Michel Euler/Associated Press
Michel Euler/Associated Press

Tenista Naomi Osaka pode ter de escolher entre Japão e EUA

Com mãe japonesa e pai americano, a atleta deve decidir por uma entre as duas cidadanias em seu aniversário de 22 anos, conforme lei do Japão

Motoko Rich, The New York Times

13 de junho de 2019 | 06h00

TÓQUIO - Se alguém é capaz de estimular o orgulho nacional japonês nesse momento, esse alguém é Naomi Osaka. Tenista que lidera o ranking feminino desse esporte, Naomi está entre as maiores estrelas do Japão. Mas a aproximação de uma data fatídica, o 22.º aniversário da atleta, em outubro, traz a dúvida quanto à possibilidade de Naomi seguir representando o Japão no circuito internacional do tênis.

Naomi, cuja mãe é japonesa e o pai, americano de origem haitiana, tem cidadania no Japão e nos Estados Unidos. De acordo com a lei japonesa, os indivíduos com dupla cidadania devem escolher entre uma das nacionalidades quando completam 22 anos. Naomi nasceu no Japão, mas viveu nos EUA desde a infância. “Me parece que a resposta é óbvia", disse Naomi em coletiva de imprensa após o Aberto da China, em outubro. “Estou jogando pelo Japão. Não quero ser desrespeitosa nem nada, mas não entendo de onde vem a ideia segundo a qual essa seria uma escolha difícil para mim”.

Na realidade, talvez ela nem tenha de escolher. Especialistas em direito dizem que o governo japonês raramente obriga os cidadãos a escolher entre uma das suas duas nacionalidades, e jamais foi revogada a cidadania japonesa de alguém que a recebeu ao nascer. Mas alguns analistas alertam que o governo teria dificuldade em permitir que Naomi mantenha a dupla cidadania.

“Acredito que, para o governo, seria um grande problema se ela seguir usando abertamente dois passaportes", afirmou Sachiko Horiguchi, professor-assistente de antropologia do campus da Universidade Temple em Tóquio. “Isso significaria que o público teria consciência de que a lei não vale”.

O passado multicultural de Naomi tem desafiado as noções de identidade nacional no Japão, país onde apenas uma em cada 50 crianças nascidas por ano tem pai ou mãe estrangeiros. Quando era menina, os pais dela decidiram que ela e a irmã, também jogadora, representariam o Japão, em parte porque a federação americana de tênis prestava pouca atenção nelas.

Especialistas em direito dizem que a lei japonesa tem uma brecha pela qual os cidadãos de dupla nacionalidade podem reter seu status. A lei exige apenas que um cidadão japonês “se aplique à renúncia” da nacionalidade estrangeira, expressão que pode ser interpretada de modo a permitir que os cidadãos retenham um passaporte adicional. Os japoneses mais novos estão se acostumando à ideia de viver e trabalhar com vizinhos e colegas internacionais.

“Os jovens na casa dos 20 anos estão agora muito mais acostumados com os estrangeiros, ou os chamados ‘hafu’”, disse Satoko Takeda, pesquisador visitante da Universidade de Economia e Direito de Osaka, usando o termo japonês, derivado da palavra half (metade), descrevendo os mestiços como Naomi. “São diferentes das gerações anteriores. Acho que há esperança”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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