Oscar Tarazona e Martin Cohn/Universidade da Florida
Oscar Tarazona e Martin Cohn/Universidade da Florida

Tentáculos de lulas são muito semelhantes aos nossos membros

Estudo mostra que as semelhanças são consideráveis: os membros do animal e os dos seres humanos evoluem sob a supervisão dos mesmos genes

Carl Zimmer, The New York Times

27 de julho de 2019 | 06h00

A lula e seus parentes, os polvos, frequentemente impressionam os observadores como verdadeiros aliens flutuantes com membros cobertos de ventosas - apêndices desprovidos de ossos que se contorcem, aparentemente sem ter nada em comum com os nossos braços e pernas. Mas um novo estudo, publicado em junho pela revista eLife, mostra que as semelhanças são consideráveis. Os membros da lula e os dos seres humanos evoluem sob a supervisão dos mesmos genes.

Lulas e polvos são cefalópodes, um grupo que evoluiu há mais de 400 milhões de anos de um ancestral molusco. O polvo tem oito membros, mas estes não são tentáculos - são braços. Um tentáculo tem ventosas somente na sua terminação com o formato de almofada. As lulas têm braços e tentáculos. Os tentáculos e os braços dos cefalópodes não têm ossos; são construídos a partir de uma intrincada tapeçaria de fibras musculares que se contorcem.

Martin Cohn, biólogo da evolução da Universidade da Flórida e coautor de novo estudo, dedicou-se à análise da evolução dos membros dos cefalópodes. Há alguns anos, ele se colocou esta questão estudando a evolução da lula a partir dos ovos.

Oscar Tarazona, estudante de pós-graduação que trabalhava com o Cohn, colocou ovos de lula em uma placa de Petri repleta de nutrientes, e os cientistas observaram os embriões criarem forma e membros. No início do seu desenvolvimento, um conjunto de genes se torna ativo em cada membro. Alguns genes são ativos nas células próximas do corpo da lula, mas menos na ponta. Alguns são ativos de um lado de um membro, mas não do outro.

Estes genes aparentemente organizam o membro em desenvolvimento, dizendo a cada célula qual deve ser a sua localização. Esta informação pode fazer com que as células evoluam em tecidos próprios para a sua posição no membro. Normalmente, os tentáculos só criam ventosas de um lado das suas almofadas. Quando os cientistas introduziram no outro lado uma substância química que interferia com um gene, as lulas passaram a criar ventosas do lado errado.“As células precisam interpretar onde se encontram”, explicou Cohn. “Estes sinais estão dizendo às células: ‘Vocês ficam perto do fim deste apêndice; estão mais longe da borda; ou estão no meio’”.

Os vertebrados também produzem sinais nos membros em desenvolvimento que dizem às células onde elas estão. E são os mesmos genes que trabalham nas lulas. Nos anos 90, pesquisadores descobriram que as moscas usam estes genes para construir os seus membros. Eles especularam que moscas e vertebrados herdaram os genes de um ancestral comum.

Agora, Cohn e outros descobriram esta rede genética ativa em animais distantes dos vertebrados ou dos insetos. É possível que o ancestral comum da lula, das moscas e dos seres humanos tivesse algum tipo de membros. Posteriormente, as linhagens evoluíram cada qual com diferenças profundas.

No caso dos membros, as moscas e outros insetos são tão diferentes dos cefalópodes quanto de nós humanos. Mas sempre que um novo membro foi evoluindo, aparentemente os animais não precisaram de uma nova maneira de dizer às células onde elas deviam se localizar no seu interior. O programa genético usado pela evolução foi o mesmo. “Estamos assistindo a algo que vem de muito longe no tempo”, lembrou Cohn. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

Tudo o que sabemos sobre:
genéticaPolvoBiologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.