Arash Khamooshi para The New York Times
Arash Khamooshi para The New York Times

Teerã proíbe passeios com cachorros em áreas públicas

A medida tem o objetivo de combater a influência ocidental no Irã

Thomas Erdbrink, The New York Times

06 de fevereiro de 2019 | 00h00

TEERÃ - Onde quer que Asal Bahrierad vá, Teddy, seu Shih Tzu, a acompanha. A iraniana de 31 anos até dormiu três noites no seu carro com Teddy, quando visitava sua mãe, que não gosta de cachorros. Mas finalmente ela cedeu e permitiu que Asal voltasse para casa com seu adorado cãozinho. "Agora, minha mãe e eu nem imaginamos viver sem Teddy", disse Asal. "Ninguém, nem a polícia, vai tirá-lo de mim".

Esta última afirmação está sendo tema de debate. Em janeiro, como parte da batalha de 40 anos do Irã contra as influências ocidentais, o chefe de polícia de Teerã, o brigadeiro general Hossein Rahimi, anunciou a proibição de andar em público com cachorros.

No Islã, os cães são considerados impuros. Os cães de guarda são tolerados, mas não é permitido mantê-los como animais de estimação. O problema é que muitos iranianos não concordam. Os cães estão em toda parte em Teerã: os pastores alemães com guias nas alamedas, huskies siberianos brincando na neve no inverno e chihuahuas latindo das janelas abertas dos carros.

O número de cachorros - e gatos, embora estes sejam mais aceitos pelo Islã - está crescendo rapidamente, pelo menos a julgar pela explosão de novas clínicas de pets. Ocasionalmente, as autoridades iranianas exigem medidas para impedir que os cidadãos normalizem a situação dos cães como animais de estimação. Os cachorros "provocam medo e ansiedade" em público, afirmou o general Rahimi à televisão estatal iraniana. Segundo ele, "a polícia adotará medidas contra os proprietários", mas não explicou exatamente quais seriam tais medidas.

"Em termos religiosos, nós não podemos orar onde um cachorro senta ou anda", afirmou em entrevista o político linha-dura Hamidreza Taraghi.

Taraghi disse que as pessoas reclamam cada vez mais por causa dos cachorros. Além disso, o fato de os iranianos possuírem cachorros incentiva as sanções americanas. "Estamos passando por dificuldades econômicas, mas os que amam cachorros gastam anualmente bilhões de dólares com comida de cachorro", ele disse. "Precisamos deste dinheiro para coisas mais importantes".

Caminhar com cachorros em público não é a única atividade proibida para os iranianos. Eles são impedidos também, entre outras coisas, de dançar e tomar bebidas alcoólicas e, no caso das mulheres, de aparecer em público sem o lenço islâmico obrigatório na cabeça. Na realidade, porém, a negociação entre os iranianos e os seus guardiões islâmicos é constante. Por isso, as pessoas dançam e bebem e os lenços na cabeça costumam cair com surpreendente frequência.

As punições podem ser severas: muitas vezes os infratores são multados, e até chicoteados. Não obstante, burlar as normas oficiais se tornou tão frequente, que poucas pessoas o consideram um ato de rebelião.

"Teddy e eu passeamos todo os dias em um parque no bairro de Shahram, e a polícia na realidade tem sido muito amistosa conosco", disse Asal.

Perto do Aeroporto Internacional Imã Khomeini, Hoda Sedghi Shamir, 37, estava alimentando os 23 cachorros que ela abriga. Na maioria, são cães sem dono que ela encontra. Hoda disse que ajuda cachorros machucados quando atiram pedras neles. "Gasto cerca de US$ 600 por mês com os bichos, entre comida, vacinas e treinamento", contou.

Quanto à proibição de caminhar com cães, Hoda encolheu os ombros e disse que isso também vai passar. "Por algum tempo, vamos ficar quietos, depois a lei voltará a ser esquecida", acrescentou.

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