Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Monólogos ganham mais espaço na era dos lockdowns

Autoconsciente, autocentrado ou autoiludido é um formato tão antigo quanto o próprio teatro. E está florescendo em uma época de isolamento social

Ben Brantley, The New York Times - Life/Style

14 de novembro de 2020 | 05h00

Você tem falado sozinho de novo, não é? Parece justo supor que tal comportamento tem se tornado, bem... uma pandemia durante os últimos seis meses. Isso é uma coisa natural de se fazer em quarentena, quando a mente está fervilhando com conversas internas e quando as possibilidades de um diálogo real são frustrantemente limitadas. Mas você realmente se ouviu falando sozinho? Porque se você tivesse permissão para uma reprodução instantânea de tais momentos, provavelmente ficaria chocado com as coisas que disse que nem sabia que estava dizendo.

Ser o único locutor não garante de forma alguma que você controle a conversa. Separar e refinar as surpresas e autotraições de pensar alto são inerentes à arte do monólogo - uma forma teatral que, por razões compreensíveis, tem florescido na era do lockdown. Artistas de todo o mundo - os produtores de Nova York de 24 Hour Plays (com sua série Viral Monologues), o Abbey Theatre da Irlanda e o National Theatre da Escócia, para começar - lançaram-se cedo e ansiosamente no vácuo deixado pelo fechamento dos cinemas, recrutando alguns dos melhores dramaturgos e atores de seus países para criar novas peças com um único ator.

Essas breves performances exibidas por streaming são geralmente solilóquios (normalmente capturados por câmeras de smartphones) que falam diretamente para e sobre os problemas do isolamento social. Na melhor das hipóteses, eles levam seus personagens de pontos de partida familiares para lugares desconhecidos que muitas vezes parecem assustar até eles mesmos.

Você testemunha um striptease psicológico completo em questão de minutos, com atores localizando os sentimentos que contradizem as palavras e o ruído revelador nos silêncios entre as falas. A atual série de performances transmitidas ao vivo pela internet Old Vic: In Camera oferece dois exemplos gloriosos de tal arte por nomes a serem considerados: Andrew Scott como um homem evocando o fantasma glamoroso e destrutivo de seu pai morto em Three Kings de Stephen Beresford, e Michael Sheen como um narrador perturbadoramente não confiável no papel-título de Faith Healer de Brian Friel.

As peças com um único ator fazem parte de uma tradição tão antiga quanto (senão mais antiga) o próprio teatro. Homero - e os bardos antigos em todo o mundo - eram provavelmente escritores de monólogos. E muitos estudantes de Letras foram obrigados a gastar tempo com os solilóquios autodefinidores de Hamlet e Macbeth de Shakespeare.

Mas é com o advento do modernismo na literatura e sua ênfase na fluidez e variedade da consciência humana, que o monólogo realmente começa a decolar como uma obra de teatro independente. Pense no cris de coeur existencial e duradouro de Not I e Krapp's Last Tape de Samuel Beckett, ou a montanha-russa emocional confessional que é The Human Voice de Jean Cocteau (recentemente reinterpretado como um filme do diretor Pedro Almodóvar , com Tilda Swinton como sua estrela). Às vezes, os assuntos são menos do que cósmicos.

Há a moda eterna do teatro de celebridades mortas, em que atores famosos (Hal Holbrook, Robert Morse, Bette Midler) se fazem passar por outros famosos (Mark Twain, Truman Capote, a agente Sue Mengers). Em outro nível, mais angustiante, o ator sul-africano Antony Sher deu vida ao profundamente comovente relato em primeira pessoa de Primo Levi a respeito da sobrevivência em Auschwitz em Primo. E a incomparável Anna Deavere Smith estabeleceu seu próprio gênero de monólogos tópicos, nos quais ela incorpora uma série de pessoas que ela mesma entrevistou.

Em peças como Twilight: Los Angeles, 1992 (sobre o rescaldo da prisão de Rodney King) e Fires in the Mirror (sobre os tumultos de Crown Heights em 1991 no Brooklyn), ela transcende a imitação engenhosa de seus temas para abraçar a extra dimensão de Anna ouvindo ativamente essas pessoas, e fazendo seu público ouvir com novos ouvidos. (Fires foi reencarnado com sucesso no ano passado pelo jovem ator Michael Benjamin Washington, confirmando que o trabalho de Anna pode ser adaptado e expandido por novos intérpretes.)

Nas últimas quatro décadas, tem havido um fluxo constante de peças de memórias, nas quais os artistas pintam autorretratos, palimpsestos das pessoas que antes espreitavam sob as pessoas em que se tornaram. Spalding Gray, que deu alcance ontológico ao olhar o próprio umbigo, foi o grande mestre da autodissecação destacada em obras como Swimming to Cambodia (1985) e Gray's Anatomy (1993) antes de morrer em 2004.

Os melhores exemplos incluem a tetralogia de peças de Charlayne Woodard (começando com Pretty Fire) sobre como encontrar sua identidade como artista teatral negra; The Tricky Part de Martin Moran, sobre ser sexualmente molestado quando menino; e as excursões de especialistas de Lisa Kron em seu passado (101 Humiliating Stories) e de sua família (2.5 Minute Ride), peças em que a arte dramática da autodescoberta se curva para fins inesperados.

Depois, há os estudos de caráter cuidadosamente elaborados nos quais o pensamento autossabotador se torna visível em graus progressivos. Estes podem assumir a forma de sátiras ácidas (Paul Rudnick), viagens líricas na escuridão (Conor McPherson, o melhor de um amplo contingente contemporâneo de excelentes fiandeiros irlandeses), colapsos viscerais completos (Eric Bogosian) e exercícios escaldantes de evasão em que a comédia e a tragédia se fundem (a brilhante Fleabag, de Phoebe Waller-Bridge, apresentação solitária antes de se tornar uma série de televisão ganhadora do Emmy). / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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