Ivor Prickett / The New York Times
Ivor Prickett / The New York Times

Amputada aos três anos e campeã de tênis de mesa aos 14

Najla Lafta foi vítima de ataque da Al Qaeda na infância; ela é uma entre o número cada vez maior de esportistas que competem após perderem membros

Alissa J. Rubin, The New York Times

10 de agosto de 2019 | 06h00

BAQUBA, IRAQUE - A adolescente iraquiana não parece uma atleta tradicional: sua perna direita foi amputada à altura da coxa, a esquerda, no joelho, e seu braço direito acaba no bíceps. Mas quando Najla Imad Lafta, de 14 anos, joga tênis de mesa, seu torso adquire a flexibilidade do corpo de uma bailarina para alcançar a bola. Ela acaba de levar para casa a sua quarta medalha de bronze e a quarta de prata ganhas em um torneio esportivo internacional para deficientes físicos realizado no Egito, em junho.

“Na quarta série, me dei conta de que eu era diferente das outras meninas”, diz Najla na casa da família em Baquba, capital de uma província  do Iraque. “Eu via na escola minhas amigas correndo, andando, brincando e  fazendo planos para o futuro”, rememora. Najla tinha 3 anos quando uma bomba que havia sido plantada no carro do seu pai explodiu. O ataque, de autoria da Al-Qaeda, visava seu pai porque ele trabalhava com soldados americanos na base militar local. A menina é uma entre o número cada vez maior de esportistas iraquianos que competem em esportes de alto nível, depois de perderem os membros.

Desde 2003, houve um aumento de aproximadamente 70%  do número de iraquianos que participam dos Jogos Paralímpicos com deficiências causadas por atos terroristas, segundo Mohammed Abbas al-Salami do Comitê Paraolímpico Iraquiano.

Após o ataque, o pai a levou correndo para o hospital. “Quando percebi que havia perdido as pernas e os braços chorei sem parar e fiquei furiosa porque sabia que havia perdido tudo”, relembra. Foi a depressão que levou Najla ao tênis de mesa. Há cinco anos, entristecida por não poder correr como as colegas na escola, ela comprou uma raquete de pingue-pongue para ter alguma coisa para fazer depois de terminar as tarefas de escola.

Lafta, o pai, pediu a um amigo que era técnico de  tênis de mesa  e treinava a equipe Paralímpica do Iraque que fizesse uma visita à filha e lhe desse algumas aulas. Najla lembra do dia em que Hossam Hussein al-Bayat foi à sua casa. “Ele me disse: ‘Quero que você pegue a raquete e comece a treinar todos os dias’”.

Ela começou a trabalhar as suas jogadas. Uma vez por semana ele a levava para a sua casa para treinar, e a ensinou até que ela ficou pronta para competir com jogadores deficientes de outras províncias. A menina tinha apenas 12 anos quando conquistou um lugar na equipe paraolímpica do país.

O segredo do seu sucesso, afirmou, foi não olhar para as outras jogadoras - o tênis de mesa é um esporte em que os jogadores usam truques psicológicos contra os adversários. “Eu dizia a mim mesma: ‘Concentre-se apenas na bola, concentre-se apenas em você mesma, se eu olhar para ela, vou ficar com medo’”, afirma, referindo-se à sua adversária.

A adolescente, que tem sete irmãos, treina de duas a três horas por dia em casa, em uma mesa de pingue-pongue comprada pelos pais. “Para ser honesta, nada se compara a ter pernas e braços, mas pelo menos estou feliz com o que consegui”, anima-se. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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