Finbarr O’Reilly para The New York Times
Finbarr O’Reilly para The New York Times

Terrorismo preocupa Benim após morte de guia turístico

Ataques de extremistas causam temor também em países vizinhos como Burkina Faso e Níger

Sarah Maslin Nir, The New York Times

05 de setembro de 2019 | 06h00

PARQUE NACIONAL DE PENDJARI, BENIM - O guia de safári, Fiacre Gbedji, de uma reserva florestal da África Ocidental, muitas vezes não parecia diferente de qualquer outro turista: sempre se entusiasmava ao avistar um leão. Mas quando Gbedji e dois turistas franceses que ele guiava no Parque Nacional foram sequestrados por terroristas, a reação internacional aos homens envolvidos foi muito distinta. Os turistas foram resgatados dez dias mais tarde por soldados franceses. 

Dois comandos franceses foram mortos na missão, enquanto Gbedji desapareceu em meio à atenção internacional; se ele era mencionado, era apenas “o guia”. Ele foi morto pelos sequestradores dias antes da incursão militar no início de maio, informaram as autoridades, e o seu corpo foi devorado pelos animais.

Mas o nome de Gbedji tornou-se um prenúncio apavorante em Benim, país da África Ocidental entre Togo e Nigéria. A nação começava a despontar como destino de safaris, e Pendjari, sob nova direção, como uma joia do país. O sequestro pôs fim a este progresso e passou a chamar a atenção para o fato de que a ameaça do terrorismo que devastou Burkina Faso e outros vizinhos, chegara a Benim. Segundo especialistas, grupos ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico avançam para Benim fugindo dos ataques do exército aos seus antigos redutos em Mali e Níger. E sob a densa vegetação do parque eles encontraram recrutas e refúgio.

Em Natitingou, a aldeia natal de Gbedji, os habitantes perderam não apenas um vizinho, pai de seis filhos com outro a caminho, mas a própria sensação de segurança. Agora, legiões de guias esvaziaram os hotéis, bem como os turistas que cancelaram suas viagens. Hoje, os militares de Benim patrulham o parque entre crocodilos e hipopótamos, sempre de olho na fronteira de Burkina Faso. Aqui, a morte de Gbedji parece a prova de que, se não forem tomadas medidas rápidas, Benim, uma democracia vigorosa e em geral pacífica, deixará de estar imune ao contágio do terrorismo.

A manhã do ataque começou como qualquer outra para Gbedji, então com 33 anos, afirmaram os seus familiares. Ao nascer do sol, ele levantou o mosquiteiro sobre a cama que compartilhava com Veronique Fara, 29 - grávida do seu segundo filho - e foi para a casa da mãe para se despedir dela. Patrice Talon, que assumiu a presidência de Benim em 2016, tornou o turismo uma prioridade do seu governo. Com 1,7 mil elefantes, Pendjari faz parte de um complexo de três parques que se estende entre Burkina Faso, Níger e Benim.

O aumento do numero de turistas ajudou Gbedji a sustentar os seus seis filhos - e as seis mães. “Era um dom de Deus que as senhoras o amassem”, disse sua mãe, Justine Kolikpa, 63. Justine luta contra impulsos suicidas desde a morte do filho, afirmou. Ele não pediu à mãe para fazer o almoço favorito que costumava levar, bolinhos fritos de espinafre envolvido em massa de milho. “Meu filho morreu de estômago vazio”, ela falou.

Tornar-se um guia formado em Pandjari exige a conclusão do ensino fundamental. E Gbedji acrescentou a isto a sua paixão: ele conhecia cada mina de água e cisterna onde os leões vão beber. E conhecia os lugares aonde não devia ir: ao norte do parque está o Rio Pendjari, que divide Benim de Burkina Faso.

Nesse lado, os militantes islâmicos estão ativos e o turismo é “formalmente desestimulado”, segundo o Ministério do Exterior francês. No litoral, houve infiltração de insurgentes que fugiam rumo ao sul das operações militares francesas no Mali e no Niger. Eles recrutam combatentes explorando as tensões entre pastores e camponeses e a competição por recursos já escassos, em razão da mudança climática.

No ano passado, Burkina Faso foi alvo de 137 ataques de grupos islamistas, em comparação com apenas 12 em 2016, segundo o Centro Africano de Estudos Estratégicos. “O desafio para os governos é o fato de que, em vários lugares, os jihadistas atenderam às necessidades de estabilidade a curto prazo dos moradores”, afirmou Corinne Dufka do Observatório de Direitos Humanos.

Em Burkina Faso e no Níger, os extremistas atacaram agentes florestais, obrigando muitos deles a fugir daquele lado do parque. Do lado de Benim, a nova administração revitalizou Pendjari. Mas inflamou os ressentimentos, por exemplo, proibindo a caça de animais selvagens para subsistência, uma prática local. Os terroristas “compreendem as vulnerabilidades específicas localizadas e as exploram”, afirmou um analista de segurança.

Segundo os especialistas, o ataque não significa que os militantes tenham se infiltrado em Pendjari, apenas que estão tentando. A irmã de Gbedji, Prisca, disse que quando ele foi morto, foi a primeira vez que ela imaginou que o terrorismo pudesse chegar a Benim. Agora ela acredita que a ameaça se concretizou. “Não há fumaça sem fogo”, ponderou. Ela deseja visitar o túmulo de Fiacre - mas nunca fará isto. Ela tem muito medo do que possa existir no Parque de Pendjari. / Constant Meheut contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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