Adam Amengual/The New York Times
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Um teatro em um cânion da Califórnia volta a ser um oásis

Criado por atores em "lista proibida", o Will Geer's Theatricum Botanicum, um pitoresco teatro ao ar livre, está atraindo o público

Adam Nagourney, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2021 | 05h00

TOPANGA, Califórnia – Não havia nomes famosos no elenco. Era a primeira montagem profissional da peça de um dramaturgo pouco conhecido. E o teatro se localizava nos cânions das Montanhas de Santa Monica, no topo de uma longa estrada cheia de curvas, a meio caminho entre as praias do Oceano Pacífico e o Vale de San Fernando, lugarzinho isolado e boêmio conhecido por seus artistas, seus músicos e suas cascavéis.

Mas, apesar de tudo, havia bastante gente no Will Geer's Theatricum Botanicum para assistir à encenação da peça The Last, Best Small Town (A última e melhor cidadezinha, em tradução livre) algumas noites atrás. De máscara, como exigido pelo teatro, 150 espectadores se sentaram em duros bancos de madeira naquela noite fresca de verão. Um elenco de oito atores navegava com exuberância pelo grande palco assimétrico, construído ao redor de um carvalho californiano vivo sobre uma encosta recoberta com vegetação rasteira, e corria por trilhas de terra batida para sair pela esquerda e entrar pela direita do palco.

O Theatricum Botanicum nasceu na era McCarthy, em meio ao furor político causado pelas preocupações com supostas infiltrações comunistas em Hollywood na década de 1950. Começou como um retiro nas montanhas onde atores proscritos, liderados por Geer, que havia se recusado a testemunhar perante o Comitê de Atividades Antiamericanas, reuniam-se para encenar Shakespeare e Tennessee Williams para pequenos públicos que perambulavam pelo Topanga Canyon Boulevard.

Mas esse remoto teatro na floresta, que durante anos foi frequentado principalmente por um público cativo composto de vizinhos de Topanga e uns poucos espectadores familiarizados com sua história, vem atraindo multidões, mesmo em meio a uma pandemia. Os atores agora se apresentam em um palco novo, que foi reconstruído com recursos doados na temporada passada, quando o teatro estava fechado, e que substitui o que era um amontoado de terra e madeira podre. "Este lindo espaço externo é perfeito para este momento", disse Alan Blumenfeld, ator e membro da companhia teatral há 36 anos.

O teatro vem atraindo multidões, que mostram seu comprovante de vacinação para poder aproveitar uma noite de teatro ao ar livre. A sessão de The Last, Best Small Town atraiu 150 pessoas e, na noite anterior, quase 300 espectadores haviam assistido à montagem de Sonho de Uma Noite de Verão – público considerado grande até mesmo em tempos normais, e embora o teatro só tenha 299 assentos. "As pessoas estão se sentindo mais seguras para vir, e isso tem sido bom para nós", comentou Willow Geer, neta de Will Geer, que faz o papel de Pórcia na produção de Júlio Cesar deste ano.

Mas seu encanto vai além de oferecer um palco ao ar livre, sob as estrelas. O Theatricum Botanicum é peculiar e único, definido tanto pelo seu esplendor remoto quanto pelas circunstâncias de sua fundação. Seu legado vem sendo cuidadosamente protegido pelos membros da família Geer, que dirigem o teatro e atuam nele desde a morte de Will Geer em 1978, e que consideram sua sensibilidade ideológica especialmente relevante nestes tempos de pandemia e polarização.

"O Theatricum Botanicum está para Los Angeles como o Topanga Canyon está para a própria cidade de Los Angeles: tecnicamente, faz parte da cidade, mas é um mundo particular. Dá continuidade ao legado de Woody Guthrie e à sensibilidade do presidente Franklin Delano Roosevelt para dar uma oportunidade às pessoas que de outra forma não teriam tido nenhuma chance. Tenho um fraco por eles. Respeito profundamente as pessoas que fazem isso com um propósito. Não é só vaidade", explicou Steven Leigh Morris, editor da Stage Raw, publicação dedicada às artes e à cultura de Los Angeles.

Ellen Geer, filha de Will Geer e diretora artística do teatro, divertiu-se um dia desses ao celebrar 70 anos de história – da sua família e do teatro; os dois são inseparáveis – enquanto guiava uma visita pelos jardins, teatros e chalés, incluindo aquele em que Guthrie, que era amigo de Will Geer, morou por algum tempo no início da década de 1950.

Will Geer, que emprestou seu nome ao teatro – e cujas cinzas estão enterradas no Jardim Shakespeare, próximas às da sua ex-esposa, a atriz Herta Ware –, é popularmente conhecido por ter interpretado o avô na série televisiva Os Waltons. Mas esse papel foi como um último suspiro na carreira do conhecido ator de teatro e de cinema, que protagonizou "The Cradle Will Rock", a peça esquerdista de 1937 que aborda o surgimento dos sindicatos na indústria siderúrgica, dirigida por Orson Welles.

Geer entrou na "lista proibida" em 1951, quando apelou para os direitos previstos na Quinta Emenda à Constituição americana ao ser questionado sobre a infiltração comunista em Hollywood diante do Comitê de Atividades Antiamericanas. Geer e Ware compraram terras em Topanga depois que ele, incapaz de arranjar trabalho no palco ou na tela, perdeu sua casa em Santa Monica, na Califórnia.

Formado em horticultura, Geer cultivava vegetais para alimentar a família. (Daí o nome Theatricum Botanicum, que significa, aproximadamente, teatro botânico.) Depois, começou a reunir outros atores dessa "lista probidida" para fazer apresentações improvisadas nas montanhas. Alguns anos depois, ele deixou Topanga e se mudou para o outro lado dos Estados Unidos, aceitando trabalhos ocasionais como ator. (Ele e sua esposa acabaram se divorciando, mas continuaram amigos.) Com o dinheiro que ganhou com "Os Waltons", Geer voltou para Topanga, reuniu a família, incorporou formalmente o Theatricum Botanicum em 1973 e construiu o anfiteatro. O teatro agora conta com um orçamento de US$ 1 milhão, e 50 atores e 20 técnicos na folha de pagamento.

Ellen Geer, que interpretou Sunshine Doré em Ensina-me a Viver, clássica comédia romântica de humor ácido de 1971, acabou de completar 80 anos e não trabalha mais como atriz. Está quase se aposentando de seu cargo de diretora artística, que será passado para Willow Geer, de 40 anos. Mas, mesmo perto do fim da carreira, ela tem fortes convicções sobre o papel do teatro no enfrentamento de uma pandemia: "Sabem quantos parques existem? Vocês, produtores, precisam se unir. Tomem posse de um parque. Simples assim! Usem o jardim de algum ricaço. Não há desculpa para parar. O teatro é muito importante neste momento."

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