário interpreta O retrato de Dorian Gray para públicos tão pequenos que podem chegar a apenas duas pessoas. Num estacionamento de Denver, dentro dos carros, através dos para-brisas, a plateia assiste a quatro artistas fantasiados de gafanhotos. Numa propriedade de 2,5 quilômetros quadrados no Arkansas, um elenco de cerca de 130 atores reencena a história de Jesus para várias centenas de espectadores espalhados por um anfiteatro de quatro mil lugares. A pandemia de coronavírus fechou a Broadway e os grandes teatros regionais até o final do ano (no mínimo), e os principais festivais do país agora se voltaram para o streaming.

Mas, mesmo com o surto de infecções nos Estados Unidos, muitos teatros estão encontrando maneiras de apresentar espetáculos ao vivo, diante do público. Claro, tudo com distanciamento social. E, em alguns lugares, máscaras. E verificação de temperatura. E venda de ingressos sem contato. E espetáculos sem intervalo. E muito álcool em gel. No Footlights Theatre, em Falmouth, Maine, os atores se apresentam atrás de uma placa de acrílico.

Mas essas precauções significam que ainda tem teatro com jantar na Flórida. Teatro de rua em Chicago. Teatro drive-in em Iowa. “Nosso compromisso é fazer teatro ao vivo – há uma enorme diferença entre o palco e a tela do computador”, disse Susan Claassen, diretora artística do Invisible Theatre em Tucson, Arizona, estado que se tornou foco da covid-19. O Invisible Theatre, que apresenta uma peça com quatro personagens chamada Filming O’Keefe, instalou um ionizador de ar, permitiu que os espectadores ocupassem apenas um quarto dos assentos e exigiu que todos usassem máscara.

“Nosso teatro recebeu esse nome por causa da energia invisível que flui entre os artistas e a plateia”, disse Claassen. “Mesmo com apenas 22 pessoas na plateia, de máscara, essa energia é ainda muito forte”. Existem também razões financeiras para continuar: alguns teatros dizem que não conseguiriam sobreviver a um ano sem receita.

“Preferimos fazer teatro do que morrer aos poucos, de braços cruzados”, disse Bryan Fonseca, diretor de produção da Fonseca Theatre Company, em Indianápolis. A companhia planeja encenar Hype Man, peça de Idris Goodwin, para 65 espectadores, de máscaras e ao ar livre. “Estou com esperança e também com muita cautela”, disse Fonseca, “muito cuidado para não criar problemas”.

Sem garantia

A pandemia continua sendo uma preocupação para todas as produções planejadas. Em Fort Myers, na Flórida, o Broadway Palm Dinner Theatre adiou A Noviça Rebelde quando o número de casos confirmados aumentou no estado. Em Houston, o Theater Suburbia cancelou Daddy's Dyin Who's Got the Will?, referindo-se às ordens de quarentena. E, em Salt Lake City, onde o Grand Theatre planejava uma temporada de O Sol é para Todos na qual todos os artistas estariam mascarados, o teatro desistiu da produção a apenas quatro noites antes da estreia, por causa do aumento de casos locais. Mas muitas outras produções estão persistindo.

Em Jacksonville, Flórida, mesmo quando o prefeito impôs o uso obrigatório de máscara em ambientes fechados, o teatro com jantar de Alhambra continuou encenando Cinderela. O teatro está vendendo apenas 50% da lotação; instalou painéis de acrílico entre os assentos; os clientes devem usar máscaras depois de comer; os artistas usam luvas e dançam longe um do outro; e, no final, Cinderela e o príncipe dão uma cotovelada, em vez de um beijo. (O público, invariavelmente, dá risada).

“Fico muito à vontade e definitivamente não estou preocupada com minha saúde”, disse Olivia Zeisloft, de 18 anos, que interpreta o papel principal (e cujo avô é o diretor). “É uma experiência incrível”. O sindicato Actors’ Equity Association impediu que seus membros se apresentassem no palco, e o Alhambra é um dos vários teatros que se ajustaram às consequências, decidindo, pela primeira vez em muitos anos, empregar atores não sindicalizados.

