Chris Gunn NASA/The New York Times
Chris Gunn NASA/The New York Times

O telescópio Webb da Nasa está quase pronto, de novo

Depois de décadas de trancos e barrancos, o sucessor de vários bilhões de dólares do telescópio Hubble deve ser lançado no segundo semestre

Dennis Overbye, The New York Times - Life/Style

15 de março de 2021 | 05h00

Criar um novo telescópio espacial requer muito tempo e muito dinheiro e inspiração. Os astrônomos primeiramente começaram a importunar a Nasa, insistindo num sucessor para o Hubble mesmo antes de este telescópio ser lançado em órbita em 1990. Na época, achavam que o projeto custaria menos de US$ 1 bilhão e poderia estar pronto na primeira década do século 21.

Passados trinta anos, uma despesa de US$ 8,8 bilhões, múltiplos contratempos e crises orçamentárias e a ameaça de um cancelamento pelo Congresso, o James Webb Space Telescope parece estar finalmente pronto. A Nasa planeja lançá-lo em órbita o mais cedo em 31 de outubro a bordo do foguete Ariane 5 da Agência Espacial Europeia a partir de um local na Guiana Francesa.

Durante uma reunião da Sociedade Americana de Astronomia, técnicos e engenheiros mostraram o telescópio, esperando que esta seja a última exibição "ainda no chão".

“Na próxima vez, o telescópio estará para além da Lua e aparecerá para nós com um ponto de luz de uma magnitude aproximada de 17 graus.

Completamente montado no espaço reservado a ele na companhia Northrop Grumman em Los Angeles, o telescópio, como foi visto na conferência pelo Zoom, parece um girassol gigante sobre uma prancha de surfe. As pétalas da flor são hexágonos de berílio banhados a ouro 18k, formando um prato de mais de 6 metros de diâmetro. A prancha, sobre a qual ele flutuará eternamente do lado mais distante da lua, é um sanduíche de cinco camadas de um plástico chamado Kapton que servirá de escudo para o telescópio contra o calor e o brilho intenso do sol.

O telescópio, que leva o nome do administrador da Nasa que conduziu a agência espacial até o desenvolvimento do programa Apollo, é quase três vezes maior do que o Hubble e sete vezes mais poderoso em termos de capacidade para distinguir estrelas e galáxias mal perceptíveis às margens do tempo.

Para chegarem ao espaço a bordo do foguete Ariane 5, da Agência Espacial Europeia, o escudo e o espelho do telescópio terão de ser embrulhados e depois desembrulhados a mais de 1,6 milhão de quilômetros no espaço sideral, numa série de 180 manobras no primeiro mês após o lançamento. As etapas desse processo foram ensaiadas muitas vezes nos últimos anos.

Um teste anterior dilacerou o escudo solar, causando novo atraso no projeto.

Os engenheiros acham que agora tudo está correto, mas qualificaram o período de testes e montagem no espaço sideral como seis meses de terror.

A missão do telescópio Webb é explorar o campo da história cósmica que era inacessível para o Hubble. Cerca de 150 milhões a um bilhão de anos depois que o tempo começou, as primeiras estrelas e galáxias nasceram e começaram a sair da névoa sombria de gás de hidrogênio que prevalecia no final do Big Bang. Mas não sabemos exatamente como isso ocorreu.

A missão exige que o telescópio esteja sintonizado com um tipo diferente de luz que nossos olhos ou o Hubble não conseguem ver. Devido ao fato de que a expansão do cosmos está acelerando, as primeiras estrelas e galáxias se distanciam de nós muito rápido e sua luz infravermelha muda para comprimentos de onda mais longos, como uma sirene de uma ambulância mudando para um registro mais baixo quando ela acelera.

Assim, a luz azul de uma galáxia em sua infância, irrompendo com novas estrelas brilhantes, é estendida para comprimentos de onda infravermelhos invisíveis à época em que chega até nós, 13 bilhões de anos depois.

