CJ GUNTHER/EFE/EPA
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Nova geração de testes rápidos do coronavírus está a caminho

Pesquisadores avaliam a precisão de testes com saliva em relação à dos cotonetes que penetram profundamente no nariz, por exemplo

Katherine J. Wu, The New York Times - Life/Style

23 de julho de 2020 | 11h42

No mundo inteiro, os pesquisadores trabalham na nova geração de testes do coronavírus que apresentam resultados em menos de uma hora, sem precisam de dispendiosos equipamentos ou de pessoal especialmente treinado.

Os testes mais recentes chamados ‘point of care’ (ponto de cuidado, em tradução livre), que podem ser realizados no próprio consultório de um médico ou mesmo em casa, proporcionarão o tão esperado aprimoramento a partir do atual: o desconfortável cotonete que penetra profundamente no nariz e pode levar vários dias para apresentar resultados.

Os poucos equipamentos ‘point of care’ agora no mercado são frequentemente falhos. Os próximos testes oferecerão resultados mais confiáveis, segundo os pesquisadores, inclusive permitindo testar as pessoas no lugar em todo o país. Mas a maioria dos novos concorrentes ainda se encontra nos estágios iniciais, e só estará disponível nas clínicas daqui a vários meses.

Alguns dos testes em desenvolvimento trocam os cotonetes, que praticamente fazem cócegas no cérebro, por tubos de plástico que coletam a saliva. Outros são verdadeiros coquetéis químicos ministrados aos pacientes e se iluminam ao detectar genes de coronavírus. Um terceiro tipo de testes identifica proteínas do coronavírus em minutos, usando um aparelho simples, fácil de se produzir em massa e de ser utilizado em lugares onde os recursos são escassos.

“Para combater este vírus, precisamos de testes abrangentes e frequentes, e que permitam oferecer resultados o mais rapidamente possível” , afirmou o dr. Zev Williams da Columbia University, que está desenvolvendo um teste de saliva que pode ser realizado em cerca de 30 minutos. “Isto requer uma autêntica mudança de paradigma da maneira como os usamos”.

A maioria dos testes de diagnóstico hoje no mercado procura fragmentos de material genético específico do coronavírus. (O que distingue os testes de diagnóstico dos testes de anticorpos, que usam amostras do sangue e dizem se uma pessoa esteve exposta ao vírus anteriormente.)

O melhor método hoje envolve a penetração no nariz do paciente de alguns centímetros por meio de um longo cotonete absorvente  até alcançar a nasofaringe, a parte das vias respiratórias em que a passagem nasal encontra a garganta, um alvo comum do coronavírus.

“Quando a gente vê o cotonete, pensa: ‘Não, meu rosto não é tão fundo’ ”, disse Fernanda Ferreira, uma virologista da Universidade Harvard que fez o teste . “Mas é isso mesmo.”

Os genes do vírus podem ser extraídos da amostra com uma sequência específica de substâncias químicas. O material é, então, processado utilizando uma técnica de laboratório chamada reação em cadeia da polimerase, ou PCR, em que uma máquina  passa por várias mudanças de temperatura a fim de amplificar o material genético. Esta fase é fundamental para o sucesso destes testes: copiar o material genético diversas vezes significa que será possível detectar até fragmentos minúsculos do vírus.

Entretanto, o processo pode falhar em diversos pontos. Os cotonetes e os produtos químicos necessários para este processo frequentemente são escassos no mercado, e amostras invasivas exigem pessoal especialmente treinado  e o consumo acelerado de preciosas quantidades de aventais, luvas e máscaras. Além disso, muitos centros de testes nas comunidades não dispõem de máquinas de PCR e devem enviar as suas amostras para grandes laboratórios, o que provoca atrasos de dias e mesmo semanas.

Rachel Coker, diretora de avanço da pesquisa na Universidade Binghamton - uma das várias instituições do país que começaram a reabrir - teve de esperar dez dias pelo resultado, depois de ter colhido amostras em um drive-thru.

“A boa notícia foi que deu negativo”, contou. No entanto, ela poderia ter estado exposta enquanto esperava os resultados. “Quando fui informada”, prosseguiu, “já eram praticamente inúteis”.

Os pesquisadores tentam aperfeiçoar cada parte do processo de diagnóstico.  Uma tática que economiza tempo já foi adotada em todo o país e envolve outras áreas para a coleta de amostras, além da nasofaringe, como colocar o cotonete nas narinas ou na garganta, ou a coleta de escarro.

Estes testes são indolores, e evitam riscos para os trabalhadores da saúde. Mas nem sempre são precisos. “Infelizmente, este vírus não fica muito tempo no nariz ou na garganta”, explicou o dr. Ravindra Gupta, microbiologista clínico da Universidade de Cambridge.

A fim de evitar  equivocadamente que pessoas infectadas sejam declaradas isentas do vírus, Gupta e seus colegas estão desenvolvendo um teste que realiza simultaneamente a triagem dos pacientes para o coronavírus e dos anticorpos que o reconhecem. Frequentemente, os anticorpos começam a aparecer  por volta da segunda semana de infecção.

No Broad Institute de Cambridge, Massachusetts, outra equipe de pesquisadores está dando o passo seguinte na pesquisa amplificando a amostra. No laboratório, os cientistas usam uma técnica que, ao contrário do PCR, copia o material genético a uma única temperatura. Se o vírus estiver presente, um instrumento chamado Crispr para a edição de gene fará com que o conteúdo do tubo brilhe a um comprimento de onda detectável por um smartphone. Todo o procedimento leva menos de uma hora e identifica infecções ativas 90% das vezes.

Experimentos realizados em laboratório que usam o Cispr são considerados muito precisos, com uma baixa taxa de falso positivo, disse Catherine Freije, do grupo de cientistas que estão desenvolvendo o teste Crispr. A tecnologia molecular do teste é específica para o novo coronavírus. E não  reage aos seus parentes virais próximos.

O teste elaborado por Williams e seus colegas da Universidade Columbia poderá ser ainda mais simples. A saliva é colocada em contato com uma série de produtos químicos mesclados anteriormente, que então são incubados a 145 graus Fahrenheit (aproximadamente 62 ºC) por meia hora. Se o tubo ficar amarelo, o teste deu positivo; se ficar vermelho, deu negativo. O teste pode detectar até minúsculos fragmentos de vírus, o que o torna mais sensível do que testes semelhantes, e dá falsos negativos menos de 5% das vezes, conforme mostra um estudo que ainda não foi publicado em uma revista científica. Williams e sua equipe estão aguardando a autorização da FDA, a Agência de Alimentos e Medicamentos dos EUA.

Os pesquisadores ainda estão avaliando a precisão dos testes da saliva em relação à dos cotonetes que penetram profundamente no nariz, mas os primeiros resultados são promissores. “A saliva é colocada em um tubo - é difícil fazer confusão”, disse Anne Wyllie, epidemiologista da Escola da Saúde Pública de Yale, que estuda este tipo de teste.

No entanto, atualmente os testes rápidos são imprecisos na maioria das vezes. Embora “garantam que podemos chegar a uma resposta mais rápida”, afirma a dra. Ibukm Akinboyo, pediatra  e especialista em moléstias infecciosas da Escola de Medicina da Duke University, “perde-se certa sensibilidade. É difícil conseguir as duas coisas”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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