Adam Ferguson The New York Times
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Terapia psicodélica atrai veteranos para retiros na selva

Ayahuasca, uma bebida alucinógena que induz ao vômito, atrai milhares de pessoas a cada ano - incluindo ex-soldados

Ernesto Londoño e Adam Ferguson, The New York Times - Life/Style

12 de setembro de 2020 | 05h00

GIGANTE, COSTA RICA - Havia algo um tanto fantasmagórico em Rudy Gonsior, ex-membro das Forças Especiais norte-americanas, na manhã em que ele chegou a um retiro na selva para ver se uma poção psicodélica e indutora de vômito poderia consertar os estragos que anos de combate haviam feito em seu mente.

Meio retraído e com os olhos vidrados, ele mal erguia a voz acima de um mero sussurro e estava muito mais quieto do que os outros seis veteranos que vinham trazer à tona memórias dolorosas de pensamentos suicidas, companheiros caídos em batalha e a cicatriz que tirar vidas deixa na psique.

“Viajei continentes inteiros para vir até a selva tomar uns psicodélicos”, maravilhou-se Gonsior, que passara a vida toda longe das drogas. Eles vieram para o oeste da Costa Rica experimentar a ayahuasca, uma substância que os povos da floresta amazônica vêm bebendo  há séculos. Algumas comunidades indígenas consideram a bebida, que contém o alucinógeno DMT, um poderoso medicamento que os mantém espiritualmente resilientes e em harmonia com o mundo natural.

A pousada que os americanos visitaram no final do ano passado estava bem longe de tudo isto: tinha uma piscina cintilante e um amplo deck que ancorava chalés bem equipados, com vistas esplêndidas para o mar. Cobrando de US$ 3.050 a US$ 7.075 por pessoa para retiros de uma semana, a pousada está entre os mais novos e mais caros empreendimentos do próspero setor da cura alternativa.

Até relativamente pouco tempo atrás, apenas alguns botânicos, hippies e pessoas em busca de experiências espirituais tinham acesso ao mundo do xamanismo amazônico, que os missionários levaram à clandestinidade durante a colonização de grande parte da bacia amazônica, numa tentativa de converter grupos indígenas ao cristianismo.

Mas, agora, milhares de pessoas de todo o mundo fazem peregrinações todos os anos aos mais de 140 centros de retiro de ayahuasca em países latino-americanos onde o uso da substância em ambientes cerimoniais é legal ou, como na Costa Rica, não explicitamente proibido.

Além das cerimônias psicodélicas, que muitas vezes são física e emocionalmente extenuantes, os organizadores do retiro oferecem sessões de terapia em grupo, aulas de ioga, terapia de arte, círculos de meditação e banhos de florais quentes. Em conjunto, esses centros se tornaram um mercado de saúde mental não licenciado e não regulamentado para pessoas que buscam uma alternativa aos antidepressivos e outros produtos farmacêuticos vastamente prescritos.

O fascínio dos psicodélicos explodiu em meio a um crescente corpo de pesquisas científicas que se baseiam em estudos promissores feitos nos Estados Unidos e na Europa nas décadas de 1960 e 1970. Muitas dessas pesquisas anteriores se encerraram quando as substâncias psicoativas foram proibidas durante a era da Guerra do Vietnã – uma resposta às preocupações quanto ao uso generalizado de drogas nos campi universitários.

Mas, nos últimos anos, a Food and Drug Administration (FDA) caracterizou como “terapias revolucionárias” a psilocibina, componente psicodélico dos chamados cogumelos mágicos, e o MDMA, droga conhecida como ecstasy. Essa rara designação permite que os cientistas acelerem estudos maiores, os quais podem abrir o caminho para a administração de psicodélicos como medicamentos.

Beber ayahuasca pode ser perigoso, especialmente durante o uso de certos medicamentos, como antidepressivos e remédios para hipertensão. Também pode desencadear episódios psicóticos em pessoas com problemas de saúde mental graves, como a esquizofrenia.

E, embora alguns retiros tenham regras e protocolos rígidos, desenvolvidos a partir de consultas com profissionais de saúde, o boom da ayahuasca muitas vezes é explorado por golpistas e charlatões, com suspeitas de casos de agressão sexual contra participantes vulneráveis ou deficientes, incluindo alguns casos no Peru.

“Temos que reconhecer que tem uma coisa meio Velho Oeste” nesses retiros de ayahuasca, disse Matthew Johnson, professor de psiquiatria e ciências comportamentais da Universidade Johns Hopkins que estuda psicodélicos desde 2004. Num ambiente controlado, disse ele, liberar o cérebro pode ajudar os pacientes a revisitar os traumas reprimidos e gerar novos insights. Portanto, a comunidade médica, até então profundamente cética em relação ao potencial terapêutico dos psicodélicos, agora está abraçando “o que é, essencialmente, uma nova área da medicina”, acrescentou.

