Beth Coller/The New York Times
Beth Coller/The New York Times

Construindo a vida através de programas de distribuição gratuita de terras nos EUA

Alguns proprietários sortudos herdaram terras obtidas por meio de atos de propriedade ou reivindicaram propriedades em modernos programas de terras livres

Alyson Krueger, The New York Times - Life/Style

30 de julho de 2020 | 05h00

Muitas famílias com os meios e as possibilidades de abandonar as cidades durante a pandemia de coronavírus seguiram para casas de campo para se protegerem em um espaço mais amplo. Mas um punhado de famílias está querendo levar essa ideia ao extremo, transferindo-se para locais remotos que receberam ou herdaram de antepassados por meio de programas de distribuição gratuita de terras.

Robert e Marne Sheldon, por exemplo, só conseguem chegar de helicóptero ao seu segundo lar, situado em uma região onde são os únicos que têm onde morar: a área que inclui o Parque Nacional Denali, no interior selvagem do Alasca, ainda que tecnicamente as terras da família sejam cercadas pelo parque.

Don Sheldon, pai de Robert Sheldon, reivindicou a propriedade de dois hectares sob a Lei de Terras dos EUA de 1953, seis anos antes de o Alasca se tornar um estado. Ele escolheu um nunatak, uma protuberância de rocha glacial onde construiu uma casa de montanha que alugaria e usaria como base de operações para explorar a Cordilheira do Alasca e realizar missões de resgate. Entre 2015 e 2017, Robert Sheldon construiu um chalé de 185 metros quadrados com janelas que vão do chão ao teto e redes penduradas na lateral do nunatak.

Os Sheldons alugam a propriedade como um refúgio de luxo situado a apenas 15 quilômetros do pico do Monte Denali, a montanha mais alta da América do Norte. Os três filhos do casal, de 23, 21 e 18 anos, estão “treinando técnicas de viagem em geleiras e resgate em avalanche, entre outras", disse Robert Sheldon. “É ótimo ver a próxima geração de Sheldons fazendo as coisas que meu pai vislumbrou.”

Os programas de distribuição gratuita de terras são parte do DNA dos Estados Unidos há séculos, incentivando famílias a ocuparem ambientes mais remotos ou desafiadores. Mas a concessão de terras não é apenas um dado histórico: esse processo segue oferecendo oportunidades para que os americanos vivam em locais impressionantes ou escolham terrenos em áreas ainda desabitadas. Muitos do que escolheram esse rumo se sentem como exploradores, ou celebram a oportunidade de construir lares dos sonhos. Agora, estão descobrindo um benefício inesperado: isolamento e segurança durante uma pandemia.

Em 1905, no Vale de Coachella, no Sul da Califórnia, o incorporador de terras Louis Wilhelm trocou com um dono de terras duas mulas e uma carroça pelo Cânion das Mil Palmeiras. A geração seguinte vendeu suas ações da propriedade para um fundo de preservação, que transformou o terreno na Reserva Natural do Vale de Coachella. Um dos filhos de Louis Wilhelm, Harold Wilhelm, trocou sua parte por 340 em Indio Hills, a poucos quilômetros da reserva.

A neta de Harold Wilhelm, Ronda Reil, é dona de parte da propriedade, que também fica sobre a Falha de San Andreas e é conhecida como Rancho Wilhelm Metate. Ela disse que, em alguns pontos, podemos ver as placas tectônicas se fundindo. “São cânions com fósseis, cânions com placas tectônicas se chocando, cânions que abrigam animais e árvores", disse ela. “Ainda fico impressionada com algumas das coisas que ocorrem na formação das rochas.

Tivemos uma chuva forte e, em um dos cânions mais estreitos, vi cubos retangulares do tamanho de carros despencando.” Ela sabe que essa terra é especial. Mas é também seu lar, um lugar que ela sempre conheceu. “Sei os nomes de tudo, de todas as plantas", disse ela. “Foi o que aprendemos na infância.”

