Valdrin Xhemaj/EPA, via Shutterstock
Valdrin Xhemaj/EPA, via Shutterstock

Terremoto expõe a vulnerabilidade dos Bálcãs

Recente sismo ocorrido na Albânia tornou habitações construídas de maneira inadequada ainda mais vulneráveis, colocando em risco milhares de moradores

Marc Santora, Kit Gillet e Joe Orovic, The New York Times

08 de janeiro de 2020 | 06h00

DURRES, ALBÂNIA – Ainda sangrando com um talho na mão coberto de gaze suja, Xhafer Ahmetaj olhava o monte de escombros onde seus amigos ficaram soterrados com o terremoto. Somente um adolescente foi retirado ainda com vida. Oito outros membros da família Lala, inclusive dois bebês, morreram em novembro em um sismo de magnitude 6,4. Ahmetaj, de 70 anos, ex-oficial militar, falou da devastação e abanou a cabeça.

“Se você tivesse visto este lugar quando era ainda um pântano; as pessoas vinham pescar aqui, ninguém nunca imaginaria que fosse possível construir casas aqui”, disse. No entanto, foram construídas – muitas vezes, a construção foi comprometida pela corrupção, em um esquema que se repete em toda a Albânia, pequena nação dos Bálcãs.

O terremoto matou 51 pessoas, deixou ainda centenas de feridos nos hospitais e milhares de famílias desabrigadas. Enquanto os abalos se enfraquecem, a tragédia  permanece como uma dura advertência para uma região que foi devastada por abalos muito mais poderosos no passado e que, segundo especialistas, não está preparada para o próximo grande terremoto.

Em todas as nações dos Bálcãs, no sudeste da Europa, sucessivos governos não se preocuparam em tratar dos riscos a que estas habitações antigas estão sujeitas. Ou chegaram mesmo a encorajar os booms da construção na década de 1990, durante a transição do comunismo para o capitalismo, em que as normas de segurança muitas vezes ficaram em segundo plano diante da atração do dinheiro.

O resultado é que milhões de pessoas vivem em casas que não terão como resistir a um forte terremoto, afirmam os especialistas. O recente sismo ocorrido na Albânia tornou as habitações construídas de maneira inadequada ainda mais vulneráveis, expondo milhares de moradores a possíveis danos futuros.

Sem estrutura

O país não tem um número suficiente de engenheiros para avaliar todos os edifícios que foram danificados, e o custo dos reparos necessários muitas vezes é proibitivo em um dos países mais pobres da Europa.

O primeiro-ministro Edi Rama disse que há uma absoluta necessidade de ajuda internacional. “É humanamente impossível fazermos isto sozinhos”, afirmou. Outros na região aproveitam deste momento para dar o alarme.

Na antiga cidade de Bucarest, a capital romena, círculos vermelhos pintados em centenas de edifícios assinalam que estão em risco maior em caso de atividade sísmica.

Construções podem ruir

Os engenheiros condenaram 349 construções da cidade que poderão ruir na eventualidade de um terremoto maior. Centenas de outras deverão sofrer graves danos estruturais. E estas são apenas as que foram inspecionadas. “Nós só falamos de cerca de 300 edifícios em risco de ruir em Bucarest”, calculou Matei Sumbasacu, fundador da primeira organização não governamental da Romênia, ‘Re-Reerguer’, preocupada em reduzir os riscos sísmicos. “Sabemos que há outros 1.600 edifícios e não sabemos quantos outros existem". “Isto é criminoso”, acrescentou ele. "Estamos falando isto às pessoas que vivem nestas habitações”.

Percorrendo a costa adriática, os resultados dos deslocamentos das placas tectônicas ao longo das eras podem ser vistos na paisagem de montes íngremes que surgem do Mar Adriático.

A paisagem ainda está em formação, o que faz com que um longo trecho da costa balcânica seja suscetível a tremores. “A Terra está tremendo constantemente aqui”, disse o professor Bozidar S. Pavicevic.

Os visitantes de Dubrovnik, na Croácia, foram rapidamente informados de que a tragédia contribuiu para dar forma à cidade depois de um terremoto, em 1667, que quase destruiu totalmente a magnífica cidade murada, enterrando milhares de pessoas e provocando incêndios que arderam por semanas.

Pavicevic, de 86 anos, engenheiro civil, teve o seu “primeiro encontro com a destruição” durante o terremoto de Skopjie, de 1963, que deixou mais de mil mortos e centenas de milhares de pessoas desabrigadas. A tragédia o levou a elaborar o seu estudo ao longo de dezenas de anos e a defender acirradamente que ao construir novos edifícios, infraestrutura e planos urbanísticos é imprescindível levar em conta a atividade sísmica.

Pavicevic teme que os Bálcãs tenham ignorado sua própria história sísmica e as lições deixadas por ela. “Precisamos ter mais coragem, precisamos de mais coragem política, porque alguém precisa ter uma visão clara disto”, destacou. “Precisamos aceitar a nossa vulnerabilidade." / BORYANA DZHAMBAZOVA CONTRIBUIU PARA A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
corrupçãoterremotoBalcãs

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.