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John Smith/The New York Times
John Smith/The New York Times
Richard Schiffman, The New York Times - Life/Style

23 de maio de 2021 | 05h00

“Concentre-se no som do instrumento”, disse Andrew Rossetti, terapeuta musical licenciado, e acrescentou, enquanto dedilhava as cordas hipnóticas de uma guitarra clássica de estilo espanhol. “Feche os olhos. Pense em um lugar onde você se sinta seguro e confortável”.

Musicoterapia era a última coisa que Julia Justo, artista gráfica argentina que imigrou para os Estados Unidos, esperava encontrar quando foi à Clínica Mount Sinai Beth Israel Union Square em busca de tratamento para um câncer em 2016. Mas isso rapidamente acalmou os temores a respeito da radioterapia à qual iria se submeter, e que eram a causa de sua profunda ansiedade. “Eu senti imediatamente a diferença, e me senti muito mais relaxada”, afirmou.

Julia, que se livrou do câncer há mais de quatro anos, continuou indo ao hospital semanalmente, antes da chegada da pandemia, para trabalhar com Rossetti e os seus suaves riffs de guitarra e exercícios de visualização, que a ajudaram a enfrentar os constantes desafios, como por exemplo, ter uma boa noite de sono.

Hoje, eles se mantêm em contato principalmente por e-mail. O poder de cura da música – elogiado por filósofos de Aristóteles e Pitágoras a Pete Seeger – vem sendo confirmado pelas pesquisas médicas. Ela é usada em tratamentos específicos de asma, autismo, depressão e em distúrbios do cérebro, doença de ParkinsonAlzheimer, epilepsia e derrame. A música ao vivo já entrou em ambientes surpreendentes, como salas de espera da oncologia para acalmar os pacientes que aguardam as sessões de radio e quimioterapia.

Também dá as boas-vindas aos recém-nascidos em algumas UTIs neonatais, e conforta os que estão morrendo em asilos. As terapias musicais raramente constituem tratamentos independentes; elas estão sendo usadas cada vez mais como complementos de outras formas de tratamento médico. Elas ajudam as pessoas a enfrentar o estresse e mobilizam a própria capacidade do organismo de se curar.

“Os pacientes dos hospitais sempre recebem cuidados”, disse Rossetti. “Com a musicoterapia, estamos dando a eles recursos que poderão usar para se autorregularem, para se sentirem seguros e mais calmos. Nós estamos fazendo com que eles participem ativamente do seu próprio tratamento”.

Rossetti continuou a tocar música ao vivo para os pacientes inclusive durante a pandemia do coronavírus. Ele diz que constatou aumentos de casos de ansiedade aguda desde o começo da pandemia, o que torna as intervenções musicais pelo menos mais impactantes ainda do que eram antes da crise.

O Mount Sinai também ampliou recentemente o seu programa de musicoterapia e agora inclui o trabalho com a equipe médica: muitos médicos sofrem de estresse pós traumático por cuidarem meses a fio de pacientes de covid; suas atuações ao vivo são oferecidas durante o horário do almoço.

Não se trata apenas de um estímulo para o humor. Pesquisas cada vez mais numerosas sugerem que a música tocada em um ambiente terapêutico produz benefícios mensuráveis para a saúde.

“As pessoas que se submetem a uma terapia, aparentemente, passam a necessitar menos de remédios contra a ansiedade e, às vezes, surpreendentemente deixam de procurá-los”, disse Jerry T. Liu, professor assistente de radiação em oncologia na Escola de Medicina Icahn no Mount Sinai.

Uma revisão de 400 trabalhos feita por Daniel J. Levitin na Universidade McGill em 2013 concluiu que “ouvir música foi mais eficaz do que os medicamentos de prescrição para a redução da ansiedade antes de uma cirurgia”.

“A música leva os pacientes a um lugar íntimo familiar a eles. Ela relaxa sem produzir efeitos colaterais”, afirmou Manjeet Chadha, diretor de radiologia na oncologia no Mount Sinai Downtown, em Nova York.

Também pode contribuir para as pessoas lidarem com fobias pré-existentes. Rossetti lembra de uma paciente que ficou soterrada nos escombros do Marco Zero, no dia 11 de setembro. A mulher, que anos mais tarde veio a ser tratada de câncer da mama, tinha verdadeiro terror pelo equipamento de segurança termoplástico colocado sobre o seu peito durante a radiação porque a fazia lembrar da sensação de estar presa.

“A terapia musical diária ajudou-a a processar o trauma e o seu enorme medo da claustrofobia, e a concluir com sucesso o tratamento”, contou Rossetti.

Alguns hospitais adotaram programas pré-gravados que os pacientes podem ouvir com os fones. No Mount Sinai Beth Israel, a música em geral é tocada ao vivo com uma variedade de instrumentos como tímpanos, pianos e flautas, enquanto os músicos tomam o cuidado de manter o distanciamento social indicado. “Nós modificamos o que tocamos de acordo com a respiração e o batimento cardíaco do paciente”, disse Joanne Loewy, fundadora e diretora do Centro Louis Armstrong para Música & Medicina.