Mas Johnson teme que retiros psicodélicos em geral possam estar mal equipados para identificar pessoas para as quais as viagens podem ser perigosas. Em casos extremos, algumas pessoas tentaram cometer suicídio sob o efeito de psicodélicos ou experimentaram episódios psicóticos que exigiram hospitalização.

“São ferramentas muito, muito poderosas e podem colocar as pessoas numa situação muito vulnerável”, disse Johnson. “Não é uma coisa que possa ser subestimada”. Ainda assim, o crescente burburinho em torno da cura psicodélica assistida, que foi amplificado por autores, celebridades e anfitriões de podcast influentes, colocou lugares como o Soltara Healing Center, onde foram os veteranos, na vanguarda de um esforço para desafiar os cuidados de saúde mental convencionais.

Melissa Stangl, uma das fundadoras do Soltara, argumentou que a administração responsável dos centros de ayahuasca pode ser a semente de uma transformação. “Estamos prestes a trazer medicamentos psicoativos para o sistema de saúde convencional”, disse ela. “Assim que a ciência realmente descobrir quão eficazes essas substâncias são para as pessoas que não estão sendo atendidas pelo sistema médico atual, podemos nos tornar aliados”.

Antes da primeira cerimônia de ayahuasca, cada um dos veteranos teve uma conversa individual com dois maestros, ou curandeiros, da comunidade Shipibo, no Peru. “O coração deles está endurecido”, disse Teobaldo Ochavano, que ajuda a dirigir as cerimônias noturnas ao lado da esposa, Marina Sinti. “Parecem incapazes de sentir amor ou alegria”.

“Um culto à morte”

Como muitos militares de sua geração, Gonsior disse que se alistou no Corpo de Fuzileiros Navais para vingar os ataques de 11 de setembro de 2001, que aconteceram quando ele estava no ensino médio. Em 2006, contou, ele foi enviado ao oeste do Iraque para a primeira de várias missões de combate. Ele e seus homens eram constantemente emboscados com poderosas bombas à beira das estradas e alvejados por franco-atiradores, disse ele. Dezessete militares com quem ele serviu voltaram para casa dentro de caixões.

A experiência, disse Gonsior, transformou-o num guerreiro implacável. “Meu único objetivo era sobreviver”, disse ele. “Fiz muitas coisas das quais não me orgulho nem um pouco”. Em vez de alívio por sobreviver, ele sentiu uma esmagadora sensação de vergonha. “Foi só por pura sorte que eu não levei um tiro e não fui explodido”, disse ele. “Até pelas estatísticas, eu já deveria estar morto ou pelo menos gravemente ferido”.

Em 2007, disse Gonsior, ele se juntou às Forças Especiais do Exército, onde serviu como franco-atirador. A mudança o deixou com a sensação de ter aderido a um “culto à morte”, disse ele. “Nos últimos dezessete anos da minha vida, meu trabalho de uma forma ou de outra girou em torno da morte”, disse ele. “Quanto mais envelheço, mais pesado fica”.

Matar tornou-se uma tarefa banal. Mas uma vida que ele tirou no Afeganistão, em 2012, assombrou-o por anos. Durante uma operação de rotina, Gonsior abriu fogo contra um homem de motocicleta, acreditando que era um rebelde. Logo depois, Gonsior soube que havia matado uma fonte da inteligência afegã que trabalhava com sua unidade.

Gonsior disse que só se permitiu chorar essa morte de maneira adequada e processar a culpa anos depois, quando foi dominado pela depressão e acessos de raiva que às vezes eram desencadeados por coisas triviais que seus filhos faziam. Pensamentos abstratos sobre suicídio acabaram se tornando assustadoramente concretos, disse ele. No hospital dos veteranos onde ele procurou ajuda, Gonsior, 35 anos, recebeu uma receita de antidepressivos. Ele disse que recusou, por causa dos efeitos colaterais que vira outros soldados sofrerem.

No ano passado, depois de ouvir no rádio uma história sobre traumas e ayahuasca, ele ficou fascinado com a ideia de que, para curar feridas profundas, seria necessário arrancá-las pela raiz. “Tenho muitos destroços emocionais, restos de naufrágios que estão lá embaixo”, disse ele.

No momento em que ele e os outros veteranos entraram na sala escura da cerimônia, com janelas gradeadas e telhado em forma de cone, eles assinaram um longo termo de responsabilidade. O documento alertava sobre a “improvável possibilidade de um episódio psicótico”, o perigo de se ingerir ayahuasca durante tratamento com antidepressivos e o risco de as viagens psicodélicas deixarem algumas pessoas se sentindo pior, “física, mental e emocionalmente”.

Vestidos com roupas tradicionais, os maestros peruanos sopraram a fumaça do tabaco na sala à luz de velas, conhecida como maloca. Os participantes, sentados em camas dispostas num círculo, aproximaram-se para tomar um copo da bebida de ayahuasca, marrom-escura e lamacenta.

