Um grande marco de aniversário: fazer 80 anos!
Jane E. Brody - The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 05h00

Quando uma mulher nos seus 50 anos da minha associação soube que eu estava prestes a completar 80, exclamou: “80 são os novos 60, e você é um grande exemplo para todos nós!”

Pelo menos estou em boa companhia:

- o dr. Anthony Fauci, o guru das doenças infecciosas nos EUA, é cinco meses mais velho do que eu, inteligente, dono de uma mente rápida, mesmo sob o fogo político mais devastador;

- Nancy Pelosi, 81 anos, presidente da Câmara, também se distingue contra uma feroz oposição;

- Anthony Hopkins, 83, vencedor do Oscar em “O Silêncio dos Inocentes”, frequentemente indicado para o prêmio, voltou a ganhar com “Meu Pai”;

- Morgan Freeman, também 83, atua com sua voz distinta que é superada apenas por seu formidável talento. Ele tem quatro filmes e uma série de TV a serem lançados breve;

- Bernie Sanders, ex-candidato à presidência, que fará 80 em setembro, continua uma força que deve ser levada em conta no Senado dos EUA;

- Paul Simon, um mês mais jovem do que Sanders, ganhou 12 Grammys como cantor e compositor em uma carreira que começou há 60 anos. Recentemente, ele vendeu o seu catálogo de composições à Sony por cerca de US$ 250 milhões.

E a lista continua. Como meu falecido marido, que não conseguiu comemorar este feito memorável, teria comentado: “80 - não é um recorde, mas também não é uma média ruim”.

Na realidade, muitos foram bem mais adiante. Todos os dias leio ou ouço falar de pessoas com mais de 90 anos ainda consideravelmente ativas e que continuam produzindo. Basta lembrar do incansável arquiteto Frank Gehry. Aos 92 anos, o seu último projeto é um espetacular edifício no centro de Los Angeles. Recentemente, quando perguntaram em um artigo no jornal The New York Times se ele  pensa em se aposentar, respondeu: “E o que eu faria então? Eu gosto disso”.

Para mim, este é o segredo de uma velhice feliz e vibrante. Lutar quanto for possível para fazer o que a gente ama. Se as vicissitudes da vida ou as enfermidades da idade impedem uma atividade preferida, vamos modificá-la ou substituí-la por outra. Não posso mais patinar, esquiar ou jogar tênis com segurança, mas ainda posso pedalar, fazer caminhadas e nadar. Considero a atividade física diária tão importante quanto comer e dormir. Não aceito desculpas.

E, como podem ver, ainda escrevo, embora muitas vezes leve mais tempo do que costumava. Na minha profissão de colunista especializada em saúde, sou paga para me manter continuamente atualizada e inspirada pela pesquisa e pelas entrevistas que faço para a minha coluna semanal. Elas mantêm a minha mente e espírito vivos. E quando uma palavra ou a sua grafia me fogem, aqui está o Google e meus editores para preencherem os espaços.

O número de americanos que viveram por oito ou mais décadas cresce persistentemente e está projetado para crescer mais depressa do que o de jovens com menos de 18, para pelo menos os próximos 40 anos. Na realidade, enquanto muitos outros como eu nas últimas décadas da vida continuam em plena atividade, a morbidade e a mortalidade não paravam de subir entre homens e mulheres de meia idade, antes mesmo da pandemia. Boa parte dos recém-nascidos de hoje não deverá chegar aos 80, em grande parte em razão da dieta ruim, do exercício escasso e do aumento da obesidade.

Vamos supor que a maioria das pessoas optasse por uma vida longa e gratificante, a natureza permitindo, o que será preciso para isto? O que permite o crescente número de octogenários e além disso, ainda atuantes e produzindo sem parar?

Muitas sugestões apareceram sobre saúde durante as minhas décadas de jornalismo. Eu já mencionei a importância de uma atividade física regular, que favorece um cérebro e um corpo saudáveis. Supondo que você não fume (o fumo foi a desgraça do meu marido), a natureza em geral cuidará muito bem de você por cerca de meio século. Dali em diante, será com você.

Sem um exercício regular, você pode esperar que começará a sentir perda de força muscular e da resistência, da coordenação e equilíbrio, da flexibilidade e mobilidade, da força dos ossos e da função cardiovascular e respiratória. Em outras palavras, um estilo de vida sedentário é uma receita para doenças crônicas e para o declínio.

Mas o exercício e a alimentação não são suficientes. Estudos sugerem que a motivação, a atitude e a perspectiva são igualmente importantes para uma vida longa, saudável e gratificante. Eu ainda estava no colégio quando minha mãe morreu de câncer aos 49 anos, e com a sua perda prematura tornou-se para mim uma lição viver cada dia como se fosse o último, com um olho atento no futuro, caso não fosse.

Ingressei na faculdade com planos de tornar-me bioquímica e descobrir caminhos para a cura do câncer, Mas achei o trabalho em laboratório tedioso e muito isolado, e no meu primeiro ano me dei conta de que o meu verdadeiro amor era aprender o que os outros descobriram e comunicar a informação para o público. Então casei a bioquímica com o jornalismo: segui uma carreira gratificante no jornalismo científico concentrado na saúde pessoal e do público e, como um cavalo com antolho, nunca olhei para trás.

Meu conselho aos estudantes: tentem combinar a sua paixão com o seu talento e terão a melhor oportunidade para uma carreira rica e compensadora. Também recomendo a escolha de um parceiro que os apoie disposto a compartilhar as tarefas comezinhas da vida diária e a ajudar em tarefas adicionais quando for necessário.

Como fui educada a poupar, toda a minha vida comprei em promoções e ofertas e transformei os prêmios em dinheiro em bolsas de estudos para alunos merecedores e em viagens de bicicleta para mim, minha família e amigos.

Tenho arrependimentos? O arrependimento de ter escolhido o francês e não o espanhol no colégio, e continuo tentando aprendê-lo, por ser uma língua muito mais prática, por minha conta. O arrependimento de nunca ter aprendido a leitura dinâmica, tanto para o trabalho quanto para divertimento; leio lentamente como se tudo o que está impresso fosse um complexo texto científico. Embora tenha visitado os sete continentes antes de completar os 50 anos, nunca vi os orangotangos em seu nativo Bornéu ou os gorilas de Ruanda. Mas agora estou feliz por vê-los de perto na televisão.

Se e quando eu me aposentar finalmente, gostaria de trabalhar como voluntária com crianças pequenas. Elas iluminam os meus passos, aquecem o meu coração e enriquecem a minha alma. A sua alegria de viver e a inata curiosidade alimentam a esperança de que o mundo do futuro seja um mundo melhor. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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