Ivor Prickett para The New York Times
Ivor Prickett para The New York Times

Temido clérigo iraquiano é visto como rosto da reforma

A bancada política de Moqtada al-Sadr venceu as eleições com uma campanha de combate à corrupção

Margaret Coker, The New York Times

25 Maio 2018 | 10h00

BAGDÁ - Os iraquianos ainda são assombrados por lembranças de esquadrões da morte vestidos de preto que vagavam pelos bairros de Bagdá dez anos atrás, varrendo os sunitas da cidade enquanto o país era dilacerado pela violência sectária.

Muitos dos assassinatos em massa cometidos na capital foram em nome de Moqtada al-Sadr, um clérigo lembrado pelos sermões inflamados, declarando ser o dever sagrado de seus zelosos colegas xiitas atacar as forças dos Estados Unidos.

A milícia liderada por ele foi armada com equipamento fornecido pelo Irã, e cultivou uma aliança com as lideranças em Teerã, ansiosas para desempenhar um papel na definição do futuro do Iraque.

Agora, Sadr retornou como surpreendente vencedor das eleições realizadas este mês, depois de reinventar-se numa campanha populista de combate à corrupção cuja mensagem do “Iraque em primeiro lugar” atraiu eleitores de ambas as seitas muçulmanas. A bancada dele conquistou 54 assentos, formando o maior grupo, mas ainda insuficiente para compor uma maioria no parlamento iraquiano, de 329 assentos.

Antes mesmo do resultado da eleição ser anunciado, Sadr, que não se candidatou e excluiu a possibilidade de ocupar o cargo de primeiro-ministro, deixou claro quem ele conta entre seus aliados políticos. No topo da lista está o primeiro-ministro Haider al-Abadi, o líder xiita moderado que tem sido parceiro dos EUA na luta conta o Estado Islâmico e cuja bancada política teve o terceiro melhor resultado da eleição.

Fora da lista de Sadr estão as bancadas pró-iranianas, pois ele se afastou de seus antigos patrocinadores do outro lado da fronteira, cuja interferência ele passou a ver como uma força que desestabiliza a política iraquiana.

Como líder da Aliança Sairoon pela Reforma, ele preside uma improvável coalizão que reúne sua religiosa base xiita de classe trabalhadora com líderes empresariais sunitas, liberais e iraquianos em busca de algum alívio para a crise econômica do país.

No final do ano passado, o clérigo começou a se aproximar de grupos de fora de sua base com uma oferta para a formação de um novo movimento político, e os esquerdistas e secularistas do país, que já foram inimigos do religioso xiita, tiveram um acerto de contas.

Eles se lembraram de como um tribunal renegado criado por ele para aplicar a Sharia aprovou sentenças contra outros xiitas considerados demasiadamente submissos à ocupação americana do Iraque. E lembraram dos incontáveis iraquianos mortos nas batalhas entre as forças de segurança do país e a milícia de Sadr. Mas um grupo de comunistas, social-democratas e anarquistas passaram a aceitar Sadr como símbolo de uma reforma que eles defendem há anos.

“Quero ser transparente: tínhamos muitas apreensões e suspeitas”, disse Raad Fahmi, líder do Partido Comunista, que integra a aliança de Sadr. “Mas as ações falam mais alto que as palavras. Ele não é o mesmo Moqtada al-Sadr.”

A mudança em Sadr foi motivada pela crise política e de segurança que teve início quando o Estado Islâmico assumiu o controle de grandes partes do norte e oeste do Iraque em 2014, de acordo com o porta-voz de Sadr, xeque Saleh al-Obeidi. A violência que se seguiu levou a uma mudança no clima do país: teve-se a sensação que o sectarismo estava na raiz de boa parte do sofrimento no país.

Antes das eleições, Sadr disse que seu objetivo era instalar profissionais nos cargos de comando, e não figuras politicamente leais, como forma de reforçar as instituições nacionais que servem ao povo, e não os operadores dos bastidores da política. “Tentamos o caminho dos islamistas, e eles fracassaram miseravelmente", disse ele, uma crítica que, de acordo com seus assessores, é dirigida também ao próprio movimento.

Sadr, 45 anos, também refinou sua política externa colocando o “Iraque em primeiro lugar". Ele expandiu seu foco antiamericano para incluir também críticas contra o Irã. Também criou elos com os aliados americanos no mundo árabe, como o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita.

Mas muitos iraquianos não estão convencidos que este novo posicionamento veio para ficar. Desde a eleição, vários importantes rivais políticos da Sairoon criticaram Sadr em caráter privado, citando o longo histórico de violência de sua milícia. Em geral, a população sunita ainda desconfia de Sadr. 

Mas muitos sunitas votaram na bancada de Abadi, de modo que um governo de coalizão incluindo ambos os lados representaria um passo importante na superação das divisões sectárias no país.

“Qual é o problema de Moqtada al-Sadr ser agora o representante das reformas?” disse Fahmi, um dos líderes do Partido Comunista. “Que diferença faz, desde que as reformas ocorram? Ele é um homem capaz de motivar milhões.”

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