Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

Para Munya Chawawa e seus fãs, comédia é catarse

Lockdown no Reino Unido ajudou a estabelecer Munya Chawawa como uma voz sarcástica para os jovens que, com frequência, não se reconhecem nos comediantes na TV da atualidade

Isabella Kwai, The New York Times - Life/Style

24 de abril de 2021 | 05h00

Ele é um hiperbólico âncora de telejornal com um objetivo político, crítico de Meghan Markle que disputa a vaga de Piers Morgan e aristocrata britânico que afirma ser da classe média - esses são apenas alguns dos personagens no arsenal de Munya Chawawa.

Mas, durante uma entrevista pelo Zoom, concedida em março deste ano diretamente de seu apartamento em Londres, Chawawa, de 28 anos, usava um moletom neon e expunha a própria personalidade. "Faço conteúdo porque preciso expressar como me sinto em relação ao mundo. É preciso ter algum tipo de catarse quando o mundo joga tantas coisas em você. Do contrário, você acaba ficando louco", disse ele sobre sua comédia.

Os esquetes secos de Chawawa sobre racismo, classismo e a vida cotidiana no Reino Unido já tinham público cativo antes da pandemia. Mas, durante o lockdown, sua potente mistura de canto, atuação cômica e rap ajudou a torná-lo a voz sardônica dos jovens progressistas, em um país cada vez mais diversificado, que não se impressiona com o elitismo e é cético em relação ao sistema.

A miséria do Reino Unido em lockdown foi uma bênção para Chawawa, que agora tem mais de meio milhão de seguidores no Instagram e no TikTok. Ele assinou um contrato com a Atlantic Records, e seu personagem âncora de notícias, Barty Crease, aparece em propagandas da Netflix U.K. "Em um ano como esse, o humor foi um remédio muito necessário", afirmou Chawawa. A sequência de sucessos alimentou uma meta ambiciosa: "Estou trabalhando para ser um dos comediantes mais respeitados do país."

Para Chawawa - cujos heróis cômicos são John Oliver, Andy Zaltzman e Sacha Baron Cohen, entre outros -, a sátira parece "um superpoder". Segundo ele, isso não se deve apenas aos desafios da interpretação, mas também à capacidade do comediante de encontrar humor em situações que não deveriam ser engraçadas. "Tudo aquilo que se torna alvo do seu riso já não pode mais assombrar ou machucar tanto quanto costumava fazer."

Dada a situação do mundo hoje, ele tem material de sobra para trabalhar.

Enquanto os críticos diziam que as cestas de alimentos para crianças pobres são muito limitadas, Chawawa fazia um quadro sobre um legislador rico que tentava responder às críticas: "Não podemos alimentar as crianças, mas poderíamos colocá-las em um filme: 'Jogos de Fome Voraz'". Chawawa fez uma paródia dos jornalistas britânicos preparando manchetes sobre a duquesa de Sussex usando o jogo de cartas Cards Against Humanity ("Meghan sequestrou Peppa Pig") e interpretou um segurança que deixa os manifestantes entrar no Capitólio, nos EUA, ao saber que eram brancos: "Vocês já estão com o ingresso! Ele se chama privilégio branco."

Entre todos os seus personagens e suas criações, Chawawa é mais conhecido por Unknown P, rapper insuportavelmente presunçoso de Surrey, que usa um boné da Burberry e canta sobre sonegação de impostos, fundos fiduciários e outras coisas das quais Chawawa imagina que os bilionários falem atrás de portas fechadas.

 

O personagem nasceu do desejo de expor a hipocrisia do classismo e da apropriação cultural em meio a um debate público no Reino Unido sobre o drill - subgênero do hip-hop que as autoridades britânicas tentaram censurar, afirmando que ele seria responsável pelo aumento dos crimes com faca em Londres.

Para muitos jovens negros, o drill é uma importante forma de expressão, segundo Chawawa, dando voz às frustrações e realidades da vida em um período de austeridade. Chawawa contou que ficou incomodado com a apropriação do gênero, com "garotos brancos e ricos cantando as letras", à medida que o gênero chegava às escolas particulares.

Nascido em Derby, na Inglaterra, Chawawa passou a infância no Zimbábue, terra natal de seu pai, antes de sua família se mudar para um vilarejo nos arredores de Norwich, na Inglaterra. Seu primeiro contato com a comédia foi por meio do avô, cujas piadas na mesa de jantar o tornavam o centro das atenções.

Na Inglaterra, pertencendo a uma das poucas famílias negras da região, Chawawa reprimiu sua extroversão natural, que era incentivada no Zimbábue. "Lentamente, parei de levantar minha mão", contou.

Na faculdade, estudou psicologia, mas passava o tempo todo na rádio estudantil. Também trabalhou como garçom em um restaurante sofisticado em Norwich, onde os clientes às vezes elogiavam seu inglês. Lá, obteve informações úteis sobre os hábitos dos ultrarricos. Quando se mudou para Londres, percebeu que esse mundo poderia ser uma mina de ouro para a comédia.

Começou a postar esquetes on-line enquanto trabalhava como produtor para o canal de TV 4Music, esperando que seu perfil ganhasse destaque suficiente para ser escalado para a TV. Contudo, à medida que seus esquetes viralizavam, um depois do outro, Chawawa descobriu que, em vez de tentar impressionar os guardiões da indústria, ele poderia contorná-los completamente. "Você pode viralizar em um dia e, depois disso, todo mundo sabe quem você é. Para mim, é libertador combater o status quo", disse ele, acrescentando que muitos jovens no Reino Unido não se viam representados pelos comediantes na tela da TV.

Chawawa rejeita as críticas de que satirizar temas sérios como o racismo e a pandemia os banaliza. O avô que inspirou sua carreira morreu de uma doença terminal durante a pandemia, e os protestos do Black Lives Matter, no ano passado, deixaram-no com uma dor emocional que nunca havia experimentado. "Mal conseguia pegar o telefone. Eu me sentia deprimido o tempo todo."

Mas ele segue o ditado de que, em tempos difíceis, você pode chorar ou rir - e gostaria de fazer as pessoas rir. "Para mim, é melhor acrescentar humor ao mundo neste momento do que adicionar mais razões para estar deprimido."

Apesar de encontrar muitos lugares e pessoas para criticar no mundo, Chawawa afirmou que não quer se tornar um cínico - aquele cara que vive reclamando no supermercado sobre como a vida é difícil. Em vez disso, está otimista em relação ao próprio futuro e o futuro que os jovens britânicos estão construindo. "A geração mais velha talvez pense que estamos todos dançando no TikTok - o que às vezes é verdade", admitiu. Chawawa, porém, acredita que sua comédia atende a uma necessidade dos jovens, que procuram artistas profundamente conscientes das desigualdades do mundo. "Assim que os herdeiros endinheirados começarem a sair de cena, tenho esperanças muito positivas em relação à participação de uma nova geração na política do Reino Unido", concluiu.

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