Alexei Druzhinin/Agence France-Presse
Alexei Druzhinin/Agence France-Presse

Tensões entre Rússia e Ucrânia criam cisma no cristianismo

Líderes ortodoxos orientais estão buscando independência em relação a Moscou

Neil MacFarquhar, The New York Times

11 Outubro 2018 | 06h00

MOSCOU - Vyacheslav Gorshkov, que ensina catecismo em uma catedral de Kiev, estava entre a maioria dos cristãos ortodoxos da Ucrânia que se reconciliaram com o fato de que sua igreja responde ao patriarca russo ortodoxo em Moscou. Não está mais. Gorshkov não quer romper com sua fé, mas quer se separar da Igreja Ortodoxa Russa, enfurecido pelo que ele entende como o uso da igreja por parte do Kremlin como um instrumento de seu antigo poder imperial.

Ele está entre a maioria dos fiéis que esperava que o patriarca ecumênico Bartholomeu I, líder espiritual dos estimados 300 milhões de ortodoxos orientais do mundo, desafiaria a Rússia e concederia independência - conhecida como "autocefalia" - à Igreja Ortodoxa da Ucraniana.

"Adquirir autocefalia é parte do processo de sair da órbita imperial de Moscou", afirmou Gorshkov, um especialista em estudos religiosos.

Se ele e outros ucranianos já divergiram em relação a dividir a igreja, o silêncio da hierarquia religiosa em Moscou enquanto ucranianos morriam em uma guerra provocada pela Rússia foi, para muitos, inaceitável. "A política da igreja de Moscou, ao longo das últimas centenas de anos, não foi de maneira nenhuma independente, ela dependeu amplamente do Estado", afirmou Gorshkov.

Isso foi verdadeiro especialmente na Rússia de Vladimir V. Putin, que manobrou diligentemente em anos recentes para reavivar a ideia de que Moscou deveria ser a capital de todos os cristãos ortodoxos orientais, fazendo da igreja russa efetivamente uma extensão de seus esforços para restaurar o status de superpotência de seu país.

A igreja ucraniana esteve prestes a se separar, ameaçando o projeto imperial de Putin, em uma consequência direta e indesejada da invasão russa à Ucrânia.

"Diga adeus à igreja do império", afirmou Serguei Chapnin, um estudioso de religião e frequente crítico da igreja.

Raivosos, os russos estavam ameaçando romper totalmente com a igreja-mãe, provocando possivelmente o que alguns estão chamando de o maior cisma na cristandade desde a divisão entre leste e oeste em 1054. A igreja russa argumenta que Bartolomeu, cuja base fica em Istambul, não tem direito de retirar a Igreja Ortodoxa Ucraniana da órbita do patriarcado de Moscou sem seu consentimento.

Bartolomeu, porém, é considerado "o primeiro entre os iguais", com o direito de criar novos ramos da igreja.

Intrigas e disputas doutrinárias dentro da Igreja Ortodoxa Oriental se desenrolam frequentemente ao longo de décadas, se não séculos. Ao contrário da Igreja Católica Romana, que tem no papa um único e incontestável líder, todos os 14 ramos do braço oriental do cristianismo desfrutam de significante soberania.

A briga atual envolve diferentes interpretações do grau de supervisão originalmente conferido ao patriarcado de Moscou, em 1686, sobre a igreja ucraniana. No mês passado, Moscou deu o primeiro passo na direção da ruptura, ao suspender contato com Constantinopla e retirar o nome de Bartolomeu de seus serviços religiosos.

"É evidente que nós, da igreja russa, não reconheceremos esta autocefalia, e não teremos alternativa a não ser cortar os laços com Constantinopla”, disse na TV estatal o Metropolita Hilarión de Volokolamsk, chefe de relações exteriores da igreja russa.

Ambos os lados têm muita coisa em jogo. Muitos na Igreja Ortodoxa Oriental estão fartos do que eles chamam de arrogância russa e da atitude excessivamente nacionalista de clérigos sob a batuta do Kremlin. Mas um cisma na Rússia deixaria a Igreja Ortodoxa Oriental mais fraca e mais pobre.

A igreja russa, que afirma ter 150 milhões de seguidores, também sofreria, perdendo entre 30% e 40% de seus mais ardentes adeptos. Uma igreja menor também minaria o esforço de Moscou de se autoproclamar a Terceira Roma, após a perda de Roma no cisma original e, depois, Constantinopla (atualmente Istambul) para os otomanos muçulmanos em 1453. Talvez mais importante, isso conteria a tentativa de Putin de retratar seu governo como uma reencarnação do antigo império tsarista.

Moscou não controla mais pedaços do império como Ucrânia e Bielo-Rússia, mas o domínio da Igreja Ortodoxa Russa tem dado suporte para a alegação de Putin de que eles ainda são um único povo, uma única igreja e uma única cultura. Todos eles pertenciam ao “Mundo Russo”- um conceito apregoado tanto pelo Kremlin quanto pelo patriarca Kirill I, o líder da Igreja Ortodoxa Russa.

Conferir independência à igreja ucraniana romperia uma ligação imperial significativa com a Ucrânia e pode inspirar outras igrejas a buscar independência também.  / Sophia Kishkovsky, Niki Kitsantonis e Iuliia Mendel colaboraram com a reportagem.

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