Tecnologia robótica transforma cirurgia de quadril

Tecnologia robótica transforma cirurgia de quadril

A última década viu melhorias incrementais significativas nas técnicas cirúrgicas e na capacidade de ajustar os pacientes com quadris artificiais que são altamente resistentes à falha mecânica ou à necessidade de revisão

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

06 de fevereiro de 2021 | 05h00

Uma coisa que aprendi em quase seis décadas como jornalista de ciências médicas: quanto mais você espera, maior é a chance de que os métodos de prevenção, diagnóstico e tratamento melhorem. Isso vale para praticamente todas as áreas de medicinacardiologia, gastroenterologia, oncologia etc. E pode ser especialmente relevante para a cirurgia ortopédica, especialidade que enfrenta demandas cada vez maiores de uma população envelhecida, com ossos, juntas, tendões e músculos que se partem depois de décadas de uso intenso.

Ainda que reparar essas partes do corpo quase nunca seja urgente, muitas pessoas suportam juntas dolorosas durante anos, ou até décadas, muitas vezes por medo de passar por uma cirurgia. A demora pode representar o risco óbvio das dores que não passam e da perda cada vez maior dos movimentos, além de consequências inesperadas, como lesões em músculos inicialmente saudáveis e em juntas que passaram a ser usadas em excesso.

Uma boa notícia para quem tem as articulações do quadril degeneradas e precisa seriamente de uma cirurgia de substituição: ao longo da última década, houve melhoras significativas nas técnicas cirúrgicas e na capacidade de implantar um quadril artificial altamente resistente a falhas mecânicas e à necessidade de reparo.

Uma amiga próxima passou recentemente por uma segunda cirurgia de substituição de quadril, nove anos depois da primeira, e, desta vez, está muito feliz com a quase ausência de dor e a rapidez na recuperação, graças às novas técnicas que sua cirurgiã adotou.

A base da substituição do quadril não mudou muito. Tradicionalmente, a junta entre o quadril e a cabeça do fêmur é removida cirurgicamente e substituída por outra artificial. Mas a maneira como a operação é realizada, especialmente durante a fase de preparação, pode fazer muita diferença no sucesso imediato e em longo prazo da cirurgia de substituição do quadril.

Conforme Patrick A. Meere me explicou, "grande parte da melhora no desempenho atual – alta médica mais rápida, retorno mais rápido dos movimentos e menor necessidade de uso de analgésicos – deve-se a uma técnica cirúrgica mais refinada", especialmente as abordagens que poupam os músculos e resultam em alívio mais rápido da dor e recuperação funcional acelerada. Em vez de cortar músculos para obter acesso aos ossos do quadril, o cirurgião corta entre as fibras musculares da pelve para chegar até os ossos da junta.

Um avanço significativo é o uso de computadores que ajudam o cirurgião a enxergar com precisão a melhor maneira de alinhar o quadril implantado. Meere, que é cirurgião ortopédico no NYU Langone Health, comentou que a maioria dos cirurgiões usa atualmente algum tipo de tecnologia, o que resulta em um comprimento de perna mais preciso, minimizando o risco de deslocar a nova junta do quadril.

Contudo, o aspecto mais empolgante das técnicas modernas de substituição de quadril talvez seja o uso crescente da cirurgia robótica. Embora os robôs sejam usados há décadas para produzir veículos motorizados com maior precisão, a substituição robótica da articulação ainda é novidade. Segundo Meere, os médicos precisam de algo entre 15 e 25 operações para se tornarem proficientes no uso dos robôs.

O custo extra envolvido no uso de robôs para a substituição do quadril ainda não é coberto pela maioria dos planos de saúde dos EUA. Porém, depois de conhecer as vantagens, minha amiga optou por pagar milhares de dólares do próprio bolso. O processo envolve a criação de um modelo em 3D do quadril do paciente. Uma tomografia computadorizada da pelve do paciente é realizada antes da operação, ou um modelo 3D do quadril pode ser criado no momento da cirurgia. Quando a imagem é feita com antecedência, o cirurgião pode criar um plano de operação mais preciso – trata-se, na verdade, de um ensaio virtual da operação.

É aí que entra o robô. O software do equipamento robótico usa as informações geradas pelo exame para criar um plano pré-operatório personalizado para a cirurgia. Com o plano cirúrgico, o cirurgião usa o braço robótico para inserir cada extremidade do quadril artificial exatamente onde deveria estar para melhorar ao máximo a função anatômica. O robô se movimenta dentro de uma área pré-definida, diminuindo a possibilidade de desvio do plano cirúrgico, ao mesmo tempo que permite ao cirurgião fazer ajustes durante a cirurgia, caso necessário.

"Assim que o robô entra em cena, funciona como navegador e copiloto. O cirurgião ainda está no comando, mas precisa expor menos tecido e fica mais confiante, porque o robô sabe exatamente onde estão os instrumentos de corte e onde ficam os limites seguros da zona de corte", explicou Meere.

Caso o cirurgião saia da zona de segurança, o robô emite um alerta, comparável ao alerta de saída da pista dos carros modernos, e se desconecta. "Dessa maneira, o robô diminui o risco de dano ao osso ou aos tecidos circundantes", disse Meere. Isso também alivia o estresse do cirurgião durante a operação de casos mais complexos.

Um fator fundamental para garantir o sucesso da substituição de quadril é garantir que a perna que está conectada ao novo quadril tenha o mesmo comprimento da outra perna. A cirurgia robótica consegue equiparar o comprimento das pernas com até cinco vezes mais precisão que as cirurgias convencionais. Além disso, também é mais precisa na hora de inserir a nova junta do quadril no ângulo correto.

Antes que o local da cirurgia seja suturado, o cirurgião pode conferir se a junta está corretamente alinhada e se o comprimento das pernas é o mesmo, o que proporciona uma junta mais estável.

"A cirurgia robótica é o futuro. Reconstrói com maior precisão a anatomia do paciente e resulta em uma melhor função mecânica. Implantes comprados prontos e ferramentas de marcenaria usadas para preparar os ossos não são um bom negócio nem um bom modelo clínico. Está se tornando mais econômico e prático criar implantes sob medida, em vez de adaptar o osso do paciente para receber um implante padrão", explicou Douglas B. Unis, cirurgião ortopédico da Faculdade de Medicina Mount Sinai Icahn.

Não foram apenas as técnicas cirúrgicas utilizadas na substituição de quadris que melhoraram. O mesmo aconteceu com a anestesia, que agora costuma contar com uma combinação de tratamentos, como bloqueio espinhal regional e bloqueio de nervos periféricos, e com um coquetel de analgésicos injetados diretamente no local da operação, disse Meere.

Tanto a navegação como a cirurgia robótica podem ser aplicadas na substituição das articulações do joelho e do ombro, ainda que até o momento os cirurgiões tenham muito mais experiência com cirurgias robóticas de substituição de quadril.

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