Elliott Verdier/The New York Time
Elliott Verdier/The New York Time

Nosso futuro sem dinheiro de papel está se aproximando

Medo da transmissão de doenças, como a covid-19, faz consumidores buscarem formas de pagamento que diminuam o contato com notas ou máquinas usadas no comércio

Liz Alderman, The New York Times - Life/Style

24 de julho de 2020 | 05h00

PARIS - Num domingo típico, os fregueses da queijaria de Julien Cornu costumavam comprar camembert e chèvre para a semana toda e, na hora de pagar, metade dos clientes metia as mãos nos bolsos e bolsas atrás de notas e moedas de euro.

Mas, na era do coronavírus, o dinheiro não está mais na moda na La Fromagerie, pois os requisitos de distanciamento social e as preocupações com a higiene levam quase todo mundo que entra pela porta a pagar com cartão.

“As pessoas estão usando mais cartões e pagamentos sem contato, porque não querem tocar em nada”, disse Cornu, enquanto a fila de fregueses, todos de máscara e a 1 metro de distância um dos outros, ia se aproximando do caixa para passar os cartões sem contato pela leitora.

Embora ainda se aceite pagamento em dinheiro, os fregueses, até mesmo os mais velhos - a clientela mais difícil quando se trata de adotar hábitos digitais - estão migrando voluntariamente para os cartões.

O dinheiro de papel já vinha perdendo espaço em muitos países, pois os consumidores urbanos estavam pagando as compras cada vez mais com aplicativos e cartões, até mesmo as contas de valores pequenos. Mas o coronavírus está acelerando a transição para um futuro sem dinheiro, elevando os custos para os comerciantes e enriquecendo o setor de pagamentos digitais.

O medo da transmissão da doença levou os consumidores a repensar a forma como compram e pagam. Varejistas e restaurantes estão priorizando os cliques para reduzir a exposição dos funcionários. O banco central da China chegou a esterilizar cédulas em regiões afetadas pelo vírus. E governos de diversos países - da Índia e Quênia à Suécia, além das Nações Unidas - estão promovendo os pagamentos sem dinheiro em nome da saúde pública.

“Hora de trocar suas moedas por cartões - mais seguros para conter o coronavírus”, tuitou Valdis Dombrovskis, vice-presidente de serviços financeiros da Comissão Europeia, quando a Europa começava a impor quarentenas.

O dinheiro de papel certamente não morreu. Antes da pandemia, as notas e moedas eram usadas em 80% das transações na Europa, e há poucos sinais de que a pandemia esteja prestes a acabar com elas.

No entanto, para um número crescente de pessoas sensibilizadas pelas quarentenas da covid-19, o dinheiro é um hábito que está desaparecendo.

“Estamos vivendo no mundo inteiro uma incrível experiência social que está forçando governos, empresas e consumidores a repensar seus modelos e normas operacionais para as interações sociais”, disse Morten Jorgensen, diretor da RBR, uma consultoria londrina especializada em tecnologia bancária, cartões e pagamentos.

“Agora temos um mundo com menos contato”, disse ele. “Os hábitos das pessoas estão mudando agora mesmo, enquanto estamos conversando”.

Essas dinâmicas estão criando um momento de ouro para as empresas de cartões de crédito, os bancos e as plataformas digitais, que estão aproveitando a crise para avançar na revolução rumo a um mundo sem dinheiro, incentivando consumidores e varejistas a usar cartões e aplicativos para smartphones, os quais geram taxas lucrativas. Somente na Grã-Bretanha, os varejistas pagaram 1,3 bilhão de libras (cerca de US$ 1,7 bilhão) em taxas para terceiros em 2018, um aumento de 70 milhões de libras em relação ao ano anterior, segundo o British Retail Consortium.

Empresas de pagamento e processamento, como o PayPal (cujas ações subiram cerca de 55% este ano) e a holandesa Adyen (alta de 72%), também estão ganhando. O mesmo acontece com empresas de análise de dados e prevenção de fraudes e empresas que permitem que os comerciantes aceitem pagamentos com cartão.

Impulsionando a tendência, há um aumento nas compras online, pois, em quarentena, os consumidores estão recorrendo a ferramentas digitais para comprar até mesmo itens básicos. Nos Estados Unidos, 40 milhões de clientes compraram comida online no mês de abril. Na Itália, onde o dinheiro ainda domina a economia, o volume de transações de comércio eletrônico aumentou mais de 80%, segundo a McKinsey & Co.

Empresas emissoras de cartões de crédito estão acompanhando o ritmo, trabalhando com bancos e governos para elevar os limites para os pagamentos sem contato, permitindo que os compradores evitem tocar no teclado.

Os limites de até 20 euros (cerca de US$ 23), originalmente estabelecidos para impedir que ladrões comprassem grandes quantias com um cartão roubado ou hackeado, subiram para 50 euros ou mais na França e em outros países durante a quarentena, o que encorajou os compradores a aumentar a quantidade e o valor de suas compras.