“O nosso objetivo é ancorar a pessoa, manter sua mente conectada ao corpo, enquanto ela se submete a estes difíceis tratamentos”.

Loewy foi o pioneiro no emprego de técnicas que usam vários instrumentos como um Gato Box, que simula os ritmos do batimento cardíaco da mãe, e um Ocean Disc, que imita os sons no ventre com a finalidade de ajudar os prematuros e seus pais a relaxar enquanto permanecem nos ambientes ruidosos das unidades de terapia intensiva.

Dave Bosanquet, cirurgião vascular do Royal Gwent Hospital de Newport, País de Gales, afirma que a música se tornou muito mais comum nas salas de cirurgia na Inglaterra nos últimos anos com a difusão dos alto-falantes bluetooth. A música pré-gravada não só ajuda os pacientes cirúrgicos a relaxar, ele afirma, mas ajuda também os cirurgiões a se concentrarem em sua tarefa.

Ele recomenda música clássica, por “evocar a vigilância mental” e por não ter letras que possam distrair a atenção, mas aconselha que seja “tocada somente durante procedimentos de estresse baixo a médio” e não durante operações complexas, que demandam uma concentração muito maior.

A música também está sendo utilizada com sucesso para ajudar a recuperação depois de cirurgias. Um estudo publicado na revista The Lancet em 2015 informava que a música reduziu a dor e a ansiedade pós operatórias e também a necessidade de medicamentos contra a ansiedade.

Curiosamente, os pesquisadores também constataram que a música é eficiente mesmo quando os pacientes tomaram anestesia geral. Nada disso surpreende Efie Elkan, uma harpista de 75 anos que afirma que são poucos os lugares no sistema de saúde que não se beneficiariam da adição da música. Na primeira vez que ela tocou o seu instrumento em um hospital foi para seu marido, quando ele estava em coma depois de ser submetido a uma cirurgia de emergência. “O hospital disse que eu não poderia entrar no quarto com a minha harpa, mas insisti”, ela conta.

Enquanto ela tocava para o marido, os seus sinais vitais, que estavam perigosamente baixos, voltaram ao normal. “O pessoal do hospital escancarou as portas e disse: ‘Você precisa tocar para todos’”.

Efie levou as instruções a sério. Depois de procurar por dois anos um hospital que a pagasse pelo programa, o Robert Wood Johnson Hospital de Hamilton, Nova Jersey, assinou um contrato permitindo que ela montasse uma escola de música no próprio local e tocasse para pacientes em todos os estágios de sua hospitalização.

Efie e seus alunos tocaram para mais de cem mil pacientes em 11 hospitais que os hospedaram desde que a sua organização, a Bedside Harp, foi fundada em 2002. Desde os primeiros meses da pandemia, os harpistas tocam para os pacientes na entrada do hospital e fazem sessões terapêuticas especiais para o pessoal fora do hospital.

Para alguns pacientes, ser recebidos na porta do hospital por uma música etérea de harpa pode ser uma experiência chocante. Recentemente, uma mulher com cerca de 75 anos perguntou irritada para o motorista ao sair da van o que era aquela mescla de músicas familiares como Beauty and the Beast e Over the Rainbow tocadas por uma harpista, Susan Rosenstein. “É o trabalho dela”, respondeu o motorista, “pôr um sorriso no rosto da senhora”.

Embora Efie Elkan afirme que é difícil avaliar o impacto cientificamente - “como atribuir um número ao valor de uma pessoa que sorri e que não sorria havia seis meses?”- estudos sugerem que a terapia da harpa acalma o estresse e deixa à vontade pacientes e funcionários do hospital. Elkan destaca imediatamente que ela não faz musicoterapia, porque os que a praticam precisam completar um curso de cinco anos de estudo no qual são treinados em psicologia e aspectos da medicina.

“Os terapeutas musicais têm objetivos clínicos específicos”, ela disse. “Nós trabalhamos intuitivamente – não temos outro objetivo senão acalmar, relaxar e dar esperança às pessoas”. “Quando chegamos a uma unidade, lembramos às pessoas que expirem,” falou. “Todo mundo prende a respiração, principalmente na Emergência e na UTI. Nós procuramos reduzir o nível de estresse em vários decibéis”.

A harpa de Efie pode fazer mais do que apenas acalmar as emoções, diz Ted Taylor, que dirige a assistência pastoral no hospital. Ela pode oferecer conforto espiritual a pessoas que se encontram em um momento particularmente vulnerável de suas vidas. “Há algo misterioso que não podemos quantificar”, disse Taylor, que é quaker. “Eu a chamo de remédio da alma. A sua harpa toca aquele ponto profundo do nosso íntimo que nos conecta a todos enquanto seres humanos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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