Cayce Clifford para The New York Times
Cayce Clifford para The New York Times

Tecnologia monitora o que você compra (ou rouba) em supermercado

Por meio de dados comportamentais e 27 câmeras, o Standard Market acompanha o destino dos seus produtos, que são comprados exclusivamente via aplicativo

Nellie Bowles, The New York Times

01 Outubro 2018 | 10h00

SAN FRANCISCO - Um dia desses, o mais novo supermercado da cidade tentava descobrir se eu iria comprar, roubar ou deixaria na prateleira um saco de pipoca com Cheddar - e eu também.

Do seu lado, ele tinha 27 câmeras e dados sobre o meu comportamento. Do meu lado, uma atroz indecisão.

No mês passado, San Francisco abriu a sua primeira loja automática que dispensa caixas, o Standard Market. Os clientes que baixam o aplicativo da loja podem ir a este espaço de 176 metros quadrados, pegar alguns produtos e sair. Não há nenhuma fiscalização na saída, nenhum tipo de verificação. As câmeras identificam o comprador e os produtos, e determinam se aqueles itens sairão com o cliente. A ideia é justamente esta.

A startup que inovou o sistema é a Standard Cognition, criada em 2017. O objetivo é dotar desta tecnologia 100 lojas diárias até 2020.

Cinco de sete dos seus fundadores pertencem à Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos (SEC), onde criaram o software de inteligência artificial para detectar fraudes e violações comerciais. 

Agora estes especialistas estão trabalhando para descobrir algo igualmente complexo: se eu estou roubando um pacotinho de pipoca.

Em janeiro, a Amazon inaugurou o seu primeiro mercado ‘Go’ sem caixas em Seattle; e, em seguida, outras. Na China, são numerosos os experimentos com este tipo de comércio.

A estratégia da Standard Cognition é diferente. Ela confia exclusivamente nas câmeras do teto e no software de inteligência artificial. Ela sabe se eu andei mais devagar, peguei uma barra de chocolate e a devolvi à prateleira. Sabe se o meu corpo está na frente da manga seca, mas meu rosto está virado para a pipoca. E sabe (ou tenta saber) quando pretendo roubar.

“Nós aprendemos os comportamentos dos que parecem prestes a sair”, disse Michael Suswal, um dos fundadores. “Se eles irão roubar, seus passos serão maiores, e eles olharão para a porta”. Quando o sistema entende que detectou um possível comportamento de roubo, um funcionário da loja recebe uma mensagem e se aproxima do cliente para “uma conversa educada”, explicou Suswal.

Prever um roubo exige muitos dados sobre os compradores, muitos dos quais sequer existem ainda. Por isso, alguns dias antes da inauguração do Standard Market, a Standard Cognition contratou 100 atores para comprarem na loja durante quatro horas. No Japão, a equipe trabalhou com uma cadeia de lojas de conveniência cujo nome não revelou, para reunir dados. A Standard Cognition disse que não compilou informações biométricas, possibilidade que incomodou vários especialistas em privacidade.

Recentemente, abri o meu celular, onde piscava uma luz azul, para que a loja soubesse que eu havia entrado. Andei pelos corredores, jogando alguns produtos no carrinho e depois saí.

Lá fora, encontrei Suswal. Logo, no meu celular apareceu uma nota: um pacote de pipoca com cheddar e um rolo de papel higiênico, por um total de US$ 1,19.

Na realidade, eu saí do mercado com dois saquinhos de pipoca. Eu brinquei com o segundo saquinho, fiquei ponderando se o compraria, depois o devolvi à prateleira e finalmente o peguei em um gesto impulsivo. O sistema não percebeu.

“Isto não deveria acontecer”, disse Suswal. E, no entanto, aconteceu. Ele encolheu os ombros e disse que eu podia leva-lo de presente. Fui embora com ele.

A Standard Cognition e outras provavelmente terão de detectar aonde foi aquela pipoca. Mas, por enquanto, o sistema ainda não está suficientemente aperfeiçoado. E eu comi toda a pipoca.

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