A produção de O Sol é para todos em Salt Lake City reformulou o papel de Atticus Finch depois que um ator da Equity se recusou a atuar. E, no oeste da Virgínia, o American Shakespeare Center, que normalmente conta tanto com atores sindicalizados quanto com não sindicalizados, está planejando usar apenas artistas não-sindicalizados neste verão. A Equity não gostou da ideia e alertou que “no futuro, colocaremos um holofote sobre os teatros que decidiram fazer a escolha imprudente e irresponsável de pôr em risco a segurança de seu público e seus trabalhadores”, disse Mary McColl, diretora executiva do sindicato.

Pensar pequeno, continuar grande

O verão é lindo. Mas este verão [no hemisfério norte] está estranho. O Buntport Theatre de Denver, que geralmente apresenta obras num galpão de 100 lugares, decidiu criar um ambiente externo e, como várias outras companhias de teatro de todo o país, procurou inspiração no cinema drive-in. O resultado: The Grasshoppers, no qual quatro atores vestindo macacões adaptados apresentam uma peça sobre isolamento para espectadores fechados em seus carros.

“Parece que você está fazendo teatro e, ao mesmo tempo, parece que não”, disse Erin Rollman, membro da companhia. Mas tem ainda o teatro de rua, que vem ganhando novas perspectivas de artistas que estão ociosos por causa da pandemia. Em Chicago, o coletivo ad hoc Random Acts of Theatre se apresenta aos transeuntes em alguns fins de semana.

Os atores se vestiram como idosos, carregando bebês no colo, para fazer uma obra chamada ‘O futuro está nos observando’ e lembraram o Dia da Emancipação com máscaras imensas no rosto. Próxima atração: algo envolvendo grandes bonecos de pássaros. “É um momento em que todo mundo está se sentindo assustado e esquisito”, disse uma das organizadoras, Jessica Thebus, que coordena o programa de pós-graduação em direção na Northwestern University.

“Parece bem importante trazer arte para as pessoas que estão andando na rua”. Mas também há produções em grande escala – grandes elencos, muitos assentos – em locais ao ar livre, entre eles o Medora Musical em Dakota do Norte, o Shepherd of the Hills Outdoor Drama em Branson, Missouri, e o Great Passion Play em Eureka Springs, Arkansas.

“Foi um pouco desafiador fazer uma peça no meio da pandemia”, disse Kent Butler, que interpreta Jesus nas noites de sexta-feira no Arkansas – e que também é guia dos tours e porta-voz da produção. O público diminuiu, disse ele, refletindo o declínio do turismo e o desaparecimento das grandes excursões. Mas alguns espectadores ficam claramente entusiasmados.

“O teatro é uma coisa que as pessoas desejam profundamente”, disse Jackie Schmillen, âncora de televisão em Iowa que foi assistir a uma produção drive-in de ‘Love Letters’ no estacionamento da Des Moines Playhouse. E Joel Bassin, diretor artístico do Firehouse Theatre, em Richmond, disse que suas produções de ‘Dorian Gray’ estão vendendo bem – embora para audiências de apenas duas, quatro ou seis pessoas. “As pessoas querem sair, basta garantir que estamos controlando o risco”, disse ele.

Experiências de plateia

Os atores, vestidos de branco, corriam, pulavam e dançavam em torno de uma quadra de basquete ao ar livre em Claverack, Nova York, numa noite semanas atrás, recontando seus sonhos e encenando suas visões. Em vez das luzes do palco, lanternas em volta do palco improvisado. A plateia ficava dentro dos carros, ouvindo os diálogos e as músicas pelos rádios e celulares.

Era a cena final de um exemplo particularmente ambicioso de experimentação provocada pela pandemia: o diretor Michael Arden, duas vezes indicado ao Tony, reuniu 33 artistas de teatro no Vale do Hudson em Nova York para produzir uma peça chamada American Dream Study.

A plateia, composta por apenas uns poucos convidados, todos de máscara, viajava de carro e a pé de uma cena para outra: uma mulher numa canoa flutuante, um casal numa fábrica em ruínas, dançarinos num tanque de óleo abandonado e todo o elenco emergindo da floresta para cantar em volta de uma fogueira. Todos os espectadores ficaram distantes uns dos outros e dos atores.

Os membros da companhia, que conta com Nikki M. James, vencedora do Tony por The Book of Mormon, desenvolveram a peça enquanto faziam quarentena, com uma enfermeira, numa pousada. Eles ainda têm esperança, mas não sabem se o programa terá uma produção completa. “Estávamos descobrindo um novo modo de contar histórias a partir de um obstáculo”, disse Arden, “e foi realmente incrível”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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