Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

Em meio a tecnologia, teatros de marionete resistem na França

“As pessoas não entendem que dar vida a um fantoche é uma forma de arte", diz dono de teatro

Liz Alderman, The New York Times

01 de dezembro de 2019 | 06h00

PARIS - As crianças correram com os pais na direção de um teatro de fantoches nos Jardins de Luxemburgo, popular parque no centro de Paris. Cerca de 40 pequenos espectadores, com idades entre dois e oito anos, entraram em um salão iluminado com paredes pretas e bancos de couro vermelho de frente para uma miniatura de palco. 

O dono do teatro, Françis-Claude Desarthis, 73 anos, percorria os corredores, batendo um sino de metal para indicar o início do espetáculo. “Silêncio!” gritou uma menina de quatro anos, trazendo um dedo aos lábios. “Está na hora do Guignol! Desarthis, que foi para trás do palco, colocou no braço um fantoche de madeira de 90 centímetros, com sobrancelhas arqueadas, bochechas vermelhas e um casaco marrom. O personagem Guignol, loquaz e impulsivo, foi instantaneamente reconhecido pelo público.

Guignol derrota os malfeitores - naquela apresentação, o vilão era um chef francês - e defende os oprimidos. Em um palco estrelado com Montmartre e a Torre Eiffel pintados no fundo, ele trazia a justiça a outros marionetes de madeira enquanto as crianças comemoravam. “As crianças ficam completamente hipnotizadas", disse Patrice Seme, 54 anos, que trouxe os netos, de dois e quatro anos, ao Théâtre des Marionnettes du Luxembourg, um dos mais antigos de Paris. “É um espetáculo que não se pode reproduzir em um iPhone.” 

A tradicional arte francesa do teatro de marionetes continua capturando os corações e mentes no país. Cerca de 600 empresas de marionetes funcionam na França, com a maior concentração de teatros - conhecidos como châtelets, ou pequenos castelos - encontrada nos parques de Paris. Muitos são administrados pelos descendentes de titereiros.

Desarthis é um deles. Ele começou o aprendizado com o pai quanto tinha seis anos. De Cinderella até caricaturas de classe trabalhadora como Gnafron, um sapateiro pobre, fantoches vestindo roupas elaboradas e animados por mãos, títeres ou pauzinhos mantêm entretido o público de todas as idades. Cantam melodias conhecidas, desafiam as autoridades e enfrentam os dramas da vida.

O ateliê de Desarthis, perto dos Jardins de Luxemburgo, tem 2,5 mil fantoches Guignol, de limpadores de chaminé até poodles, criados por ele ao longo das décadas. Ele também pinta os cenários, grava as vozes e prepara os efeitos especiais usando 80 projetores.

Desarthis se inspirou no pai, que construiu o primeiro teatro exclusivamente para marionetes em Paris em 1933. Na época, os Jardins de Luxemburgo recebiam três vezes mais visitantes. “Praticamente não havia carros, e as pessoas não tiravam férias nem viajavam", disse ele. “Le tout Paris frequentava o parque, e todas as apresentações de marionetes ficavam lotadas.”

Desarthis disse que, hoje, as crianças têm mais distrações. “Mas, quando entram no meu teatro, elas têm uma interação direta com os Guignols, e esquecem tudo o mais.” Ele meteu a mão em um pedaço de tecido marrom velho com uma bola de madeira na parte de cima. Subitamente, Guignol ganhou vida, agitando os braços e apontando para o público. 

“As pessoas não entendem que dar vida a um fantoche é uma forma de arte", disse Desarthis. “A magia está no pulso.” Os fantoches ganharam vida própria no século 17, quando os personagens eram voltados para os adultos. O mais popular era Guignol, criado em 1808.

Guignol encontrou eco na classe trabalhadora. Lutava contra a miséria e a injustiça, caçoava das autoridades e combatia fantoches que assediavam os pobres. A mensagem era tão contagiante que Napoleão III censurou brevemente os espetáculos. “As pessoas se identificaram com Guignol", disse Lucile Bodson, ex-diretora do Instituto Internacional de Marionetes. “Ele entrou na cultura popular e deu ao público o poder de se manifestar contra os poderosos.”

Hoje, Guignol é uma versão amenizada de si mesmo. “É a tensão entre bem e mal, sendo que a justiça recompensa o bem", disse Desarthis. Ele foi até os bastidores preparar-se para outra apresentação. Enquanto um novo grupo de crianças entrava no teatro, uma balada a respeito do titereiro era mostrada em um vídeo. “Ele está com calor, e seus braços doem", dizia a canção. “Mas ele faz a criançada rir. Que coisa linda, meus amigos, ser criança para sempre!” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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