Ira Polyarnaya/Theatre of Nations, Moscou via The New York Times
Ira Polyarnaya/Theatre of Nations, Moscou via The New York Times

Humano acima de tudo: Em Moscou, um teatro encena ‘Gorbachev’

A biografia teatral do diretor letão Alvis Hermanis é uma ode à história de amor de Mikhail e Raisa Gorbachev, e retrata o antigo líder em toda sua humanidade

Ivan Nechepurenko, The Nerw York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 05h00

MOSCOU – Em agosto de 1991, Mikhail Gorbachev, o último líder da União Soviética, voltou de sua prisão domiciliar na Criméia para Moscou com sua família, após a tentativa fracassada de um golpe antidemocrático orquestrado pela KGB para depô-lo.

Ao invés de se juntar a centenas de milhares de moscovitas em êxtase, que se juntaram nas praças da cidade para comemorar sua vitória e a deles, Gorbachev foi ao hospital com sua esposa, Raisa, que tinha sofrido um derrame.

Essa cena foi fundamental para a história recente da Rússia, e também é central em Gorbachev, o último sucesso do Teatro Estatal das Nações de Moscou, onde apesar da pandemia, os shows continuaram a ser realizados ao vivo, embora com capacidade limitada.

"Eu não era casado com o país – com a Rússia ou a União Soviética", Gorbachev, que agora tem 90 anos e ainda mora em Moscou, escreveu em suas memórias.   

"Eu era casado com minha esposa, e essa noite fui com ela ao hospital", seu personagem, brilhantemente interpretado por Yevgeny Mironov, disse do palco. “Talvez tenha sido a decisão mais crucial de minha vida política.”

Gorbachev que estreou em outubro passado, é uma ode à história de amor dos Gorbachev. Colocando o relacionamento deles no centro, a peça faz algo extraordinário para a cultura das artes performativas russas. Retrata o líder do país como um ser humano ao invés de um grande demiurgo, responsável por seu futuro. Mostra Gorbachev como alguém para quem os sentimentos e as obrigações morais, com relação à sua esposa, amigos e cidadãos, reinavam supremos acima do expediente político.

Em um país onde os autocratas, incluindo o atual, cuidadosamente protegem sua imagem e vida pessoal, Gorbachev é um respiro. Celebra a humanidade de alguém que é quase universalmente celebrado como um libertário e igualmente desprezado por muitos na Rússia como o carniceiro do status de superpotência do país.

Alvis Hermanis, o aclamado diretor letão que escreveu e encenou a peça, tentou mostrar como os assuntos políticos são secundários na presença do amor verdadeiro. Na tradição dos clássicos russos, Hermanis prioriza o tema amoroso ao invés dos eventos históricos, que servem apenas como pano de fundo. Ele transforma essa história em algo universal, aplicável não apenas ao líder da grande nação, mas a todos nós.

Para conseguir esse resultado, Hermanis usa as ferramentas da tradição do realismo psicológico russo. Os únicos dois atores em cena, Chulpan Khamatova como Raisa Gorbachev e Mironov como o último presidente soviético, atuam impecavelmente com uma assustadora precisão, criando uma atmosfera de atemporalidade e melancolia. Sob a direção de Hermanis, o ritmo da peça dá ao espectador espaço suficiente para refletir sobre os personagens.  

Toda a produção ocorre em um camarim com duas estações de maquiagem e dois espelhos. Há uma arara de vestidos e perucas espalhadas pelo espaço. Este é um work in progress. Uma grande placa na porta de entrada diz: “Silêncio! Performance em andamento.”

Khamatova e Mironov entram com o que facilmente poderiam ser suas roupas cotidianas: um moletom, jeans, uma camisa preta despretensiosa. Ao longo da performance, eles vão se transformando no palco, mudando suas roupas e aparência à medida que envelhecem.

Os dois atores começam lendo suas falas em voz alta, discutindo sobre como interpretar seus personagens. Lentamente, através da discussão, eles assumem seus papéis, mais visivelmente imitando sotaques: a pronúncia derivada dos cossacos do sul de Mikhail com vogais alongadas e o tom cantado altamente agudo de Raisa, uma entusiasmada graduada em filosofia em um país onde a única escola filosófica aceita era o marxismo.

Kharmatova e Mironov, que estão entre os melhores atores de teatro de sua geração, saem do palco apenas uma vez, no intervalo dessa performance de três horas. Lenta e continuamente, eles leem e representam essas vidas: a história dos expurgos de Stalin é seguida pela horrível guerra com a Alemanha. Na sequência, suas vidas são consumidas por seu caso de amor universitário e, finalmente, pela ascensão de Gorbachev ao topo das fileiras da nomenklatura do partido.

A história de Gorbachev no comando de uma das duas superpotências do mundo é tratada como um barulho de fundo: “Era apenas um dia de trabalho de seis anos”, diz Raisa do palco. No final, quando os atores já estão totalmente imersos em seus personagens, vemos apenas um Mikhail de 90 anos. (Neste ponto, Mironov está usando uma máscara que cobre toda a sua cabeça, com a marca de nascença de Gorbachev em total exibição.) Nos últimos minutos, Mikhail está sozinho, lamentando a morte de sua esposa em 1999 de leucemia, lembrando-se de suas últimas palavras: “Você se lembra se devolvemos os sapatos brancos que emprestamos de Nina para o nosso casamento?”

O sucesso da peça, e a insaciável demanda por ingressos que se esgotam em meia hora e podem custar até US $250 , podem ser atribuídas ao fato de seus criadores terem algo pessoal em jogo.

Para Hermanis, Gorbachev, que libertou sua Letônia natal do jugo soviético, foi a terceira pessoa “que mais mudou sua vida depois de seu pai e sua mãe”, ele disse em uma entrevista a uma emissora estatal russa.

Para Khamatova, Gorbachev trouxe a esperança de “uma vida diferente com liberdade de expressão e orientação sexual”, ela disse em entrevista à GQ russa.

Para Mironov, que, como gerente do Teatro das Nações, o transformou na principal instituição cultural de Moscou na última década, Gorbachev proporcionou liberdade artística na época em que ele estava apenas começando sua carreira, no final dos anos 1980.

“Depois de entrar na pele de Gorbachev, percebi que ele não era um político”, disse Mironov em uma entrevista gravada durante os ensaios no ano passado.

“É por isso que ele fez o que fez - é por isso que ele é tão interessante e valioso para mim como pessoa”, ele disse. "Porque ele se comportou como um ser humano." /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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