Chris Sutherland, soldado canadense de 36 anos que disse que se aposentara poucos anos antes, totalmente incapacitado pelo transtorno de estresse pós-traumático, viera depois de anos de ataques de pânico, bebedeiras e períodos de uso de antidepressivos que o deixaram com a sensação de que “não era mais humano”.

David Radband, ex-soldado das forças especiais britânicas, disse que viera para a selva na esperança de abafar a raiva que vinha consumindo sua vida desde que ele saíra do exército. Ele disse que a raiva lhe custara a guarda dos filhos e o mandara para a prisão por agressão, além das duas tentativas de suicídio, uma por enforcamento e outra com uma facada no estômago.

“Eu estava bloqueando as emoções com raiva”, disse Radband, de 34 anos. “Estava erguendo um muro, o tempo todo”. A sala ficou silenciosa quando apagaram as velas, exceto pelo bater suave das ondas da praia ali perto. Mas o silêncio durou pouco.

Quando a ayahuasca começou a tomar conta dos participantes, os peruanos se puseram a andar lentamente pela sala e a cantar icaros, canções em tom agudo que os Shipibo consideram o ponto crucial do processo de cura. Às vezes, seu ritmo e cadência podem ser calmantes e hipnóticos, como uma canção de ninar. Mas as notas mais agudas e as sequências em ritmo acelerado também podem soar incômodas ou exasperantes.

Quando as cerimônias atingem um crescendo, a sala muitas vezes parece entrar num estado de pandemônio controlado. Sonoros ataques de vômito perfuram o canto. Às vezes, ouve-se choro num lado e risos extáticos no outro. À medida que o amanhecer se aproxima e o efeito da ayahuasca começa a passar, os participantes emergem da sala parecendo macilentos e atordoados, enquanto a mente racional luta para recuperar o controle.

“Essas experiências têm uma maneira de tirar completamente as pessoas de seus sulcos mentais e de lhes mostrar um conjunto mais amplo de possibilidades”, disse Johnson, da Johns Hopkins, uma das várias universidades que vêm conduzindo testes clínicos. Ao contrário dos antidepressivos, que quando eficazes amortecem os sintomas da angústia, os psicodélicos parecem turbinar o tipo de processo de cura que resulta da psicoterapia, acrescentou.

Mas ele e outros especialistas que mencionam a promessa psiquiátrica dos psicodélicos se preocupam com seu uso em retiros ou outros ambientes sem controles adequados. “O risco é não ter suporte médico adequado” nos raros casos em que as pessoas apresentam efeitos adversos graves, disse Collin Reiff, psiquiatra da Universidade de Nova York.

Ainda assim, Jesse Gould, ex-membro do Exército que trouxe os veteranos para o Soltara, diz que os benefícios da experiência de retiro na selva superam os riscos. Gould disse que criou o Heroic Hearts Project [algo como “Projeto Corações Heroicos”], um grupo sem fins lucrativos que arrecada dinheiro para enviar veteranos para retiros psicodélicos, depois de se deparar com um momento difícil de sua vida.

Depois de deixar o exército e viajar um pouco, disse ele, conseguiu um emprego confortável em finanças que o levou a beber muito e o deixou com “uma sensação de pavor diante de tudo”. Quando ele procurou ajuda no Departamento de Assuntos de Veteranos em Tampa, Flórida, onde morava, disse Gould, ele foi encorajado a tomar antidepressivos, alternativa que não o atraiu. Em 2016, ele largou o emprego e reservou um retiro num centro no Peru.

A decisão estava radicalmente fora do script do personagem de Gould, de 33 anos, veterano severo que disse ter evitado as drogas a vida inteira. “Definitivamente, cresci na geração diga-não-às-drogas”, disse ele, referindo-se a uma campanha publicitária antidrogas que começou na década de 1980. “Meu negócio era o basta-dizer-não”.

Suas primeiras cerimônias foram brutais, disse Gould, chamando-as de “uma guerra total” na qual vomitou até vinte vezes numa noite e se sentiu empurrado “para o limite da sanidade”. Mas, nos meses que se seguiram, disse ele, sua depressão abrandou, sua paralisante ansiedade social se dissipou e suas mudanças de humor, que pareciam um “cabo de guerra no cérebro”, cessaram. “Parece que meu cérebro foi reconfigurado”, disse Gould.

Uma “camada de compreensão”

Gonsior, o sniper americano, comparou a experiência a uma “rendição final” que foi exaustiva, mas restauradora. “Você tem um monte de experiências que vão do terror absoluto à pura alegria”, disse ele. “Você percebe que existe uma outra camada de compreensão”.

No último dia, quando Gonsior estava ficando meio poético ao falar sobre o universo e sobre a maneira como todos os seres vivos estão conectados, Gould não resistiu e fez uma pequena provocação. “Dentro de cada veterano tem um hippie”, disse ele. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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