Kassie Bracken para The New York Times
Kassie Bracken para The New York Times

Temporada interminável da fome

País mais jovem do mundo, Sudão do Sul enfrenta aumento de desnutrição e desabastecimento

Megan Specia e Kassie Bracken, The New York Times

10 Junho 2018 | 10h30

JUBA, SUDÃO DO SUL - A temporada da fome começou cedo este ano.

Já em fevereiro, antes visto como período de fartura, Nyabolli Chok ficou sem comida para os três filhos no vilarejo onde moram aqui no Sudão do Sul. Eles sabiam que tinham de partir. 

“Estávamos comendo as folhas das árvores", contou ela, descrevendo como as cozinhou numa sopa rala. “Ron reath", disse ela - as palavras significam “temporada da fome". As dúzias de grupos étnicos do Sudão do Sul usam diferentes nomes para os meses em que a comida se torna escassa até a próxima colheita. Mas os temores são os mesmos: desnutrição, doença, até mesmo a morte. E a expectativa é que este ano seja o pior de todos.

Mais de quatro anos de guerra civil (a maior parte da existência deste jovem país) expulsaram milhões de suas casas, deixando incontáveis fazendas abandonadas. A economia foi arrasada. Os combates tomaram conta das terras mais produtivas do país. O preço dos alimentos é altíssimo e inacessível.

Mesmo durante a época da colheita, em janeiro, quando a comida é mais abundante, mais de cinco milhões de pessoas (quase metade da população) não tinha nada para comer. Agora, com a comida se esgotando nos próximos cinco meses, representantes de agências internacionais esperam que esse número aumente muito, com milhões de pessoas expostas à desnutrição aguda.

A colheita deste ano foi a pior já registrada desde que o Sudão do Sul obteve a independência do Sudão em 2011, com o país produzindo apenas uma fração daquilo que necessita, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos. 

Além disso, as negociações de paz não avançam e os acordos de cessar-fogo são geralmente ignorados, o que significa que os combates isolaram algumas áreas do acesso dos serviços de emergência. 

Funcionários de agências humanitárias foram atacados por forças do governo e combatentes rebeldes, dificultando cada vez mais a distribuição de alimentos.

Mesmo aqui, na capital, geralmente imune à crise de alimento, muitas famílias consideram impossível pagar os altos preços exigidos pelos mercados da cidade, e suas opções estão desaparecendo conforme a moeda entra em colapso.

Famílias de todo o país procuram clínicas para crianças desnutridas, deixando de lado as divisões políticas e étnicas que retalharam este jovem país. Algumas mães vêm de áreas leais ao governo. Outras têm maridos, irmãos e filhos que combatem ao lado dos rebeldes.

Dúzias de mulheres jazem do lado de fora, com os filhos enrolados em cobertores. Os sinais da desnutrição são claros: barrigas inchadas e membros emaciados. Pele enrugada pendendo dos pequenos ossos. Corpos cobertos por feridas abertas, o doloroso resultado dos edemas que rompem a pele.

Cecilia Kideen lutava para alimentar a filha de 9 meses, Sarah. Ela não produz leite materno em quantidade suficiente, pois mal consegue fazer uma refeição por dia. “As mães", disse ela, “estão sofrendo muito".

O Sudão do Sul, país mais novo do mundo, nasceu de uma enorme pressão internacional para acabar com décadas de conflito entre o norte e o sul do território que pertencia ao então Sudão. Mas, passados apenas dois anos, o novo país estava em guerra.

Em dezembro de 2013, uma disputa entre forças leais ao presidente Salva Kiir e ao vice-presidente Riek Machar logo descambou num conflito que dividiu o país, matou dezenas de milhares de pessoas e dizimou aquele que já era um dos países menos desenvolvidos do mundo.

“Há poucas populações que estão escapando dos impactos da fome", disse Elizabeth White, assessora de políticas da Oxfam para o Sudão do Sul. “Mas todos os caminhos conduzem novamente ao conflito e à falta de segurança.”

As negociações entre o governo e líderes da oposição foram adiadas. Mas, mesmo que a paz seja alcançada, a crise da fome permanece.

A guerra civil no Sudão do Sul deu início à maior crise de refugiados na África desde o Genocídio de Ruanda, de acordo com as Nações Unidas. Mais de dois milhões de pessoas deixaram o país, afetando a produção de alimentos. Outros dois milhões foram obrigados a deixar seus lares e permanecem espalhados pelo país, deixando atrás de si cidades-fantasma e campos abandonados.

Todos os dias, na fronteira sul do país, dúzias de refugiados cruzam uma ponte estreita que leva a Uganda, trazendo consigo histórias de fome. 

Mary Yar, 20 anos, chegou com o filho de 1 ano num pequeno centro de recepção do lado ugandense. No local, os refugiados passam por uma triagem de desnutrição. “Não há comida lá", disse Mary a respeito do seu vilarejo natal, apontando para a ponte que leva ao Sudão do Sul.

Durante o auge da temporada de fome do ano passado, os sul-sudaneses chegavam aos milhares, disse Geoffrey Chandiga, funcionário dos serviços de auxílio à criança.

Ele controla a conta dos recém chegados numa lousa, destacando que os funcionários estão se preparando para uma alta no movimento nos próximos meses.

Dois anos atrás, a guerra do Sudão do Sul chegou à partes do sul do país que há muito eram responsáveis por produzir boa parte da alimentação. As pessoas fugiram pela fronteira com Uganda. A maioria ainda não voltou. 

Quando forças de paz das Nações Unidas visitaram a região no início de 2017, elas viram vilarejos inteiros incendiados.

