Johannes Eisele/AFP via Getty Images
Johannes Eisele/AFP via Getty Images

Sistema de reconhecimento facial é usado para ridicularizar mulher de pijama na China

Episódio levantou a velha questão sobre como a tecnologia interfere na privacidade

Robb Todd, The New York Times

02 de fevereiro de 2020 | 06h00

O futuro distópico há tanto tempo previsto pelo homem pode finalmente ter chegado.

Na China, um software de reconhecimento facial foi utilizado no mês passado para identificar e ridicularizar publicamente uma mulher por “comportamento incivilizado”. Sua ofensa? Sair de casa de pijamas.

Poderíamos argumentar que é impossível ridicularizar pessoas por algo que elas optam por fazer em público. Mas uma jovem identificada somente como Dong provavelmente pensou que apenas seus vizinhos de Suzhou a veriam do lado de fora de sua casa usando um roupão cor de rosa. Em vez disso, porém, uma foto de sua infração, exibindo seu nome e número de identidade, foi publicada nas redes sociais pelo governo, para que o mundo todo visse.

“Quando esse tipo de coisa acontece é porque uma tecnologia muito sofisticada caiu nas mãos de burocratas de nível muito baixo”, afirmou ao Times a escritora Hung Huang, que também adora usar pijamas. “E quando falo em baixo nível, quero dizer baixo nível de inteligência.”

Há maneira mais traiçoeiras de uso da tecnologia para controlar as pessoas, mas esse incidente evidencia o quão rapidamente o uso de tecnologias como o reconhecimento facial pode fugir do controle. Sistemas de vigilância de alta tecnologia nas mãos erradas, inteligentes ou não, causam preocupação. 

O colunista Farhad Manjoo, do Times, escreveu que justificava sua apatia em relação à privacidade porque pensava que não tinha nada a esconder. Agora, ele vê a questão com outros olhos.

“Será que quero que qualquer um descubra tudo ao meu respeito?”, escreveu ele. “E mais especificamente: É sensato de nossa parte permitir que qualquer entidade descubra tudo sobre todo mundo? Porque é isso que está em jogo.”

Manjoo afirmou estar preocupado com a possibilidade de todas as comunicações ou pensamentos serem eventualmente detectados e analisados - um tipo de vigilância que poderia amordaçar o pensamento radical e a criatividade.

“A humanidade seria capaz de sobreviver à possibilidade de algumas empresas saberem mais sobre todos nós do que qualquer um de nós poderia saber sobre nós mesmos?”, escreveu ele. “Estou preocupado porque acho que logo seremos forçados a descobrir.”

A empresa Clearview AI pode acelerar essa descoberta. Charlie Warzel escreveu no Times a respeito da empresa de reconhecimento facial que extrai bilhões de imagens das redes sociais e outros sites para auxiliar na identificação de pessoas com seu software.

David Scalzo, um dos primeiros investidores da Clearview reconheceu que um possível mau uso desse sistema poderia levar a um futuro distópico - “ou algo assim”. Mas ele afirmou que não há sentido em bani-lo, porque a tecnologia inevitavelmente acabará com a privacidade. 

Warzel discorda.

“Não temos de nos resignar diante da distopia”, escreveu ele. “Isso não é inevitável. Mas será necessário fazer algo a respeito. Temos de imaginar o mundo que queremos e trabalhar por ele.”

Mas, em vez disso, algumas pessoas estão se desconectando totalmente da sociedade contemporânea, relatou Mike Mariani no Times. As autodenominadas comunidades intencionais são “descendentes modernos das colônias utópicas e comunas de séculos passados, nas quais os indivíduos compartilham de tudo: refeições, tarefas e espaço de vida, bem como trabalho, renda, responsabilidades domésticas e o ônus do autogoverno”. 

Existem cerca de 1.200 comunidades vinculadas ao diretório da Foundation for Intentional Community, que quase dobrou de tamanho entre 2010 e 2016 nos Estados Unidos. Estima-se que 100 mil pessoas vivam nelas, muitas desconectadas da internet. 

Sumner Nichols, 29 anos, afirmou que desejava escapar das restrições impostas pelo governo e as corporações. Assim, ele aderiu a uma comunidade chamada East Wind, no Missouri, quatro anos atrás.

“Sabemos como a coisa vai evoluir”, afirmou ele. “Como queremos conviver com isso?” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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