Emily A. Partridge/Nature Communications/Chop Handout/European Pressphoto Agency
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Tecnologia pode reduzir número de bebês perdidos em partos prematuros

Procedimentos com úteros artificiais, capazes de levar a gestação até o fim, abre debate sobre possibilidade de redução no número de abortos nos EUA

Robb Todd, The New York Times

18 de agosto de 2019 | 06h00

O motivo mais importante para a existência das pessoas é fazer bebês, escreveu este mês o médico Haider Warraich nas páginas do Times. Mas os humanos estão cumprindo esta missão com tanta competência que, para muitos pais, a superpopulação é uma grave ameaça ao planeta. Entre esses pais preocupados estão o príncipe Harry, da Inglaterra, e Meghan, duquesa de Sussex. Pouco depois do nascimento do primeiro filho do casal, o príncipe Harry disse que eles teriam “no máximo dois". “Somos a única espécie do planeta que parece pensar que o lugar nos pertence com exclusividade”, disse. “É claro que, sendo tão inteligentes ou supostamente evoluídos, seremos capazes de deixar algo melhor para a geração seguinte".

O príncipe logo foi criticado nas redes sociais por causa do seu questionável histórico ambiental.  “Seria esse o mesmo Harry que viaja de helicóptero entre Londres e Birmingham e cuja mulher usa os jatos de seus amigos célebres para cruzar o Atlântico?”, publicou no Twitter o apresentador Piers Morgan, que também escreve em tabloides.

Alison Phillips foi mais generosa no seu comentário. A editora do tabloide britânico The Daily Mirror disse que “poucos ficarão contentes com o comentário do príncipe Harry, mas, sem dúvida, esse será o debate dos nossos filhos e netos no futuro". Entretanto, avanços na tecnologia podem complicar o desejo de administrar melhor a população, mesmo solucionando outros problemas.

Úteros artificiais

O desenvolvimento de úteros artificiais capazes de levar a termo a gestação de bebês humanos parece estar a poucos anos de se tornar uma realidade, afirmou Alan Flake, cirurgião fetal encarregado dos experimentos com úteros artificiais no Hospital Pediátrico da Filadélfia.

Esses ambientes uterinos sintéticos permitem o desenvolvimento do feto até o fim da gestação, processo chamado ectogênese. O professor Zoltan Istvan, que dá aula a respeito do trans-humanismo, revelou que testes com fetos de ovelha “colocados em ‘sacos biológicos’, recipientes translúcidos de plástico cheios de fluido amniótico", apresentaram poucas complicações.

Essa tecnologia poderia reduzir significativamente o número de bebês perdidos em partos prematuros, principal causa de morte entre crianças com menos de cinco anos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Mas há uma implicação ainda maior para o aborto. Em maio, o papa Francisco disse que o aborto nunca é aceitável, nem mesmo quando o feto apresenta distúrbios patológicos ou doenças congênitas que podem ser fatais. “É legítimo tomar uma vida humana para solucionar um problema?”, questionou o papa.

Cerca de 600 mil abortos são realizados todos os anos nos Estados Unidos, e os úteros artificiais poderiam representar uma alternativa (ainda que cara) capaz de levar a gestação até o nascimento, ao mesmo tempo permitindo à mãe que escolha não carregar a criança até o fim da gestação. “Cada feto que seria abortado e em vez disso chegar a um útero artificial seria considerado uma vida salva", ponderou Istvan.

Se um quarto desses fetos sobrevivessem até o fim da gestação nos EUA, acrescentou ele, cada ano teria o nascimento de outros 150 mil bebês - e quase todos seriam oferecidos para a adoção, eclipsando o número de adoções anuais no país. “Quem vai arcar com o custo do procedimento e quem vai cuidar dessas crianças quando nascerem?” , continuou Istvan. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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