Stephen Lam/Reuters
Stephen Lam/Reuters

Trabalhadores do setor de tecnologia experimentam startups de terapia

'Empresas de tecnologia estão alimentando os mais odiosos abusos de direitos humanos', diz Meredith Whittaker, uma ex-pesquisadora do Google que se demitiu em junho

Nellie Bowles, The New York Times

29 de setembro de 2019 | 06h00

SÃO FRANCISCO - O Vale do Silício contava a si mesmo uma bela história: estava salvando o mundo. Por quase uma década, isso deu aos trabalhadores do setor de tecnologia um propósito, otimismo e autoconfiança. Depois vieram as manchetes negativas, seguidas por manchetes ainda piores - a respeito da indústria, dos Estados Unidos e do mundo.

Na busca por validação, trabalhadores do setor de tecnologia sequestraram o antigo retiro hippie de Esalen, cooptaram o festival Burning Man, se interessaram por alucinógenos e meditação. Não foi suficiente. Agora, por todo o Vale do Silício, trabalhadores do setor de tecnologia sofrendo de ansiedade estão finalmente admitindo que têm um problema. E estão indo à terapia.

“As questões que estão perpassando a consciência nacional estão tornando o trabalho com tecnologia menos glamuroso e menos nobre do que já foi”, afirmou Meredith Whittaker, uma ex-pesquisadora do Google que se demitiu em junho, em parte para protestar contra os contratos assinados pela empresa com as forças armadas e sua abordagem para os princípios éticos em relação à inteligência artificial. “Há muita ansiedade. Como é possível não se sentir assim? Empresas de tecnologia estão alimentando os mais odiosos abusos de direitos humanos.”

O Vale do Silício está tratando sua ansiedade da maneira que conhece melhor: agora, temos a terapia sob demanda. Métricas de avaliação das terapias. Terapeutas oferecendo alto retorno do investimento. Aplicativos que encontram o melhor terapeuta para o usuário com base em ferramentas típicas do namoro.

Até as startups de terapia que oferecem os elementos tradicionais de assistência - como conversar com um profissional licenciado em um consultório - enfatizam a burocracia simplificada, sua abordagem orientada por dados e análises de índices de felicidade. Eles esperam que a cura para os males da tecnologia seja mais tecnologia.

“Os terapeutas mais habilidosos melhoram o seu estado mental dez vezes mais rápido do que os terapeutas medianos”, promete a Kip, uma dessas startups. “Reunimos os melhores profissionais do mundo, capacitamos a eles (e a você) com nossas ferramentas inteligentes de software e desenvolvemos uma experiência integrada para clientes e profissionais.” Outra empresa aberta recentemente, a Reflect, chama a terapia de “academia de ginástica para a alma”.

A linguagem que as empresas usam é agressiva para algo íntimo e pessoal como terapia. Mas, na região da Baía de São Francisco, empreendedores veem pouco valor em aplicar uma resposta comedida a uma oportunidade de mercado. “O que estamos construindo é um novo sistema de saúde mental”, afirmou Alex Katz, fundador da Two Chairs, uma startup de terapia que possui seis clínicas na região da baía. A empresa faturou US$ 21 milhões em agosto.

Terapeutas tradicionais fazem anotações e as analisam posteriormente. No sistema Kip, as anotações rapidamente se tornam dados. Semanas de terapia são resumidas em testes para determinar exatamente como os níveis de felicidade e ansiedade estão progredindo - e quão rapidamente.

A Kip oferece um aplicativo que incentiva os clientes a registrar seu humor em tempo real, estimulados por questões que um terapeuta pode configurar para serem exibidas ao longo do dia. “Dessa maneira, eles não ficam influenciados pelo momento”, afirmou Ti Zhao, fundadora da Kip.

Os novos dados poderiam fornecer perspectivas que terapeutas típicos não alcançariam por conta própria. Mas há riscos. Elizabeth Kaziunas, uma pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Nova York, estuda tecnologia em saúde mental e privacidade. Ela ressaltou que esses aplicativos reuniram e organizaram dados que talvez o cliente não queira reunir.

“Não há garantias nem proteções jurídicas programadas nos aplicativos”, afirmou Elizabeth. “Esses dados de saúde mental podem ser comprados ou vendidos.” Por exemplo, um diagnóstico de ansiedade pode elevar os preços de um seguro de vida, disse ela. “É meio assustador se pensamos nisso a fundo, não?”, afirmou ela.

‘Medo existencial’

Os investidores que financiam startups de terapia veem uma verdadeira legião de funcionários de empresas de tecnologia que há muito tempo fundiram seu sentido de amor próprio ao seu trabalho, e agora estão emocionalmente à deriva quando a indústria se encontra sob ataque.

“Uma coisa é estar se matando de trabalhar por uma empresa grande de tecnologia na qual você acredita. Assim que você começa a questionar as motivações da empresa, isso pode tornar menos gratificantes as oito horas diárias que você passa no trabalho”, afirmou Michael Seibel, diretor executivo da Y Combinator, fundo de investimento em startups que também presta serviços de consultoria.

Outros sentem ansiedade ou até mesmo desespero em relação ao meio ambiente, à democracia ou apenas pelo desgaste cotidiano do trabalho e das fofocas. “No Vale do Silício”, acrescentou Seibel, “não falávamos tanto de saúde há três anos”.  Ele estima que mais de 50 startups do tipo estão entrando em cena.