Sob o forte sol do meio da manhã na capital, Elizabeth Kenyi e o marido, Johnson Ali, colhiam legumes do seu jardim ao longo do Nilo Branco, afluente do Nilo. Por duas décadas, eles venderam abóbora, pimentas e tomates num mercado próximo.

Mas, mesmo com a farta colheita deste ano, eles têm cada vez mais dificuldade para alimentar as sete pessoas da família. “O dinheiro que ganhamos com a colheita é inútil", disse Ali.

Ainda que a produção deles tenha um preço mais alto do que no ano passado, o preço dos grãos básicos que eles compram, como milho e sorgo, estão aumentando rapidamente. 

A moeda do Sudão do Sul está em queda livre e a hiperinflação deixou todos num aperto. Antes da guerra, um dólar americano valia cerca de cinco libras sul-sudanesas. Já em março, um dólar valia cerca de 220 libras.

O impacto foi devastador. Um relatório do Programa Mundial de Alimentos de 2017 determinou que o preço relativo de uma refeição no Sudão do Sul estava entre os mais altos do mundo. 

Foi revelado que os habitantes locais teriam que gastar em média 155% de sua renda diária num único prato de cozido de feijão. Em outros termos, uma refeição que custaria apenas US$ 1,20 em Nova York, custaria em Juba o equivalente a US$ 321,70.

Com a agricultura em frangalhos, o auxilio de emergência está mantendo viva uma parcela cada vez maior do país. 

Já no início de 2018, metade da população do Sudão do Sul dependia de auxílio alimentar, de acordo com as Nações Unidas, e o percentual vai aumentar conforme a temporada da fome atingir seu auge nas próximas semanas.

Mas fazer esse auxílio chegar às pessoas é outro problema. A temporada das chuvas também começa nesses meses de penúria, transformando muitas entradas em rios de lama intransponíveis. 

Além disso, pelo menos 100 funcionários de agências humanitárias foram mortos aqui desde o início do conflito, sendo 30 somente nos 12 meses mais recentes, atacados por grupos de guerreiros que acreditam que o trabalho deles auxilia seus inimigos.

Mesmo dentro dos campos protegidos criados em todo o país pelas Nações Unidas, não há alimento suficiente para todos.

Nyabolli Chok, que fervia folhas para dar aos filhos, está há um mês numa área protegida de Juba. Os campos surgiram em 2013 quando minorias étnicas com medo da violência das forças do governo e seus partidários, fugiram para a base da missão de paz das Nações Unidas. Muitos ficaram, e os campos foram se transformando em cidades improvisadas cercadas por arame farpado.

A ONU oferece alimento para os moradores registrados do campo, mas milhares de moradores não têm status oficial, dependendo dos vizinhos para obter comida. A ração é simplesmente insuficiente.

Os funcionários das agências humanitárias dizem que há tanta gente do país se deslocando (com grandes números deixando os locais onde eclode a violência) que a maioria dos recém chegados ao campo de Nyabolli não é registrada há mais de um ano. Isso significa que ela e incontáveis outros não recebem nada.

Permanecer nos campos é um risco em si. Ataques e abusos sexuais por parte dos funcionários do campo foram amplamente relatados. Vieram à tona outros relatos de mulheres trocando sexo por comida. Mas deixar o campo é correr um risco ainda maior.

Tafisa Nyattie, 30 anos, que vive num campo daqui desde 2013, tem seis filhos. A ração designada a ela está sempre se esgotando, o que a obriga a deixar o campo para coletar lenha, na esperança de ganhar dinheiro o suficiente para comprar leite e sabão para lavar as roupas das crianças.

Ela caminha até três horas em cada direção, enfrentando a ameaça das forças do governo antes de voltar para casa com uma grande talha sobre a cabeça.

“Eles podem nos estuprar ou espancar, e às vezes até nos matar”, disse Tafisa, enumerando os perigos, já amplamente documentados, que as mulheres no conflito enfrentam. “Soldados do governo tentaram me estuprar.”

Ela disse que, num outro dia, foi espancada e teve a perna gravemente ferida. Mas, quando viu como os filhos estavam com fome, não teve escolha a não ser sair para buscar lenha novamente. “Eu simplesmente saio, sem saber se voltarei para as crianças no fim do dia", disse Tafisa.

A clínica de desnutrição oferece uma assustadora amostra do que a temporada de fome deste ano pode trazer.

A ala hospitalar, geralmente escura por causa do fornecimento intermitente de eletricidade, trata diariamente cerca de doze crianças a mais do que no mesmo período do ano anterior. Elas chegam do país inteiro para serem pesadas e medidas, recebendo antibióticos e uma solução láctea antes de começarem a alimentação com Plumpy’Nut, uma pasta nutritiva feita à base de amendoim, se os seus corpos forem capazes de digeri-la.

Muitas das famílias encontradas aqui não são nem mesmo vítimas dos horrores que expulsaram milhões de suas casas. Alguns têm empregos, planos de carreira e famílias de quem podem depender, mas ainda assim seus filhos estão com fome.

Selwa Anania, que trabalha num restaurante de Juba, trouxe para a clínica o filho de 2 anos, Taban Zacharia. O baixo salário dela rende pouco no mercado. Na maioria dos dias, é suficiente apenas para uma única porção de mingau.

Sylvia George, 27 anos, abanava o filho, Mandela Bisa, 2 anos, que jazia semiconsciente numa cama, ligado a um canal intravenoso. O pai da criança é um estudante da Universidade de Juba, e os três moram com a mãe de Sylvia, de quem eles dependem para se alimentar. Nunca há o suficiente.

Por enquanto, com o auge da temporada da fome a semanas de distância, a clínica administra a constante chegada de pacientes, disse Josephin Ruben, a nutricionista-chefe, esse semestre.

Mas, ansiosa, ela destacou que “não haverá comida o bastante” durante o verão.

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