Como resultado, o telescópio Webb produzirá cartões postais cósmicos em cores que nenhum olho nu consegue ver. Mas, para detectar essas emanações de calor, o telescópio precisa estar muito frio – menos de 7 graus celsius acima do zero absoluto, para que o seu próprio calor não elimine o calor do espaço sideral. Daí a necessidade do escudo solar, que manterá o telescópio numa sombra glacial.

As emissões infravermelhas também são o ideal para estudar os exoplanetas, mundos que pertencem a outras estrelas. Esse enfoque foi incentivado em 1996 num estudo chave, chamado HST and Beyond Exploration and the Search for Origins: A Vision for Ultraviolet-Optical-Infrared Space Astronomy, redigido por um comitê liderado por Alan Dressler do Carnegie Observatories.

O rejuvenescimento da Astronomia

A busca por vida é o ponto central de um novo documentário sobre o Telescópio WebbA Caça pelo Planeta B, produzido por Nathaniel Kahn e lançado no South by Southwest Festival em março. O filme também documenta uma revolução sociológica na astronomia – ou seja, o fato de que muitos dos líderes no campo dos exoplanetas são mulheres.

É o caso de pesquisadoras como Jill Tarter, do SETI Institute, pioneira na pesquisa de civilizações extraterrestres; Natalie Batalha da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, líder da missão Kepler que está agora planejando as observações do telescópio Webb; Margaret Turnbull, especialista em planetas habitáveis na Universidade de Wisconsin e ex-candidata ao governo desse Estado; e Amy Lo, engenheira da Northrop que atua na área de carros de corrida quando não está trabalhando para fazer com que todas as peças do Webb se encaixem.

“Não importa o que o eu penso”, disse Tarter ao ser entrevistada por Kahn sobre a vida no universo. Especialistas e padres foram removidos da equação. “Não estamos praticando religião aqui, estamos fazendo ciência”.

Kahn foi indicado ao Oscar por seus filmes My Architect, sobre seu pai arquiteto Louis Kahn, e Two Hands: The Leon Fleisher Story, sobre um pianista que perdeu o uso de uma mão por causa de um problema neurológico. Kahn é um astrônomo amador. Ele decidiu fazer um filme sobre a construção do telescópio, mas uma das alegrias da produção de um filme, disse numa entrevista, é que “começamos a fazer um filme sobre o Webb, e as coisas evoluíram naturalmente para uma história muito mais profunda. Neste caso, a emergência das mulheres na vanguarda de astronomia”.

Avançando para o passado

Até agora, 4.332 astrônomos de 44 países, 45 estados americanos, o Distrito de Colúmbia e as Ilhas Virgens apresentaram propostas para a primeira rodada de observações do Webb, de acordo com dados fornecidos por Christine Chen, do Space Telescope Science Institute. Cerca de 31,5% dos pesquisadores são mulheres, o que corrobora estatística recente de que um terço dos doutorandos em astronomia é formado por mulheres.

“Naturalmente, temos uma diversidade inserida nisto”, disse o gerente de projetos do programa Webb numa entrevista pelo Zoom.

“Como cientistas, sabemos que o universo se revela raramente através de dados que condizem com nossos modelos ou teorias; pelo contrário, sabemos que esses dados que vão além das nossas expectativas nos orientam para mais próximo da verdade universal. E assim, do mesmo modo que temos de procurar compreender os dados que são diferentes de nossas noções preconcebidas, para conhecer melhor o universo também temos de buscar diferentes perspectivas quando concebemos e desenvolvemos as missões”.

O lançamento do telescópio Webb será um dos grandes eventos da ciência espacial este ano, juntamente com uma "invasão robótica" a Marte.

Não é uma loucura achar que, se este ritmo continuar, no próximo meio século, talvez saberemos se existe alguma forma de vida no cosmos mais próximo de nós, oculta sob o gelo de uma gigantesca lua planetária, sob uma rocha em Marte ou sufocada em algum pântano extraterrestre. Qualquer vestígio será um passo gigante para compreender todas as razões e explicações das nossas próprias origens. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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