Amr Al-Azm
Amr Al-Azm

Tesouros saqueados são vendidos via Facebook

Grupos na rede social que anunciam objetos à venda cresceram durante a agitação da Primavera Árabe e as guerras que se seguiram, o que criou oportunidades para traficantes

Karen Zraick, The New York Times

30 de maio de 2019 | 06h00

Antiguidades saqueadas do Oriente Médio estão sendo postas à venda no Facebook, dizem pesquisadores. Entre os itens estão peças que podem ter sido roubadas por militantes do Estado Islâmico.

 

Grupos do Facebook que anunciam os objetos à venda cresceram rapidamente durante a agitação da Primavera Árabe e as guerras que se seguiram, o que criou oportunidades sem precedentes para traficantes, disse Amr Al-Azm, professor da Shawnee State University, em Ohio, e ex-responsável por antiguidades na Síria. Ao mesmo tempo, segundo Al-Azm, as mídias sociais reduziram as barreiras à entrada no mercado. Agora, há pelo menos 90 grupos no Facebook, a maioria em árabe, ligados ao comércio ilegal.

Eles publicam itens ou consultas no grupo e, em seguida, levam a discussão para mensagens de chat ou WhatsApp, dificultando o rastreamento. Os itens à venda incluem um busto supostamente retirado da antiga cidade de Palmyra, que foi ocupada por militantes do Estado Islâmico durante muito tempo e sofreu pesados saques e danos. Outros artefatos à venda vêm do Iraque, Iêmen, Egito, Tunísia e Líbia. 

A maioria não vem de museus ou coleções, onde sua existência teria sido catalogada, afirma Al-Azm. "Eles estão sendo saqueados diretamente do chão", explicou. “Nunca foram vistos. A única evidência que temos de sua existência é se alguém postar uma foto deles”. 

 

Depois que a BBC publicou um artigo sobre o trabalho de Al-Azm e outros colegas em 2 de maio, o Facebook disse que havia removido 49 grupos ligados ao tráfico de antiguidades. Al-Azm rebateu logo depois afirmando que 90 grupos ainda estavam funcionando. Mas o mais importante, argumentou ele, é que o Facebook não deve simplesmente apagar as páginas, que agora constituem uma evidência crucial tanto para os especialistas em aplicação da lei como para o patrimônio.

 

Uma porta-voz do Facebook disse que a empresa introduziu novas ferramentas para detectar e remover conteúdo que viola a lei. Negociar relíquias roubadas é ilegal sob a lei internacional. Mas pode ser difícil indiciar alguém nesses casos. Leila A. Amineddoleh, advogada especializada em patrimônio cultural em Nova York, disse que determinar a proveniência de itens saqueados pode ser uma tarefa árdua.

 

Al-Azm disse que a pesquisa de sua equipe indicou que os grupos do Facebook são dirigidos por uma rede internacional de traficantes que atendem a revendedores, incluindo os do Ocidente. As vendas são geralmente realizadas pessoalmente, com dinheiro e nos países vizinhos, disse ele, apesar dos esforços na Turquia e em outros países para combater o contrabando de antiguidades.

 

À medida que o ISIS expandiu, ele saqueou e destruiu usando máquinas pesadas para cavar locais antigos que mal haviam sido escavados antes da guerra. Além disso, o grupo permitiu que outros saqueadores tivessem acesso a locais históricos, cobrando um imposto de 20% sobre seus ganhos.

 

A onda de itens à venda provavelmente continuará por anos. Alguns traficantes escondem as antiguidades saqueadas, esperam que os holofotes diminuam e, às vezes, forjam documentos sobre as origens dos itens antes de oferecê-los à venda. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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