Jenn Ackerman para The New York Times
Jenn Ackerman para The New York Times

Teatros americanos se dividem quanto a alertar público sobre conteúdos sensíveis

Estragando parte da surpresa para agradar ao público mais sensível

Michael Paulson, The New York Times

05 Dezembro 2018 | 06h00

DENVER - O alerta estava na entrada do teatro. “Atenção", começava o aviso em maiúsculas. “Esta produção contém: efeitos de luz estroboscópica, ruídos altos e súbitos, efeitos teatrais de neblina/névoa, cenas de violência, linguagem adulta, situações sexuais, humor e conteúdo destinado a adultos.”

A peça em questão se chama “Vietgone", e conta a história de um casal vietnamita que se conhece num campo de refugiados no Arkansas durante a Guerra do Vietnã. A Companhia de Teatro Denver Center tinha orgulho em apresentar essa comédia, mas não queria correr o risco de surpreender negativamente o público.

Não faz muito tempo, o espectador chegava ao teatro, recebia o programa, encaminhava-se para o seu lugar e aproveitava o espetáculo. Então, começaram os avisos de luzes estroboscópicas e efeitos de fumaça. 

Mas, agora, seguindo uma tendência que ganhou força nos campi universitários, os teatros começaram a oferecer alertas cada vez mais abrangentes e específicos. O fenômeno busca conciliar um impulso tradicional (preservar a capacidade da arte de surpreender, chocar e desestabilizar) e um desejo moderno de respeitar as sensibilidades.

Em Sarasota, Flórida, o Asolo Repertory Theater revelou que a peça “Gloria”, retratando um tiroteio no ambiente de trabalho, continha “cenas realistas e possivelmente perturbadoras de violência com armas retratada com realismo", mas incluiu também alguns detalhes da história numa seção de spoilers em sua página da internet.

A companhia de teatro Interact, da Filadélfia, deu um passo além: alertou que “Sensitive Guys” lidava com o tema do abuso sexual, e designou um “espaço seguro” no saguão, convidando representantes da organização Women Organized Against Rape para conversarem com os espectadores que se sentissem afetados pelo conteúdo.

Nem obras clássicas escapam da tendência: na mais recente produção de “Oklahoma!", o St. Ann’s Warehouse, em Nova York, distribuiu um cartão preto com os ingressos, alertando para o som de disparos, bem como momentos “sombrios e violentos”, oferecendo orientação para aqueles que quiserem deixar a peça antes do fim.

Os alertas se tornaram parte da vida universitária, sobrevivendo ao escárnio e a preocupação com uma censura aplicada em nome da aceitação, ainda que não a aprovação geral. Agora, a demanda por alertas desse tipo está se disseminando entre um público mais amplo. “Pessoas que cresceram com alertas passaram a esperá-los", disse Becky Witmer, diretora administrativa do ACT Theater, em Seattle.

Com o aumento no número de mortes em tiroteios em massa, mais peças estão retratando cenas do tipo. Mas Shakespeare também retratava cenas de violência. “A diferença é que agora existe uma verdadeira consideração do potencial invisível e desconhecido das cenas mais chocantes, que podem afetar negativamente uma pessoa já traumatizada, algo que pode ser evitado", disse James Bundy, diretor da Faculdade de Artes Cênicas da Universidade Yale, em Connecticut.

Mas nem todos gostam da ideia. “Temos uma geração que está amadurecendo agora e espera ser protegida do desconforto, e muitas companhias sucumbem a este desejo", disse Susie Medak, diretora administrativa do Berkeley Repertory Theater, na Califórnia. “Para mim, trata-se de uma tendência frustrante - qual é o objetivo de vivenciar a arte se não esperamos que ela nos surpreenda?”

O teatro dela não faz alertas, mas aconselha os espectadores preocupados com conteúdos específicos que entrem em contato com a bilheteria para se informar melhor.

Joseph Haj, diretor artístico do Guthrie Theater, em Minneapolis, disse não gostar dos alertas, mas aceitou a ideia de permitir que o público saiba o que esperar. A produção recente de “Frankenstein”, encenada no teatro, contava com um “aviso de conteúdo” alertando os espectadores para a presença de “luzes estroboscópicas, névoa, simulação de tiros e cenas retratando violência física e sexual". 

“Como adultos, deveríamos ser capazes de lidar juntos com ideias difíceis. Dito isso, o público não gosta de surpresas desagradáveis”, disse Haj.

“Vietgone” é um texto repleto de palavrões e inclui cenas de sexo e violência, além de debater os traumas ligados à guerra. Lideranças do teatro de Denver começaram a pensar em como lidar com esses pontos assim que leram a peça, escrita por Qui Nguyen.

“Estamos todos tentando encontrar o ponto certo para ajustar as expectativas dos espectadores sem tratá-los como crianças nem revelar partes importantes da história", disse o diretor artístico Chris Coleman.

“É ridículo", disse Marc Heft, recrutador do setor de saúde que frequentava uma sessão de “Vietgone”. 

“Sou adulto. Sei lidar com palavrões.”

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