Na queijaria de Cornu, as pessoas começaram a comprar uma média de 35 euros em queijo depois que o limite para as compras sem contato aumentou, em comparação com cerca de 10 euros antes do aumento. Idosos que até então se apegavam ao dinheiro, por medo de terem o cartão roubado ou hackeado, começaram a usar o pagamento sem contato para comprar até mesmo um ou dois itens por vez.

“Os bancos e as empresas de cartões implementaram essas mudanças durante o confinamento e vêm insistindo na ideia de que você nem precisa tocar na máquina - e as pessoas a aceitaram”, disse ele.

Depois que os limites foram aumentados, a Visa registrou um salto nos pagamentos sem contato em compras de itens básicos na Grã-Bretanha e um aumento de 100% em relação ao ano passado nos Estados Unidos. A Visa disse que também trabalhou com governos da Grécia, Irlanda, Malta, Polônia e Turquia para aumentar os limites de pagamento sem contato nesses países.

As empresas de cartões não divulgam os ganhos com as taxas, mas Jorgensen, da RBR, disse que as emissoras provavelmente estão obtendo um lucro considerável. No ano passado, a Comissão Europeia limitou as taxas a 0,2% do valor da transação para os cartões de débito e 0,3% para os cartões de crédito, após uma batalha jurídica com Visa e Mastercard. Mas o crescente volume de operações ajuda a compensar o déficit, disse ele.

No L'Entrepôt Saint-Claude, um café perto da queijaria, o proprietário Emmanuel Mades imaginava que o aumento dos limites para os pagamentos sem contato viria a aumentar também o valor das taxas que ele paga pelo uso do cartão. Desde que o restaurante foi reaberto, no início de junho, 90% de todas as contas são pagas com cartão, um salto em relação aos 60% de antes de a França entrar em quarentena, em meados de março.

Naquela época, Mades pagava cerca de 300 euros por mês em taxas de cartão. Com mais pessoas optando pelos cartões sem contato para pagar mesmo contas pequenas, é provável que suas despesas “subam significativamente”, disse ele.

Não há evidências médicas de que o dinheiro transmita o vírus. No entanto, “a sensação de que o dinheiro de papel espalha patógenos pode mudar o comportamento de consumidores e empresas”, afirmou o Banco de Compensações Internacionais em um estudo recente sobre o efeito da covid-19 sobre o uso do dinheiro.

Entre os que esperam lucrar com o desconforto está a Tappit, uma empresa britânica que fornece soluções de coleta de dados e transações sem dinheiro, como pulseiras e aplicativos conectados a um cartão de crédito, para uso em jogos, festivais e outros eventos com grandes multidões.

A Tappit, que durante a pandemia afiou seu discurso para promover o lema “chega de dinheiro sujo”, vem observando um aumento do interesse por parte de arenas esportivas, hotéis e restaurantes, que querem retomar os negócios logo depois da quarentena, disse Jason Thomas, executivo-chefe.

“Alguns parceiros que estavam com um pouco de medo das transações sem dinheiro agora decidiram que esta é uma boa oportunidade para fazer a transição”, disse Thomas, acrescentando que a tecnologia permite que as operações sejam mais rápidas e incentiva mais gastos. “A pandemia arrancou de uma vez o esparadrapo de quem tinha medo de migrar para o mundo sem dinheiro de papel”.

A Tappit assinou contratos no valor de 20 milhões de euros nos últimos dois meses, mais do que em qualquer outro período.

“São contratos de longo prazo, entre cinco e dez anos”, disse Thomas. “Isso me diz que essas organizações nunca mais voltarão para o dinheiro”.

As autoridades que gerenciam as moedas do mundo dizem que são muitos os perigos da transição para a economia sem dinheiro de papel. Na Suécia, o dinheiro está desaparecendo tão rápido que o parlamento e o banco central pediram aos bancos comerciais que mantivessem notas e moedas em circulação enquanto tentam compreender o que significaria um futuro sem dinheiro.

Grupos de consumidores alertam que pessoas vulneráveis correm o risco de ficar marginalizadas. Muitos assalariados e aposentados de baixa renda, assim como alguns imigrantes e pessoas com deficiência, têm pouco ou nenhum acesso a pagamentos eletrônicos e são cada vez mais excluídos à medida que os bancos reduzem os caixas eletrônicos e os postos de atendimento ao cliente.

Os bancos centrais estão analisando se as moedas eletrônicas podem substituir o dinheiro físico. Na Suécia, o Riksbank está testando uma versão piloto da coroa digital, a e-coroa, que poderia manter as funções de uma moeda emitida pelo estado.

“Em certas economias, o dinheiro ainda cumpre uma função, porque continua a apresentar benefícios e utilidades”, disse John Velissarios, da Accenture, que está ajudando a gerenciar o teste do Riksbank. “É aí que o conceito de coisas como um dinheiro de banco central digital fica interessante”.

Embora os euros e dólares virtuais ainda estejam distantes, é improvável que se reverta essa mudança de atitude em relação ao dinheiro de papel provocada pela pandemia.

“O dinheiro não vai desaparecer”, disse Jorgensen. “Mas continuará declinando, e a covid está acelerando essa tendência”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.