Gordon Welters The New York Times
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Para testar disseminação do coronavírus, cientistas organizam show de música

Na Alemanha, voluntários se reuniram em uma arena para um experimento que poderia ajudar a criar medidas de segurança para eventos ao vivo em todo o mundo

Thomas Rogers, The New York Times - Life/Style

07 de setembro de 2020 | 05h00

LEIPZIG, ALEMANHA — O cantor pop alemão Tim Bendzko se esforçava para animar o público na Quarterback Immobilien Arena em uma manhã de sábado. Cercado por instrumentistas e um coro de apoio, ele saltava pelo palco da arena coberta, apontando o microfone para os cerca de 1.400 frequentadores reunidos, pedindo ao público que o acompanhasse cantando.

A resposta foi um murmúrio abafado — nada surpreendente, levando em consideração o fato de o público estar de máscara, sentado no calor. Ainda assim, Bendzko agradeceu a eles e disse, “Hoje, vocês estão salvando o mundo".

Não se tratava de fãs do músico, e sim voluntários em um elaborado estudo criado por uma equipe da Universidade Martinho Lutero Halle-Wittenberg chamada Restart 19. Cada frequentador, equipado com um rastreador digital de localização e um desinfetante para as mãos com corante fluorescente, foi posicionado cuidadosamente em assentos como parte de um experimento para acompanhar o risco de infecção pelo coronavírus em grandes eventos realizados em ambiente interno.

Os pesquisadores esperam usar o resultado para determinar quais elementos de eventos como esse trazem maior risco de transmissão, ajudando a criar parâmetros para limitar esse risco e recomeçar com segurança as apresentações presenciais ao vivo pelo mundo.

O setor de eventos e apresentações musicais ao vivo está entre os mais atingidos pela pandemia do coronavírus. Somente na Alemanha, o segmento movimenta uma receita anual de 130 bilhões de euros (mais de US$ 153 bilhões), de acordo com estudo recente encomendado pelo grupo local IGVW. As casas de shows estiveram entre os primeiros espaços fechados para conter a disseminação do vírus, e seu futuro continua incerto.

As apresentações em espaços fechados foram retomadas na Alemanha, mas lentamente, seguindo regras que variam em cada estado. Mas muitas casas de espetáculos e promotores de eventos dizem que limites ao tamanho do público e exigências de higiene impostos pelas autoridades inviabilizam o funcionamento dos espaços que não recebem subsídios do governo para retomar as atividades. Nos Estados Unidos, especialistas em saúde dizem que apresentações em grandes arenas provavelmente só serão retomadas depois que houver uma vacina disponível.

Leipzig fica no estado da Saxônia, onde são permitidos eventos em espaços fechados com até mil frequentadores — desde que sejam respeitadas rigorosas regras de higiene e distanciamentos social. Mas Philipp Franke, gerente da arena onde o estudo é realizado, disse em entrevista pelo telefone que tal número de frequentadores ainda é baixo demais para justificar uma reabertura. O limite de frequentadores deve ser aumentado em setembro, mas o aumento no número de casos na Alemanha tem levado muitos a questionarem o plano.

Franke esperava que os resultados do estudo permitissem aos políticos tomarem decisões informadas a respeito da retomada das apresentações musicais e dos esportes em ambiente fechado. “Os eventos culturais são socialmente importantes", acrescentou ele. “Uma sociedade precisa de eventos desse tipo para se realizar e extravasar.”

O estudo é comandado por Stefan Moritz, diretor do departamento clínico de doenças infecciosas da universidade. Em entrevista pelo telefone, ele disse que o experimento era uma resposta à falta de literatura científica disponível para orientar os governantes a respeito dos perigos de eventos como o de sábado.

“Sabemos que o contato pessoal na apresentação é arriscado, mas não sabemos onde ele ocorre", disse ele. “É na entrada? Na arquibancada?”. Moritz concluiu que a melhor maneira de obter dados confiáveis seria organizar uma apresentação como teste.

Para minimizar o risco de infecção, todos os voluntários fizeram o teste do coronavírus antes de participarem e mediram a temperatura do corpo ao chegar. Equipados com seus dispositivos rastreadores, máscaras e desinfetante fluorescente, eles receberam instruções para simular diferentes situações de apresentações musicais ao longo de 10 horas: sem aplicar o distanciamento social, aplicando medidas de segurança moderadas e finalmente aplicando-as com rigor.

Cada iteração incluiu apresentações de Bendzko e uma pausa, durante a qual os participantes simulavam visitas às barracas de lanches e bebidas e idas ao banheiro. Usando rastreadores, a equipe monitorou o número de vezes que os frequentadores se aproximaram uns dos outros, posteriormente usando lâmpadas ultravioleta para determinar quais superfícies estavam mais cobertas de desinfetante fluorescente no fim do dia.

Moritz disse que a revelação mais intrigante provavelmente estaria ligada à difusão de aerossóis. Recentemente, os cientistas confirmaram que o vírus pode permanecer vivo em suspensão no ar, possivelmente por horas em um ambiente fechado. “É muito estranho o que ocorre com o movimento do ar", disse ele. “São resultados inesperados.”

Para simular a difusão de aerossóis na arena no sábado, a equipe usou uma máquina de fumaça para emitir uma neblina que banhou a arquibancada. Ela subiu antes de formar uma espiral e se espalhar na direção do púbico. A disseminação de partículas no espaço foi acompanhada pelo modelo da equipe de Moritz, que vai comparar o resultado com dados coletados por sensores de dióxido de carbono usados no estudo.

Moritz disse que os resultados do estudo (patrocinado pelos estados da Saxônia e Saxônia-Anhalt) devem estar prontos no início de outubro. Ele acrescentou que esses resultados devem valer para eventos semelhantes nesses espaços em todo o mundo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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