Chris Gash/The New York Times
Chris Gash/The New York Times

Temperatura pode afetar de maneira diferente produtividade de homens e mulheres

Estudo sugere que a fórmula utilizada para determinar temperaturas no local de trabalho, desenvolvida anos atrás com base no conforto de homens, pode superestimar a produção de calor do corpo feminino

Veronique Greenwood, The New York Times

17 de junho de 2019 | 06h00

É uma verdade universalmente aceita (alô, Jane Austen! É a frase de abertura de ‘Orgulho e preconceito’) - ou pelo menos muito discutida na mídia social - que uma mulher que trabalha em um escritório precisa de um agasalho. O ar condicionado dos escritórios costuma ser regulado a uma temperatura que as mulheres acham gélida; consequentemente, com a discussão sobre o bebedouro gelado, o debate foi chamado de “batalha do termostato”. Um estudo chegou a sugerir que, como as mulheres têm taxas metabólicas mais lentas, a fórmula utilizada para determinar as temperaturas no local de trabalho, desenvolvida dezenas de anos atrás com base no conforto dos homens, pode superestimar a produção de calor do corpo feminino em 35%.

Entretanto, uma pergunta ainda não suficientemente formulada é se a temperatura afeta de maneira diferente a produtividades de homens e mulheres. Em um estudo publicado em maio na revista PLOS One, os pesquisadores informaram que, a temperaturas mais baixas, os homens receberam notas mais altas do que as mulheres em provas orais e de matemática. Mas à medida que o ambiente se tornou menos frio, as notas das mulheres subiram consideravelmente. 

As conclusões exigem uma confirmação a fim de levar em conta várias condições. Mas contribuem para o repensamento científico dos espaços em que trabalhamos e estudamos, que, às vezes, foram projetados tendo em mente um conjunto limitado de exigências físicas.

Os pesquisadores pediram a mais de 500 universitários que realizassem provas de uma hora de duração em salas com temperaturas entre 16 e 32 graus Celsius. Os estudantes resolveram o máximo possível de problemas matemáticos (sem a ajuda de uma calculadora), e formaram o máximo de palavras possível utilizando um conjunto de letras sem limite de tempo. Também  tiveram de solucionar complexos problemas de lógica.

A temperatura não afetou as notas quando foram considerados em grupo. Mas a decomposição dos dados entre sujeitos masculinos e femininos mostrou um padrão bastante nítido. As notas dos problemas lógicos não variaram com a mudança de temperatura, mas variaram as notas das provas orais e as de matemática. “Se as temperaturas são baixas, os homens se saem melhor do que as mulheres”, comparou Agne Kajackaite, pesquisadora da economia do comportamento do Centro de Ciências Sociais WZB Berlin na Alemanha, e autora do estudo “Portanto, existe de fato um hiato de gênero”. E acrescentou: “Mas quando a temperatura sobe, o hiato de gênero desaparece” na prova de matemática, e as mulheres superam os homens nas provas orais.

Para cada elevação de um grau, as notas de matemática das mulheres subiram 1,76%. Poderá parecer uma diferença pequena, contudo representa um aumento. “Isto é, o desempenho das mulheres cresceu 27%” com um aumento de temperatura de cerca de 6 graus, calculou Kajackaite.

Acaso as conclusões implicam que existe uma temperatura ideal na qual a capacidade de homens e mulheres é mais ou menos igual? Seria uma considerável ilação a partir de um estudo que expôs pessoas  a estas temperaturas por apenas uma hora, acrescentou. “Você não tem muito tempo para se aborrecer".

Em geral, permanecemos nos nossos locais de trabalho ou nas salas de aula por períodos maiores do que isto, e os resultados podem se modificar no decorrer de várias horas ou em um dia inteiro, questão com a qual estudos futuros terão de se defrontar. 

Os pesquisadores observaram um detalhe interessante nos resultados matemáticos: à medida que as temperaturas subiram, as notas das mulheres se elevaram, não apenas porque a sua porcentagem melhorava, mas porque elas aumentavam o número de problemas que procuravam resolver. Por quê? “As mulheres se sentem melhor a uma temperatura mais amena, por isso podem exercer um esforço maior”, especulou Kajackaite. “Em um dia favorável, você tentará mais. Em um dia menos favorável, tentará menos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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