Glenn Harvey via The New York Times
Glenn Harvey via The New York Times

Tecnologia traz temores de 'turismo insustentável'

Críticos consideram que Airbnb, Uber e outras empresas com foco em turistas são uma ameaça à personalidade de cidades históricas

Farhad Manjoo, The New York Times

14 Setembro 2018 | 15h00

A cada verão, os destinos mais populares da Europa são tomados por turistas, em número muito maior que os moradores locais, transformando esses lugares em cidades "disneyficadas" repletas de gente suada empunhando bastões de selfie.

Recentemente, a Europa foi tomada pelo temor do "turismo insustentável", e os críticos estão culpando tecnologias como Airbnb, Uber e outras conveniências da internet voltadas para turistas como origem dessa ameaça.

Do ponto de vista global, graças a um enriquecimento maior, o turismo está se tornando um passatempo compartilhado mais amplamente. As viagens internacionais tiveram alta de 6% na primeira metade do ano, superando a previsão dos especialistas, de acordo com a Organização Mundial do Turismo, das Nações Unidas.

Anteriormente, um crescimento como esse seria considerado boa notícia. Mas os destinos mais populares não podem se expandir para acomodar uma enxurrada infinita de visitantes. Aqueles que defendem a limitação do turismo dizem que o excesso de visitantes está mudando a personalidade de cidades históricas e tornando as viagens insuportáveis.

"Trata-se de um nível de turismo que degrada o prazer dos moradores, mas que também afeta negativamente as vivências dos turistas, pois o viajante que está numa fila atrás de centenas de outros turistas não está descobrindo a atmosfera autêntica de um lugar", disse Justin Francis, diretor-executivo da Responsible Travel, empresa que organiza viagens de "turismo sustentável" para seus clientes.

Ao longo das últimas décadas, as inovações da aviação - jatos maiores e mais eficientes, além da ascensão das empresas aéreas de baixo custo - reduziram o preço das passagens. Cruzeiros maiores agora levam verdadeiras cidades flutuantes aos portos (motivo pelo qual Veneza os proibiu recentemente). E há também os muitos esplendores possibilitados pela internet, como o agendamento online, resenhas de estabelecimentos, mapeamento por smartphone, aplicativos de corridas de carro e compartilhamento de lares.

Finalmente, temos a influência das redes sociais.

"Não se pode comentar o turismo insustentável sem mencionar Instagram e Facebook. Acredito que sejam os principais fatores que impulsionam essa tendência", disse Francis. "Setenta e cinco anos atrás, o turismo era uma busca por vivências. Agora, tornou-se uma questão de usar a fotografia e as redes sociais para construir uma marca pessoal. Num certo sentido, para muitas pessoas, as fotos tiradas numa viagem se tornam mais importantes que as experiências em si".

Administrar um destino turístico é um pouco como administrar um recurso natural; um nível sustentável de turismo proporciona ganhos amplos para a economia local, mas o excesso pode arruinar a experiência para todos.

Legisladores europeus identificaram o Airbnb como um dos principais fatores responsáveis pelo turismo insustentável. Em Amsterdã, as autoridades pressionam para limitar o número de noites que os moradores podem alugar seus lares de 60 para 30. Várias outras cidades, incluindo Londres e Barcelona, já instituíram regras rigorosas para o compartilhamento de lares.

As medidas refletem o crescimento explosivo do Airbnb. Em questão de poucos anos, a empresa se tornou uma força importante na economia do turismo de muitas cidades. Em Amsterdã, de acordo com a empresa, o Airbnb foi responsável por 12% de todas as noites de hospedagem em 2017. Em Barcelona, a fatia de mercado do Airbnb foi de 18%. E, em Quioto, no Japão, de 22%.

Mas o Airbnb - que, como o Uber, tem experiência no combate à reação regulatória em todo o mundo - diz não ser uma das causa do turismo insustentável, argumentando que em muitos casos a empresa pode ser uma solução.

Para o Airbnb, a oferta de estadia em outros pontos de uma cidade, evitando apenas os locais mais procurados pelos turistas, poderia ajudar na distribuição das multidões.

"Nossos hóspedes ficam por mais tempo que os típicos hóspedes de hotel, espalhando os ganhos por toda a comunidade e evitando a concentração dos hotéis", disse Chris Lehane, vice-presidente da Airbnb para questões públicas.

É pouco provável que esses desafios sejam corrigidos no longo prazo, pois a tecnologia que os exacerba está sempre em transformação. Um problema recente é a ascensão de uma classe mais profissional de compartilhadores de lares - pessoas que adquirem propriedades para mantê-las alugadas em tempo integral nos sites de compartilhamento de imóveis, frequentemente violando as regras locais.

"No fim, estamos falando simplesmente de um problema de números", disse Jonathan Tourtellot, fundador do Sustainable Stewardship Center, grupo sem fins lucrativos que promove o turismo sustentável. Ele destacou que, em 1960, quando teve início a era dos jatos, cerca de 25 milhões de viagens internacionais foram feitas. No ano passado, esse número foi de 1,3 bilhão.

E quanto às cidades que são mais procuradas pelos turistas? 

"Seu tamanho não é diferente do que era em 1959, e é pouco provável que isso mude", disse ele.

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