Ela era adolescente quando a família adquiriu o rancho situado sobre a falha geológica, e tem deliciosas memórias de andar de buggy na areia e correr pelos cânions, descobrindo novos lugares. Ainda que não more atualmente no terreno (poderia, mas o calor é difícil de suportar no verão), ela faz caminhadas frequentes e marca reuniões ali com amigos e parentes. Roger Federer filmou ali um comercial de tênis.

Os programas modernos de distribuição gratuita de terras nos EUA dão aos americanos uma oportunidade de escolher os melhores terrenos em áreas ainda desabitadas. Um punhado de cidades nos EUA ainda têm programas de distribuição de terras. Cidades menores com população em declínio, principalmente no Meio-Oeste rural, estão usando esse recurso para atrair novos habitantes e trazer vida nova às comunidades.

No segundo trimestre do ano, Duluth, em Minnesota, designou lotes para que arquitetos criassem soluções inovadoras para o problema da falta de moradias acessíveis. Para essas cidades, os programas de terras gratuitas são uma oportunidade de usar um recurso que elas já têm para incentivar o crescimento econômico.

“Especialmente agora, depois dessa pandemia, os governos municipais estão em profunda dificuldade financeira, e uma das poucas coisas que temos à disposição e controlamos são as terras", disse Jason Hale, do setor de habitação, que supervisiona o planejamento e o desenvolvimento econômico na cidade de Duluth. “Os programas de terras gratuitas são uma oportunidade para aumentar o imposto predial e encher os bairros.”

“É divertido escolher terras", disse Morgan Laine, de 22 anos, gerente-assistente no Walmart, que se mudou para uma casa de quatro quartos que ela e o marido, Brad Laine, construíram em terras gratuitas em Claremont, Minnesota, em meados de março, quando a quarentena do coronavírus estava começando. Ela e Brad Laine, de 26 anos, motorista da FedEx, vivem ali com o filho recém-nascido.

Claremont, no sudeste do estado, tem uma população de 547 habitantes e um posto dos correios, um bar que serve comida, um posto de gasolina e dois parques. “Uma empresa de etanol é a maior da cidade", disse Connor LaPointe, administrador da cidade. “Ela emprega algumas pessoas.” Na tentativa de incentivar o desenvolvimento econômico, Claremont tem 15 terrenos de um décimo de hectare que o governo tenta distribuir desde 2013.

As terras ficam em um empreendimento imobiliário abandonado, e os candidatos devem atender a um requisito de renda mínima, concordando em construir ali um lar permanente no prazo de 18 meses. Osceola, em Iowa, com população de aproximadamente cinco mil habitantes, também está distribuindo terrenos vazios. “As pessoas podem escolher", disse Bill Trickey, diretor executivo da Clarke County Development Corp., gestora do programa de terras gratuitas.

“Há terrenos vazios perto do campo de golfe ou na rua da escola infantil. Distribuímos uma propriedade em um lago ao sul da cidade. Construíram ali um belo lar.” Um dos casais que participaram do programa é formado por Misty e Bryant Schiltz, 30 e 31 anos, respectivamente. Ela trabalha meio período na Allegiant Airlines, e ele instala assoalhos em ambientes comerciais. Têm três filhos, de 9, 8 e 6 anos. Encontraram um terreno na rua da casa dos pais dele e esperam começar as obras logo. Sem a necessidade de pagar pelo terreno, eles podem construir a casa dos sonhos.

“No térreo, teremos a sala de jantar, a sala de estar, cozinha, lavanderia, escritório e quarto do casal", disse Misty Schiltz. “O teto é abobadado, com muito espaço aberto. Teremos áreas de estar que não serão separadas por paredes. Suponho que viveremos aqui para sempre.”

É claro que, quanto mais remoto o terreno, maiores os desafios. Ronda Reil não vive nas terras da família no deserto do Sul da Califórnia, mas o tio tem um chalé ali, para o qual deve trazer a própria água e usar um gerador de eletricidade. Para ajudar a pagar os impostos sobre o terreno, a família arrenda parte dele para a Desert Adventures, que organiza expedições de jipe. Sheldon também enfrenta problemas em suas terras gratuitas no Alasca: “Parece bobagem, mas nosso maior problema é a água. Estamos cercados de gelo, mas precisamos dele em estado líquido, o que consome muita energia”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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