Sua firma acaba de financiar três delas: Stoic, um novo aplicativo de monitoramento de saúde mental; Quirk, um aplicativo que utiliza terapia comportamental cognitiva para tratar pessoas com ansiedade e depressão; e Mindset Health, que cria aplicativos de terapia de hipnose que, segundo a empresa, seriam capazes de tratar ansiedade, depressão e síndrome do intestino irritável.

A Mindset Health foi fundada por dois irmãos, Alex e Chris Naoumidis, que criaram anteriormente um aplicativo de compartilhamento de vestidos para mulheres com base no modelo peer-to-peer. Quando esse aplicativo faliu, os irmãos foram sobrepujados pela ansiedade. “Caímos nesse período de problemas de saúde mental”, afirmou Alex Naoumidis, de 24 anos.

Vários terapeutas tradicionais e coaches de vida pessoal da região de São Francisco afirmaram que houve uma notável mudança entre seus clientes. Há dois anos, afirmaram eles, os clientes apareciam principalmente por causa de problemas pessoais, mas agora eles estão relatando ansiedades a respeito de tendências globais, como mudanças climáticas e a ascensão de ditaduras.

“Tenho notado um aumento no número de pessoas ligadas a empresas de tecnologia que se sentem mais desesperançadas. Com frequência, elas dizem: ‘Acho que meu trabalho não está ajudando ninguém’”, afirmou Krista Regedanz, psicóloga de Palo Alto, Califórnia. “Vejo muitas pessoas que querem mudar o mundo e compartilhar boas energias chegando aqui dizendo: ‘Sei lá. O que eu faço importa?’.”

No ano passado, May Bartlett, uma coach de vida, abriu a startup Global Impact Coaching para responder questões a respeito de como o trabalho das pessoas pode ajudar ou prejudicar o mundo. “Eles chegam dizendo: ‘Sinto como se estivesse à deriva nesse vasto universo, sozinho, sem propósito’”, afirmou May. “E há muito desse medo existencial.”

Ela desenvolveu seu programa para clientes que se sentem sobrecarregados. Eles despertam para clicar em alertas a respeito de ações imorais na fronteira, seguidos por alertas a respeito de espécies em extinção, depois alertas a respeito de pessoas impedidas de votar. Não sabem ao certo se devem deixar seus empregos. “Um dos elementos mais nocivos é ter consciência de toda essa informação, não saber o que fazer com ela e se sentir impotente”, afirmou May. “É difícil se sentir bem todos os dias quando as coisas parecem estar piorando.”

O fluxo de informação a respeito do mundo demanda uma empatia constante. May afirmou que frequentemente faz seus clientes pensarem a respeito de si mesmos, seus trabalhos e seus erros em relação à “vastidão da história”. “Sim, as más notícias estão proliferando atualmente, e o mundo está terrível, mas se olharmos para os 13 bilhões de anos da existência, percebemos: OK, isso é apenas um instante”, disse ela. “Houve outros tempos de caos e destruição.”

‘Um grande renascimento’

Trabalhadores do setor de tecnologia estão começando a ser mais abertos em relação à saúde mental em sua própria indústria. Justin Kan, executivo-chefe da Atrium, uma empresa especializada em legislação de tecnologia, se abriu no ano passado a respeito de suas lutas pessoais e dos prazeres da terapia. Ele descobriu que se sentiu melhor quando parou de consumir tanta informação nova.

“Algo que me ajudou foi deletar todos os aplicativos de notícias do meu celular”, afirmou Kan. “E isso melhorou meu humor.” O Existential-Humanistic Institute, fundado em 1997, é um coletivo de terapeutas e filósofos que tem trabalhado com clientes em conflito não somente com assuntos ordinários, mas também com seu próprio propósito na Terra. O interesse na abordagem deles pareceu aumentar muito após a ascensão de Donald Trump.

“É um grande renascimento”, afirmou o líder da organização, Kirk Schneider, que citou a tecnologia em si como uma das razões para o ambiente de caos emocional. Mas ele afirmou que os clientes também estão sofrendo em razão de forças sociais mais amplas - um medo de que a desigualdade leve a revoluções violentas, um pânico a respeito do autoritarismo global, uma sensação de que eles não estão contribuindo para o bem comum. “O objetivo é abandonar a sensação de terror abjeto e paralisia”, afirmou Schneider, “e migrar para uma sensação de fascínio e, finalmente, maravilhamento”.

Novos clientes querem ajuda para se desconectar. Amy Eliza Wong, executiva e coach de vida em São Francisco que atende a um constante fluxo de trabalhadores do setor de tecnologia, afirmou que a maioria deles a procura querendo se desligar das manchetes que induzem ao desespero e voltar ao trabalho.

Movimento da positividade tecnológica

É claro que não se pode afirmar que toda a região esteja implodindo mentalmente. Os habitantes de São Francisco ainda vão trabalhar e leem as notícias. As grandes empresas de tecnologia ainda atraem ambiciosos jovens candidatos. O Google não está se dissolvendo. Há até um movimento contrário, rechaçando a autorreflexão excessiva e o autoflagelo causado pelas notícias. Seus líderes argumentam que o bom e velho otimismo tem funcionado perfeitamente, e que o Vale do Silício tem de seguir em frente.

Seus adeptos ser encontrados unidos em torno da ensolarada militância no empreendimento capitalista chamado Twitter. Lá, os pais-fundadores dessa indústria enviam um fluxo constante de startups-clichê. Esse é o movimento da positividade tecnológica. “Otimismo, ambição e recrutamento. Será que essa receita funcionará também para a sua startup?”, publicou no Twitter um dos cofundadores da Y Combinator, John Graham, em agosto. “Sim.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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